Paula Medeiros Paula Medeiros 7/5/2011

Um lobo mau para adolescentes

Aproveitando a nova era dos filmes com temática sobrenatural para adolescentes, Catherine Hardwicke, também diretora do primeiro filme da série Crepúsculo, agarrou com firmeza o roteiro de A Garota da Capa Vermelha. Num tempo em que releituras de clássicos, sejam da literatura, sejam do próprio cinema, são uma tendência cinematográfica, nada mais inteligente do que unir o útil ao agradável. É assim que a fábula da Chapeuzinho Vermelho sai dos livros infantis e ganha um triângulo amoroso e ares sombrios.

Valerie (Amanda Seyfried) é uma jovem habitante de um vilarejo assombrado por um lobisomem. Desde criança ela é apaixonada por Peter (Shiloh Fernandes), mas seus pais a prometeram a Henry (Max Irons). Decida a fugir com seu verdadeiro amor, Valerie tem uma surpresa: o monstro que aterroriza sua vila quebra o pacto de paz firmado há anos e mata sua irmã mais velha. Decididos a vingar a violência da criatura, os habitantes da cidade partem numa caçada sangrenta, que levará à descoberta de mistérios nunca imaginados antes.

A estrutura do filme é velha conhecida do público teen. É firmado um triângulo amoroso, em que o amor do casal principal é impossível. O terceiro sujeito desse triângulo geralmente é um cara correto, delicado e compreensivo. Em alguns momentos, a donzela chega até a se envolver com ele. Assim como ela, o público feminino é cativado por sua nobreza. Mas, no fim, o grande e verdadeiro amor é mais forte, independente se ele sobreviverá às adversidades ou não. Lendo esse parágrafo é possível até se confundir. Estamos falando de Crepúsculo ou de A Garota da Capa Vermelha? A resposta é simples. De ambos.

A carona que Hardwicke pegou na história de Stephenie Meyer vai além do triângulo amoroso. Ela é clara também quando a diretora aposta num filme sombrio, mas que não é pesado. O caráter sobrenatural da história está longe de ser assustador. Ele é, na verdade, intrigante, curioso e, inclusive, um pouco atraente. Que garota não gostaria de ser "a escolhida", nem que fosse para combater uma maldição?

A fotografia do vilarejo é gelada, composta pela neve incessante que cobre os eucaliptos e as casas rústicas. As locações das filmagens também são um elemento em comum com a semelhante saga do vampiro Edward. Crepúsculo foi ambientado no estado de Washington, nos EUA, e A Garota da Capa Vermelha no distrito de British Columbia, no Canadá. Uma região faz divisa com a outra, o que garante vegetação e clima bastante semelhantes.

A transformação do lobo mau em lobisomem aqui consolida um retrato do imaginário contemporâneo. Antes o público infanto-juvenil era encantado pelos contos de fadas. Hoje, ele é encantado por um outro universo, um que ainda contém magia e mistério, mas com alguns valores alterados. No lugar da princesa delicada e inocente, está a garota determinada e valente. No lugar de bruxas malvadas, está a própria espécie, convertida para o mal. Tudo isso reflete, de maneira clara, as transformações de valores de uma sociedade. O espaço da mulher é cada vez maior. Então é normal que seu retrato atual, mesmo numa fábula, seja calcado em independência, atitude e, acima de tudo, ela tenha poder de escolha.

Em relação ao Garota da Capa Vermelha, como filme, fica claro que é uma aposta dos estúdios em mais um roteiro que se garante diante do público-alvo. De inovador, ele não tem nada, nem mesmo nos efeitos especiais que pairam sobre o lobisomem. Mas é interessante observar a adaptação de um clássico da literatura mundial sob as exigências da juventude contemporânea. A história original nunca será, de fato, alterada. Mas se a tendência das releituras permanecer, cada era terá sua própria versão de Chapeuzinho Vermelho.

A Garota da Capa Vermelha / Red Riding Hood

 EUA , 2011 - 100 minutos
Romance / Suspense
Direção: Catherine Hardwicke
Roteiro: David Johnson
Elenco: Amanda Seyfried, Shiloh Fernandez, Max Irons, Gary Oldman, Virginia Madsen, Billy Burke, Lukas Haas, Julie Christie


Paula Medeiros
é estudante de Comunicação Social com participação em Projetos Cinematográficos.

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