Acontece entre os dias 17 e 27 de novembro, a 11ª edição do Festival Artes Vertentes - Festival Internacional de Artes de Tiradentes. A cidade recebe 40 artistas que participam de uma reflexão sobre (IN)DEPENDÊNCIAS, que trarão uma rica programação que envolve as artes visuais, as artes cênicas, a literatura, a música e o cinema.

O evento é considerado um dos mais importantes festivais de artes integradas do país. O festival traz a proposta para o público uma reflexão em torno das diversas noções de independência, por meio das
linguagens artísticas que tradicionalmente integram a programação do evento – artes visuais, artes cênicas, literatura, música e cinema.

Confira a programação completa

Programação – Artes Visuais

A programação de artes visuais apresenta duas exposições coletivas: “Ainda que tardia”, realizada em parceria com a UFMG e o Campus Cultural UFMG em Tiradentes, acontecerá no Museu Casa Padre Toledo, antiga residência do inconfidente Padre Toledo, em Tiradentes, onde as ideias de liberdade começaram a se forjar como deslealdade, conjuração, insurgência, insurreição. Luiz Gustavo Carvalho, Verona Segantini, Guilherme Trielli e Fernanda Brito, curadores da mostra, propõem um diálogo entre obras que pertencem à coleção permanente do museu e à coleção Brasiliana da UFMG e obras de artistas contemporâneos brasileiros como Arthur Bispo do Rosário, Edgar Xacriabá, Ricardo Aleixo e Mabe Bethônico. Em 2022, quando tanto se fala sobre Independência, é “oportuno retomar as tentativas de liberdade, comemorá-las e assumir sua qualidade de algo que é ou está incompleto e fazer uma pergunta: quais independências comemorar e quais independências sonhar?”, comentam os curadores. Para enriquecer este diálogo, foi realizado ainda um convite a alguns artistas para a criação de obras que proponham alguma reação e/ou reflexões às obras históricas que compõem a mostra.

A segunda exposição que integra o Artes Vertentes, “Retratos modernistas do Brasil”, faz uma homenagem à Semana de Arte Moderna de 2022. Por meio de pinturas de alguns dos protagonistas do movimento de 1922, como Anita Malfatti e Di Cavalcanti, e obras de outros modernistas como Vicente do Rego Monteiro, José Pancetti e Alberto da Veiga Guignard, a coletiva ressalta também a influência deste movimento
nas artes plasticas brasileiras durante todo o século XX. A mostra é realizada em parceria com o Centro Cultural Yves Alves.

Programação – Artes Cênicas

A passagem dos modernistas por Minas Gerais e, mais especificamente, por Tiradentes, encontra eco ainda na programação de artes cênicas do festival. A convite do Artes Vertentes, a bailarina e coreógrafa Morena Nascimento, que por anos integrou a renomada companhia de dança de Pina Bausch, na Alemanha, prepara uma performance em torno do Lobisomem de Minas. Este personagem foi criado pelo autor suíço Blaise Cendrars a partir de um relato de antropofagia coletado junto a um dos presos da cadeia de Tiradentes, quando o escritor acompanhava Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e outros modernistas na famosa viagem pelo interior de Minas Gerais. “É interessante pensar que um relato de antropofagia ecoava na cidade justamente na época em que os artistas, cujo um dos principais manifestos seria o Manifesto Antropofágico, passavam pela cidade”, comenta Luiz Gustavo Carvalho. A performance inédita conta, ainda, com a participação da violinista portuguesa Sofia Leandro e do percussionista Bruno Santos e acontecerá no Largo de Sant’Anna, atrás da antiga cadeia municipal, ressaltando o tradicional diálogo entre as artes e o patrimônio histórico de Tiradentes, proposto há 10 anos pelo Festival Artes Vertentes.

A Cia. de Dança Palácio das Artes, da Fundação Clóvis Salgado, comemora os seus 50 anos de existência no mesmo ano em que a Semana de Arte Moderna de 1922 completa 100 anos. E como parte do programa O Modernismo em Minas Gerais, a Cia. de Dança estreia .m.a.n.i.f.e.s.t.a. - espetáculo que comemora essa data e que fará parte da programação das artes cênicas do Festival Artes Vertentes. E para criar o espetáculo que comemora essas 5 décadas, foram convidadas duas mulheres artistas
que já integraram a equipe artística da Cia. e que agora retornam como diretoras da criação, Kenia Dias e Marise Dinis. Juntas ao elenco, mergulharam no modernismo brasileiro, evocando a força de seus manifestos, e também na história dessa Cia e na sua essência vanguardista de origem, para dar voz ao que está em latência nesses corpos brasileiros de 2022. E desse encontro nasce M.a.n.i.f.e.s.t.a., um ato coletivo de vozes e corpos, várias danças-textos em textos-corpos; é uma experiência coletiva de
existir hoje.

O ator Gilberto Gawronski volta para o Festival com o espetáculo “O ato da comunhão”. Em cena, um homem relembra três momentos de sua vida: o aniversário de oito anos, a morte da mãe e um jantar bastante peculiar com outro homem que conhecera pela internet. Livremente baseada num fato real, conhecido na mídia como a história do “canibal alemão”, Gilberto Gawronski leva à cena, com elaborada delicadeza, algumas complexidades perturbadoras da vida contemporânea. Tecnologia, conexão, solidão, instinto e civilização permeiam esta trama verídica, que oscila entre o moderno e o arcaico.
“Luiza Mahin... Eu ainda continuo aqui” também é destaque da programação de artes cênicas do festival.

O espetáculo aborda o extermínio da juventude negra no país, bem como o desaparecimento destes jovens oriundos de comunidades e periferias, relatados por várias mães negras. Em cena, mães negras contemporâneas, vítimas do extermínio de seus filhos e do feminicídio, traz à tona o genocídio de jovens negros das periferias, e joga luz sobre essa cíclica separação forçada dos filhos que acomete as populações negras há séculos, desde a travessia do Atlântica, nas diásporas. A montagem promove um cruzamento entre os relatos destas mães com a personagem ancestral Luiza Mahin, nascida no início do século XIX, mãe do advogado abolicionista e jornalista Luiz Gama, vendido como escravo pelo próprio pai. Com sua existência até hoje posta em dúvida, Luiza Mahin, que ficou conhecida como revolucionária na Revolta dos Malês (1835 - BA), representa para a comunidade negra o ideário de uma ancestral guerreira, símbolo de força e inspiração para as mulheres negras. Sua história ainda é praticamente desconhecida, apesar da importância contundente do seu filho Luiz Gama como jornalista e advogado abolicionista.

Com o desejo de colaborar para que as pessoas, majoritariamente mulheres, pobres e negras, que foram “apagadas” de uma história oficial brasileira tenham suas histórias cada vez mais conhecidas, o Festival Artes Vertentes mapeou alguns personagens que, como Luiza Mahín, tiveram relevância nos processos de independências para a realização de um trabalho com as crianças e adolescentes do município de Tiradentes no âmbito da Ação Cultural Artes Vertentes. As histórias de Antonieta de Barros, Maria Felipa, Xica Manicongo e João Cândido são contadas pelos participantes do projeto sociocultural desenvolvido pelo Festival Artes Vertentes no município desde 2013. O resultado deste trabalho, que foi uma oportunidade de oferecer à população infanto-juvenil da cidade uma iniciação à xilogravura à literatura de cordel, será apresentado ao público durante o Festival Artes Vertentes. “Realizada pelo Festival Artes Vertentes e pela Associação dos Amigos do Festival Artes Vertentes, a Ação Cultural Artes Vertentes é uma forma de mantermos os impulsos artísticos vivos na cidade durante todo o ano.

As atividades de artes visuais e músicas que acontecem semanalmente e de maneira gratuita representam uma possibilidade de que a população tiradentina seja sempre envolvida de maneira ativa nas reflexões propostas pelo festival”, ressalta Maria Vragova, co-criadora e diretora executiva do projeto.

Programação - Literatura

A programação literária do evento contempla lançamentos de livros, performances literárias e oficinas com os autores Edimilson Almeida de Pereira, Ricardo Aleixo, Prisca Agustoni, André Capilé e Tal Nitzán. Ricardo Domeneck, um dos mais importantes poetas da sua geração, será o escritor em residência da 11ª edição do Festival Artes Vertentes. Um ciclo de debates em torno do tema do festival reunirá Tierno
Monenembo (Guiné), escritor de importância primordial na reflexão sobre o pós-colonialismo no continente africano, Mia Couto, Mary del Priore, Duda Salabert, Chico Pelúcio, Eliane Brum, entre outros.

Programação - Cinema

A programação de cinema do Festival contempla várias sessões de cinema e animação em torno de tema (in)dependências. Entre os filmes apresentados pode ser destacado Pureza, de Renato Barbieri. O filme, inspirado em fatos reais, conta a história de uma mãe (Pureza) que sai em busca de seu filho, desaparecido após partir para o garimpo na Amazônia. No dia da consciência negra, 20 de novembro, será exibido Abolição, de Zózimo Bulbul. O filme de 1988, propõe uma reflexão crítica sobre a então
comemoração dos 100 anos da abolição da escravatura.

Programação - Música

Na área da música, o Artes Vertentes apresenta o pianismo de Amaro Freitas, que mescla inúmeros timbres e ritmos de origens afro-brasileiras, presentes em manifestações musicais do Nordeste, ao universo do jazz. O pianista pernambucano abre a programação do evento, no dia 17 de novembro, no palco Padre Toledo. Outro destaque é a participação da cantora Virgínia Rodrigues, que se apresenta no dia 22 de novembro dentro da programação musical do festival. As igrejas históricas de Tiradentes serão palcos de 14 concertos de música de câmara que contarão com a participação da violinista francesa Alexandra Soumm, do pianista Cristian Budu, dos violistas Iberê Carvalho e da bielorrussa Darya Filippenko, além da soprano Eliane Coelho.

Um dos destaques da programação é a ópera Domitila, do compositor João Guilherme Ripper, criada a partir da correspondência amorosa trocada entre D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos, interpretada pela soprano Marly Montoni. A música que se ouvia nos anos da proclamação de Independência do Brasil, em 1822, também integrará os concertos do Festival Artes Vertentes. Ao lado de obras de Mozart, Haydn e Beethoven, a obra de Sigismund Neukomm, compositor austríaco que veio para o Brasil junto com a corte da Imperatriz Leopoldina e que foi influenciado pela música que descobriu no Brasil, tece um diálogo entre o Classicismo vienense e o Brasil. Uma noite de cabaré com a participação de Manuela Freua abordará a questão da censura, enfrentada pela arte em diversas épocas da história.


 

Foto: Divulgação - Evento acontece entre os dias 17 e 27 deste mês

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