Paulo César Paulo César 10/3/2012

Stephen Daldry revela traumas pós 11/9 por meio de uma criança em Tão Forte e Tão Perto

 

Poucos no cinema atual sabem lidar com os traumas e provações humanas como Stephen Daldry. Depois de ser light com a fabulosa epopéia de Billy Elliot, no filme homônimo, passou a explorar, de uma forma mais amarga, a psiquê de seus personagens ante as mais diversas situações limite. Foi assim com a infelicidade multitemporal das mulheres de As Horas (2002), a culpa e o castigo em O Leitor (2008), e agora com o subestimado Tão Forte e Tão Perto, que explora as consequências do 11 de setembro por meio da visão de um jovem introspectivo.

Neste longa, o roteiro de Eric Roth, adaptado do livro de Jonathan Safran Foer, viaja junto com o jovem Oskar Shell (Thomas Horn) aos mais profundos traumas do país, sendo que ele, portador da Síndrome de Asperger (variadas fobias), se tornou uma espécie de fio condutor para um debate mais amplo. A procura do menino pela fechadura correspondente à chave que seu pai havia deixado, permite que interaja com diversos tipos de pessoas, com suas histórias de vida, que, de certa forma, são semelhantes a sua. Aos poucos ele vai percebendo que não era concebido com uma maldição por ter perdido um ente querido.

Daldry esmiuça o sofrimento do jovem, fragmentando-o de maneira a encaixar as peças de acordo com a evolução de sua incursão pelos distritos de Nova Iorque. A montagem não-linear sem demarcações de mudança de tempo, introduz o espectador de forma gradativa, apesar de complexa, à dor generalizada que se abateu, em especial, aos habitantes da cidade. A categoria do diretor vai amarrando o drama do menino aos dos indivíduos que encontra pelo caminho, transformando em um interessante estudo do comportamento da população americana pós 11 de setembro.

O elenco é formidável. Tom Hanks, em pouco tempo, mostra muito do habitual brilhantismo. Sandra Bullock mostra competência, provando que o Oscar conquistado há dois anos não foi sua "aposentadoria". O estreante Thomas Horn cresce em cena a cada segundo em que seu personagem avança em seu sofrimento. É uma grata revelação. Entretanto, quem rouba a cena é Max Von Sydow. O veterano que, sem dizer sequer uma palavra, mostra que sabe lidar com crianças em cena (Vide Pelle, O Conquistador, 1989) e ser sublime, sem caricaturas.

Um bom trabalho, porém visto com certo olhar superficial de alguns críticos, que esperavam um estudo amplo dos efeitos do atentado que chocou os americanos. Contudo, a visão de Daldry ocorre por meio de um único personagem, o que confirma sua excelência como o diretor mais intimista do cinema atual.


Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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