Paula Medeiros Paula Medeiros 30/4/2011

Superficialidade é tema de Uma Manhã Gloriosa

Uma Manhã Gloriosa não sabe a que veio. Simplesmente não se define como comédia e nem como romance e acaba se perdendo em si mesmo. Diante dessa situação, a única alternativa de classificação que resta é enquadrá-lo na mesma categoria dos programas de televisão retratados por ele: superficial, assim como o público para quem é direcionado.

Becky Fuller (Rachel McAdams) é produtora de TV e após ser demitida da emissora para qual trabalhava, tenta a sorte e consegue um emprego num outro canal. O programa matutino que assume está em total decadência e sua principal função é revitalizá-lo. Mas seu maior desafio ainda está por vir: convencer o renomado repórter Mike Pomeroy (Harrison Ford) a assumir as matérias fúteis e superficiais de seu show. Para piorar, Mike e a outra apresentadora, Colleen Peck (Diane Keaton), trocam diversas alfinetadas entre si, piorando o clima no estúdio. No meio de toda essa confusão profissional, Becky ainda arranja — ou tenta arranjar — tempo para se envolver com o repórter Adam Bennett (Patrick Wilson).

O filme, machista disfarçado, precisa o tempo inteiro retratar a autossuficiência profissional da personagem Becky Fuller. Mas a figura estabanada, antissocial e afobada da personagem é o extremo oposto do que uma produtora de TV nova-iorquina deveria ser. Uma pessoa assim seria capaz de triunfar nesse meio só mesmo num conto de fadas. Esse fato acaba por confirmar a essência sexista que está por trás do roteiro, já que o retrato da mulher bem-sucedida profissionalmente não é levado a sério.

O roteiro é bastante raso. Soa, inclusive, como uma metalinguagem insinuada, referente aos próprios programas de futilidade que representa. Se seu objetivo foi criticar a banalidade das notícias e a superficialidade temática que assola os telejornais da atualidade, o tiro saiu pela culatra.

O ritmo do filme também é bem confuso. Nos primeiros quinze minutos, é possível notar a presença de cenas que estariam no roteiro de comédias escrachadas, que não buscam qualquer verossimilhança e apostam no humor pastelão. Depois de um tempo, essas cenas simplesmente desaparecem. Eis que surge o protótipo de uma comédia romântica, agora com maior ênfase no romance do que na comédia. 

A direção de atores consolida ainda mais o equívoco rítmico de Uma Manhã Gloriosa. A interpretação de Ford, do jornalista sisudo e cheio de si, foi tão forçada, que se projetou para além da caricatura. O personagem é chato de uma maneira chata e se, supostamente, estamos falando de uma comédia, o objetivo é divertir, não irritar. Há sempre aqueles que dizem que "se nos irritou é porque ele interpretou bem o papel do antipático". Infelizmente, desculpas nesse tom não cabem aqui: ele forçou demais a interpretação.

Diane Keaton tenta, se esforça, mas parece nadar e morrer na praia. Não sustenta sozinha o peso de toda a comédia e, apesar de fazer uma força hercúlea para não deixar o filme desandar, seu papel não oferece nada a que ela possa se agarrar para triunfar. Rachel McAdams mostra uma atuação simpática, mas, mais uma vez, o roteiro impede o desenvolvimento harmônico de um dos personagens.

Nem para fãs assíduos de Big Brother — a semelhança entre Pomeroy e Pedro Bial, dois grandes jornalistas reduzidos ao cargo de apresentadores de entretenimento é um fato, no mínimo, curioso — o filme parece ser suficiente. Mesmo quem busca despretensão, leveza e um filme distante da reflexividade, aprecia um ritmo bem apurado e uma história cativante, duas coisas que passaram em longe de Uma Manhã Gloriosa.

Uma Manhã Gloriosa / Morning Glory

EUA , 2010 - 107 min.
Comédia
Direção: Roger Mitchell
Roteiro: Aline Brosh McKenna
Elenco: Rachel McAdams, Harrison Ford, Diane Keaton, Patrick Wilson, Jeff Goldblum, Ty Burrell, John Pankow, Steve Park


Paula Medeiros
é estudante de Comunicação Social com participação em Projetos Cinematográficos.

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