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    Daniela Aragão Daniela Aragão 4/08/2014

    Entrevista com a pianista, cantora e compositora Délia Fischer

    A artista foi indicada ao prêmio Bibi Ferreira pela direção do espetáculo Elis, a musical

    DeliaDaniela Aragão: Como se deu o seu primeiro contato com a música?

    Délia Fischer: Suponho que foi através da dança, pois a paixão inicial de minha vida era a dança, o movimento. A música entrava de uma maneira muito natural, muito simbiótica nesse processo e eu talvez nem desse conta de que era ela que estava me levando. A minha família era mais ligada ao corpo, meu pai tinha sido atleta, minha mãe teve muita ligação com o ballet clássico. Fiz jazz, sapateado, ginástica olímpica, todas essas atividades voltadas para o movimento. Na adolescência fiz um cruzeiro com minha mãe que ia até Manaus e me apaixonei pela banda que tocava no navio. Tinham duas bandas, umas mais MPB e outra de uns bem jovenzinhos que tocavam um repertório mais rock and roll. Enlouqueci com eles. Nessa época eu ainda não sabia nada, tinha em mente um repertório do Led Zeppelin. Fui anotando as referências que eles faziam e quando voltei para o Rio fui numa loja tentar encontrar os discos. Na época ainda existia loja de discos (sorri). Fui pedindo ao vendedor "The who" , "Led Zeppelin", entre outros. Quando chegou o "Novos baianos" deu o primeiro lampejo de música brasileira em minha cabeça. Já tinha ouvido Chico Buarque e gostava de algumas coisas do Brasil, mas o rock foi mais forte. O "Novos baianos" fez uma ponte, dá para ser espírito rock and roll e brasileiro ao mesmo tempo. Dali abriu-se para mim Moraes Moreira, "A cor do som", Gilberto Gil, Caetano, tudo o que a MPB permite.

    Daniela Aragão: Seu instrumento é o piano, como começou a entrada mais efetiva na música propriamente?

    Délia Fischer: Comecei pelo violão, comecei a estudar piano sei lá por que. Eu gostava mais do violão. Queria tocar guitarra por gostar muito de rock. Minha mãe me enrolou para tocar violão, então era o estudo clássico com o pé no banquinho. Não era nada disso que eu queria na época. Quando me dei conta estava estudando piano e Debussy, Ernesto Nazareth. Tive um estudo que começou radicalmente com treze anos através de professor particular. Recordo-me que em minha primeira aula de piano falei com minha professora que queria fazer música profissionalmente. Interessante, pois naquela época não existia um estudo de música popular, hoje em dia tem. Mas desde o princípio para mim esteve muito claro que teria que estudar o clássico para conhecer a base. A literatura pianística é muito bacana pois você tem acesso a praticamente tudo, ao barroco, ao clássico, ao contemporâneo. Sem querer desmerecer os outros instrumentos, para quem gosta de compor o piano oferece os mais vastos recursos.

    Daniela Aragão: Com a entrada do piano você manteve o violão?

    Délia Fischer: Fui mantendo. Vejo através de meu filho, que por exemplo gosta de violão, que este é um instrumento muito bacana para composição. Tem o lance de corda solta. Tem uma sonoridade muito particular. Na minha adolescência tive um cavaquinho e dois violões e num ataque de loucura e raiva típico de rebeldia quebrei tudo, ali acabou minha carreira de instrumento de corda (risos). Depois fiquei tão triste, só que o piano nunca pude quebrar (risos).

    Daniela Aragão: Você passou pelos grandes clássicos então?

    Délia Fischer: Sim, a história do piano se tornou um desafio. Aconteceu uma coisa interessante, pois para piano clássico comecei muito tarde. Recordo-me que tinham uns meninos de doze anos tocando Chopin, fugas de Bach e eu tocava o elefantinho manco, imagina, eu estava começando a estudar. Adolescente querendo tocar encarei aquilo como um desafio. Acho que fui muito rápido devido a minha sede, em um, dois anos já estava tocando um repertório. Com quinze estava me preparando para um repertório como Bartok, Debussy, Ravel, coisas de gente grande. Foi muito desafiador. Num tempo então aconteceu de largar o violão e ficar somente com o piano e sempre com o foco na composição. Desde o violão eu já compunha.

    Daniela Aragão: Em seu CD "Saudações a Egberto" você traz um Egberto mais palatável, mais digerível, mais solar. Muitas vezes ele costuma chegar com uma marca hermética, até mesmo intensificada pelos músicos que adentram em sua obra sugerindo modalidades interpretativas. O Egberto visto por você é tão simples e por isso tão belo.

    Délia Fischer: Exatamente, você entendeu toda a proposta do trabalho. Justamente na transição do estudo formal, clássico, para o popular, veio a minha escuta do Egberto. Como nessa época tinha loja de discos, fui comprando tudo até possuir a discografia completa, desde o "Sonho 70". O Egberto em seu início de carreira era muito ligado a música popular brasileira, ele cantava, um dado que muita gente não sabe. Ele estava muito sintonizado com a canção, gostava muito de Milton Nascimento sobretudo. Ele levou esse lado fortemente até o "Em família", que foi o último disco em que Egberto cantou. A partir daí ele interrompe e fica mais ligado ao instrumental. A música de Egberto a princípio veio para mim como canção de ninar, era muito natural. "Carmo" foi um disco de cabeceira, tanto que era muito natural querer tocar bem e querer lidar com aquelas canções. É muito orgânico, a melodia dele não é truncada, é orgânica e ligada a tradição da música brasileira.

    Daniela Aragão: O que observo também em "Saudações a Egberto" é o fato de que sua voz compõe plenamente o corpo das canções. É parte integrante sem o objetivo de suplantar a composição de base. Parece-me que no seu caso a voz está a serviço da música.

    Délia Fischer: Em uma época de minha vida estive muito ligada a voz, ao coro, era uma "ratinha de coro", aparecia um coro israelita ou brasileiro que se apresentasse com orquestra e ia eu lá participar. Gostava de cantar no coro para poder ficar perto da orquestra. Eu tinha uma questão complicada com a voz, pois era muito soprano. Digamos, uma soprano intragável. Vivi então muito a questão da não aceitação de minha voz. Enquanto estava no coro tudo bem e possivelmente até ele tenha me puxado para isso, pois no coro é conveniente que você tenha alguns agudos. Tive um professor de canto que me disse que eu daria uma ótima soprano ligeiro, isso para mim foi um tiro. Falou que eu poderia chegar a cantar "A rainha da noite". Isso foi um tremendo balde de água fria, pois eu gostava da Elis Regina, que era a minha musa mor. Fiquei em crise durante muitos anos.

    Daniela Aragão: A música popular brasileira trabalha com tons mais baixos.

    Délia Fischer: Favorece inclusive a letra, pois uma música que utiliza muitos agudos impossibilita até o entendimento. Daí veio essa onda do instrumental que contagiou o mundo e eu ainda estava cantando, tinha o "Duo Fênix". Teve o rock 80 e o instrumental logo depois. Minha voz era muito infantil, muito aguda, então fui deixando de lado até que anos depois senti uma necessidade fisiológica de voltar a cantar. Eu estava compondo e precisava cantar minhas próprias composições.



    Daniela Aragão: É muito evidente em seu trabalho a representação da música enquanto totalidade. O seu trabalho é com a música e a voz está a esse serviço.

    Délia Fischer: Exatamente, a minha busca é essa. Busco a música, tem um acorde aqui, uma levada lá. Fico querendo entrar na música como um todo. Acho que cantoras como Nana e Elis se dedicaram a interpretação quase que como atrizes. Algumas são tão brilhantes como Elis, que traz uma marca autoral, faz a música ser dela. Algumas cantoras possuem essa capacidade. Não devo deixar de destacar a importância que teve em minha retomada do "cantar" a atuação do preparador vocal Felipe Abreu. Ele me deu aulas de voz e renovou toda a minha maneira de cantar, pois antes eu era uma soprano de coral. Ele me auxiliou no sentido da valorização de meu próprio suporte vocal, cantei no meu disco presente impulsionada pelo estímulo e trabalho exercido pelo Felipe. Cantar não significa a meu ver um ato menor e muita gente se engana achando que posso ter essa posição por ser uma compositora e instrumentista. Me vejo a cada dia mais aberta para interpretar e buscar uma visão própria, que tenha a minha marca. Com todo o respeito às grandes intérpretes, me qualifico como cantora.

    Daniela Aragão: A marca definitiva, a assinatura.

    Délia Fischer: O disco dedicado a Egberto não traz músicas minhas, mas a minha leitura do todo, não só cantando, mas com arranjo, produção. Estou aberta, tenho feito muito teatro e há peças em que até atuei. No musical dedicado ao Milton Nascimento participei cantando.

    Daniela Aragão: E como se dá a sua entrada no universo dos musicais como compositora e diretora musical?

    Délia Fischer: Isso é uma história longa. Depois que o "Duo fênix" acabou fiquei trabalhando como instrumentista por anos, como pianista, como arranjadora. O musical me chegou através do Ed Motta, que me carregou para essa vertente. Ele fez uma peça chamada "7 o musical", em que compôs as músicas em parceria com Claudio Botelho e texto de Charles Miller. Como eu já tinha sido professora do Ed Motta e ele conhecia meu trabalho substancialmente, achou que eu seria a pessoa mais indicada para trabalharão seu lado pelo fato de eu estar ligada ao canto, a letra. O Ed sacou isso de maneira muito interessante, é uma retroalimentação. Por gostar de letra, voz e canção, o teatro é muito interessante para mim. Tem me trazido um amadurecimento cada vez maior, claro que o meu tempo para dedicar as minhas coisas tem sido cada vez menor. Uma peça grande me exige de três a quatro meses de trabalho intenso, sendo que nos últimos anos emendei, foram duas a três peças por ano. Uma loucura total e de certa forma irrecusável. Em 2102 veio Milton "Nada será como antes", com direção de Claudio Chaves, nesta fiz arranjo e cantei. De repente eu estava fazendo parte do elenco também. Milton Nascimento é uma paixão imensa em minha vida e acho que me dei conta de que a música mineira foi a que mais ouvi. Beto Guedes, Toninho Horta, Milton. No espetáculo dedicado ao Milton a primeira coisa que fiz foi transcrever tudo, criar uma espécie de songbook que antes não existia. Deu muito trabalho, participar dos ensaios e depois compor os arranjos em cima daquilo. O elenco todo tocava e havia momentos em que eu nem precisava tocar. Essa experiência foi muito rica pois também me vi na pele de intérprete, ao me colocar sob um outro lugar. Nesse mesmo ano veio o "Rock in Rio musical", uma peça enorme. Tinha tudo, desde Elba Ramalho a Guns and Roses, foi uma peça de muito vulto com um elenco de vinte e cinco pessoas.

    Daniela Aragão: E a direção do musical sobre Elis Regina?

    Délia Fischer: Nelson Motta veio com um texto pronto, além de toda uma pesquisa musical. Ele conhece Elis profundamente, tanto no plano pessoal quanto artístico. Noventa e cinco por cento do que o Nelson fez usamos na peça. Foi uma luta até chegarmos a escolher a cantora que representaria Elis, foram ouvidas cerca de quatrocentas até encontrarmos Laila Garin. Esta foi a primeira que de fato apresentou um material vocal, amplitude. A maioria das pessoas que vinham cantando em nossa audição não alcançavam, embora a carinha às vezes parecesse com a de Elis. A maior preocupação que tivemos foi com a emissão, pois Elis não era uma cantora de voz pequena. Laila já veio com um material pronto, precisamos somente escurecer um pouco trazendo-a para o grave. Ela é uma soprano, com uma voz mais aguda, já Elis é meso. Ela desceu um pouco o que seria confortável para a sua extensão vocal. Laila ganhou todos os prêmios, foi uma revelação e continua sendo. Dedicamos atenção total a interpretação e escolhemos um caminho muito bom, por mais que ela ouvisse Elis eu pedia para que não quisesse fazer igual. Desde o começo gostei da Laila, embora soubesse que iria causar um estranhamento. Uma menina ruiva, de olhos azuis, filha de brasileiro com francês. A imagem dela foi toda trabalhada, teve um visagismo forte. Laila colocou peruca e tal. Ela não possui nenhuma semelhança física e no entanto em cena você vê Elis Regina. Ela é muito boa atriz e canta muito bem, tem um preparo vocal robusto, formação de canto lírico e ao mesmo tempo muito ligada em MPB.

    Daniela Aragão: Seu cd "Presente" traz uma valorização destacável do lirismo. Vejo ali uma espécie de poética da natureza, mais especificamente uma poética musical das águas, que é o elemento predominante.

    Délia Fischer: Nessa época eu já estava voltando a escrever letras com parceiros muito ligados ao ofício da composição como Sérgio Natureza, Camila Costa e Tiago Pich, que é escritor. A questão mar é o meu elemento, me equilibra estar em contato com o mar. Esse disco são águas divisórias, pois estava com um pé no eletrônico e outro no acústico.

    Daniela Aragão: "Presente" traz essa riqueza múltipla, "Araçagi" por exemplo é uma música instrumental que traz você em diálogo com os músicos numa Jam session. Observo então a alternância entre a cantora, compositora e instrumentista, que lida com total desenvoltura na complexidade jazzística.

    Délia Fischer: Tenho os dois lados que às vezes entram em conflito, estou muito mais cancioneira atualmente, muito mais pela música que pelo desempenho. Estou mais para Dorival Caymmi.

    Daniela Aragão: Você faria uma leitura da obra de Dorival Caymmi?

    Délia Fischer: Claro, com o maior prazer. Considero o Dorival um gênio. Depois de anos me cai essa ficha, costuma-se estudar muito e valorizar-se o complicado e o simples na verdade é o que é mais difícil de fazer. Você entendeu bem essa busca em meu trabalho pela simplicidade. Quero ver uma pessoa fazer uma música com um acorde só. Desde o "Presente" tenho entrado nessa procura pelo mais simples e no próximo pretendo utilizar ainda menos elementos. Tenho gostado muito de minimizar.

    Daniela Aragão: Quais são os novos projetos?

    Délia Fischer: Elis é um trabalho que não para, já estou sabendo por alto que acontecerão uns desdobramentos. Estou fazendo a direção de um musical sobre o Chacrinha. Já é o oposto de tudo, com texto de Pedro Bial. Chacrinha é uma peça tropicalista, brega, MPB. Tem de tudo essa peça e num tom leve e bem humorado, com direção do Andrucha Waddington. O trabalho com atores proporciona um rendimento muito legal para minha cabeça. Como sou virginiana e gosto de estudar e no momento estou com pouca disponibilidade para isso, aproveito e aprendo muito com as peças que faço. Como é que se dirige, como é que se monta, como é que se lidera. Delegar, confiar no outro é uma aprendizagem que também vou adquirindo e aprimorando.

    Daniela Aragão: E com o cinema você já trabalhou?

    Délia Fischer: Estou louca para. Trabalhar para o teatro me faz muito feliz, só tenho uma pequena frustração que é ainda não ter tido a oportunidade de ser autora. Na verdade quando tinha dezessete anos fiz muitas composições para teatro. O teatro que tem funcionado mercadologicamente é um musical que de fato não é um musical, ou seja, é uma peça em que você pega várias músicas conhecidas. O grande barato do musical como se dá na Broadway é um texto inédito com músicas inéditas. Minha mãe foi ver "O Grande circo místico" e não gostou, isso me deixou passada. Nem sempre mãe e filha pensam igual (risos), fiquei absolutamente encantada pelo musical, achei belíssimo. Ela falou que não gostou, pois não cantou junto. Por exemplo, isso aconteceria se a pessoa fosse ouvir "A noviça rebelde" pela primeira vez, mas graças ao musical que levou aquele repertório adiante, tornou-se um repertório que todo mundo conhece. Acho que a função verdadeira do musical é criar tudo, não uma biografia. Estou surfando nessa onda da biografia e estou gostando, para mim não há problema. Acho que o próximo passo para evoluirmos é mudarmos esse mercado, pois ele vai acabar. Terá uma hora em que não teremos mais de quem falar. Só se sairmos matando Gil, Caetano para fazermos a biografia deles. Acho que não dá para fazer uma biografia com o personagem vivo, tanto que no musical dedicado a Milton Nascimento não foi feita uma biografia, são músicas do Milton. Não se fala do personagem, pois seria muito deselegante colocar um personagem fazendo Milton Nascimento e o próprio na plateia assistindo, não acho isso bom. De qualquer maneira adoro biografias, documentários, considero uma maneira de me tornar amiga dessas pessoas que admiro. O próximo passo é trazer texto inédito, música inédita. Mostrar para o público que isso é um musical e aí sim ele irá cumprir a sua função real de mostrar música nova. Esse é o lado que ainda careço. Voltando ao cinema, ele é um lugar para isso, onde você cria canções para ressaltar cenas, dar ênfases necessárias. Adoraria compor para cinema e jogo esse desejo para o universo, pois acredito que retorna. E sigo em frente com muito trabalho!


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

    Daniela Aragão: Como se deu o seu primeiro contato com a música?

    Délia Fischer: Suponho que foi através da dança, pois a paixão inicial de minha vida era a dança, o movimento. A música entrava de uma maneira muito natural, muito simbiótica nesse processo e eu talvez nem desse conta de que era ela que estava me levando. A minha família era mais ligada ao corpo, meu pai tinha sido atleta, minha mãe teve muita ligação com o ballet clássico. Fiz jazz, sapateado, ginástica olímpica, todas essas atividades voltadas para o movimento. Na adolescência fiz um cruzeiro com minha mãe que ia até Manaus e me apaixonei pela banda que tocava no navio. Tinham duas bandas, umas mais MPB e outra de uns bem jovenzinhos que tocavam um repertório mais rock and roll. Enlouqueci com eles. Nessa época eu ainda não sabia nada, tinha em mente um repertório do Led Zeppelin. Fui anotando as referências que eles faziam e quando voltei para o Rio fui numa loja tentar encontrar os discos. Na época ainda existia loja de discos (sorri). Fui pedindo ao vendedor “The who” , “Led Zeppelin”, entre outros. Quando chegou o “Novos baianos” deu o primeiro lampejo de música brasileira em minha cabeça. Já tinha ouvido Chico Buarque e gostava de algumas coisas do Brasil, mas o rock foi mais forte. O “Novos baianos” fez uma ponte, dá para ser espírito rock and roll e brasileiro ao mesmo tempo. Dali abriu-se para mim Moraes Moreira, “A cor do som”, Gilberto Gil, Caetano, tudo o que a MPB permite.

    Daniela Aragão: Seu instrumento é o piano, como começou a entrada mais efetiva na música propriamente?

    Délia Fischer: Comecei pelo violão, comecei a estudar piano sei lá por que. Eu gostava mais do violão. Queria tocar guitarra por gostar muito de rock. Minha mãe me enrolou para tocar violão, então era o estudo clássico com o pé no banquinho. Não era nada disso que eu queria na época. Quando me dei conta estava estudando piano e Debussy, Ernesto Nazareth. Tive um estudo que começou radicalmente com treze anos através de professor particular. Recordo-me que em minha primeira aula de piano falei com minha professora que queria fazer música profissionalmente. Interessante, pois naquela época não existia um estudo de música popular, hoje em dia tem. Mas desde o princípio para mim esteve muito claro que teria que estudar o clássico para conhecer a base. A literatura pianística é muito bacana pois você tem acesso a praticamente tudo, ao barroco, ao clássico, ao contemporâneo. Sem querer desmerecer os outros instrumentos, para quem gosta de compor o piano oferece os mais vastos recursos.

    Daniela Aragão: Com a entrada do piano você manteve o violão?

    Délia Fischer: Fui mantendo. Vejo através de meu filho, que por exemplo gosta de violão, que este é um instrumento muito bacana para composição. Tem o lance de corda solta. Tem uma sonoridade muito particular. Na minha adolescência tive um cavaquinho e dois violões e num ataque de loucura e raiva típico de rebeldia quebrei tudo, ali acabou minha carreira de instrumento de corda (risos). Depois fiquei tão triste, só que o piano nunca pude quebrar (risos).

    Daniela Aragão: Você passou pelos grandes clássicos então?

    Délia Fischer: Sim, a história do piano se tornou um desafio. Aconteceu uma coisa interessante, pois para piano clássico comecei muito tarde. Recordo-me que tinham uns meninos de doze anos tocando Chopin, fugas de Bach e eu tocava o elefantinho manco, imagina, eu estava começando a estudar. Adolescente querendo tocar encarei aquilo como um desafio. Acho que fui muito rápido devido a minha sede, em um, dois anos já estava tocando um repertório. Com quinze estava me preparando para um repertório como Bartok, Debussy, Ravel, coisas de gente grande. Foi muito desafiador. Num tempo então aconteceu de largar o violão e ficar somente com o piano e sempre com o foco na composição. Desde o violão eu já compunha.

    Daniela Aragão: Em seu cd “Saudações a Egberto” você traz um Egberto mais palatável, mais digerível, mais solar. Muitas vezes ele costuma chegar com uma marca hermética, até mesmo intensificada pelos músicos que adentram em sua obra sugerindo modalidades interpretativas. O Egberto visto por você é tão simples e por isso tão belo.

    Délia Fischer: Exatamente, você entendeu toda a proposta do trabalho. Justamente na transição do estudo formal, clássico, para o popular, veio a minha escuta do Egberto. Como nessa época tinha loja de discos, fui comprando tudo até possuir a discografia completa, desde o “Sonho 70”. O Egberto em seu início de carreira era muito ligado a música popular brasileira, ele cantava, um dado que muita gente não sabe. Ele estava muito sintonizado com a canção, gostava muito de Milton Nascimento sobretudo. Ele levou esse lado fortemente até o “Em família”, que foi o último disco em que Egberto cantou. A partir daí ele interrompe e fica mais ligado ao instrumental. A música de Egberto a princípio veio para mim como canção de ninar, era muito natural. “Carmo” foi um disco de cabeceira, tanto que era muito natural querer tocar bem e querer lidar com aquelas canções. É muito orgânico, a melodia dele não é truncada, é orgânica e ligada a tradição da música brasileira.

    Daniela Aragão: O que observo também em “Saudações a Egberto” é o fato de que sua voz compõe plenamente o corpo das canções. É parte integrante sem o objetivo de suplantar a composição de base. Parece-me que no seu caso a voz está a serviço da música.

    Délia Fischer: Em uma época de minha vida estive muito ligada a voz, ao coro, era uma “ratinha de coro”, aparecia um coro israelita ou brasileiro que se apresentasse com orquestra e ia eu lá participar. Gostava de cantar no coro para poder ficar perto da orquestra. Eu tinha uma questão complicada com a voz, pois era muito soprano. Digamos, uma soprano intragável. Vivi então muito a questão da não aceitação de minha voz. Enquanto estava no coro tudo bem e possivelmente até ele tenha me puxado para isso, pois no coro é conveniente que você tenha alguns agudos. Tive um professor de canto que me disse que eu daria uma ótima soprano ligeiro, isso para mim foi um tiro. Falou que eu poderia chegar a cantar “A rainha da noite”. Isso foi um tremendo balde de água fria, pois eu gostava da Elis Regina, que era a minha musa mor. Fiquei em crise durante muitos anos.

    Daniela Aragão: A música popular brasileira trabalha com tons mais baixos.

    Délia Fischer: Favorece inclusive a letra, pois uma música que utiliza muitos agudos impossibilita até o entendimento. Daí veio essa onda do instrumental que contagiou o mundo e eu ainda estava cantando, tinha o “Duo Fênix”. Teve o rock 80 e o instrumental logo depois. Minha voz era muito infantil, muito aguda, então fui deixando de lado até que anos depois senti uma necessidade fisiológica de voltar a cantar. Eu estava compondo e precisava cantar minhas próprias composições.

    Daniela Aragão: É muito evidente em seu trabalho a representação da música enquanto totalidade. O seu trabalho é com a música e a voz está a esse serviço.

    Délia Fischer: Exatamente, a minha busca é essa. Busco a música, tem um acorde aqui, uma levada lá. Fico querendo entrar na música como um todo. Acho que cantoras como Nana e Elis se dedicaram a interpretação quase que como atrizes. Algumas são tão brilhantes como Elis, que traz uma marca autoral, faz a música ser dela. Algumas cantoras possuem essa capacidade. Não devo deixar de destacar a importância que teve em minha retomada do “cantar” a atuação do preparador vocal Felipe Abreu. Ele me deu aulas de voz e renovou toda a minha maneira de cantar, pois antes eu era uma soprano de coral. Ele me auxiliou no sentido da valorização de meu próprio suporte vocal, cantei no meu disco presente impulsionada pelo estímulo e trabalho exercido pelo Felipe. Cantar não significa a meu ver um ato menor e muita gente se engana achando que posso ter essa posição por ser uma compositora e instrumentista. Me vejo a cada dia mais aberta para interpretar e buscar uma visão própria, que tenha a minha marca. Com todo o respeito às grandes intérpretes, me qualifico como cantora.

    Daniela Aragão: A marca definitiva, a assinatura.

    Délia Fischer: O disco dedicado a Egberto não traz músicas minhas, mas a minha leitura do todo, não só cantando, mas com arranjo, produção. Estou aberta, tenho feito muito teatro e há peças em que até atuei. No musical dedicado ao Milton Nascimento participei cantando.

    Daniela Aragão: E como se dá a sua entrada no universo dos musicais como compositora e diretora musical?

    Délia Fischer: Isso é uma história longa. Depois que o “Duo fênix” acabou fiquei trabalhando como instrumentista por anos, como pianista, como arranjadora. O musical me chegou através do Ed Motta, que me carregou para essa vertente. Ele fez uma peça chamada “7 o musical”, em que compôs as músicas em parceria com Claudio Botelho e texto de Charles Miller. Como eu já tinha sido professora do Ed Motta e ele conhecia meu trabalho substancialmente, achou que eu seria a pessoa mais indicada para trabalharão seu lado pelo fato de eu estar ligada ao canto, a letra. O Ed sacou isso de maneira muito interessante, é uma retroalimentação. Por gostar de letra, voz e canção, o teatro é muito interessante para mim. Tem me trazido um amadurecimento cada vez maior, claro que o meu tempo para dedicar as minhas coisas tem sido cada vez menor. Uma peça grande me exige de três a quatro meses de trabalho intenso, sendo que nos últimos anos emendei, foram duas a três peças por ano. Uma loucura total e de certa forma irrecusável. Em 2102 veio Milton “Nada será como antes”, com direção de Claudio Chaves, nesta fiz arranjo e cantei. De repente eu estava fazendo parte do elenco também. Milton Nascimento é uma paixão imensa em minha vida e acho que me dei conta de que a música mineira foi a que mais ouvi. Beto Guedes, Toninho Horta, Milton. No espetáculo dedicado ao Milton a primeira coisa que fiz foi transcrever tudo, criar uma espécie de songbook que antes não existia. Deu muito trabalho, participar dos ensaios e depois compor os arranjos em cima daquilo. O elenco todo tocava e havia momentos em que eu nem precisava tocar. Essa experiência foi muito rica pois também me vi na pele de intérprete, ao me colocar sob um outro lugar. Nesse mesmo ano veio o “Rock in Rio musical”, uma peça enorme. Tinha tudo, desde Elba Ramalho a Guns and Roses, foi uma peça de muito vulto com um elenco de vinte e cinco pessoas.

    Daniela Aragão: E a direção do musical sobre Elis Regina?

    Délia Fischer: Nelson Motta veio com um texto pronto, além de toda uma pesquisa musical. Ele conhece Elis profundamente, tanto no plano pessoal quanto artístico. Noventa e cinco por cento do que o Nelson fez usamos na peça. Foi uma luta até chegarmos a escolher a cantora que representaria Elis, foram ouvidas cerca de quatrocentas até encontrarmos Laila Garin. Esta foi a primeira que de fato apresentou um material vocal, amplitude. A maioria das pessoas que vinham cantando em nossa audição não alcançavam, embora a carinha às vezes parecesse com a de Elis. A maior preocupação que tivemos foi com a emissão, pois Elis não era uma cantora de voz pequena. Laila já veio com um material pronto, precisamos somente escurecer um pouco trazendo-a para o grave. Ela é uma soprano, com uma voz mais aguda, já Elis é meso. Ela desceu um pouco o que seria confortável para a sua extensão vocal. Laila ganhou todos os prêmios, foi uma revelação e continua sendo. Dedicamos atenção total a interpretação e escolhemos um caminho muito bom, por mais que ela ouvisse Elis eu pedia para que não quisesse fazer igual. Desde o começo gostei da Laila, embora soubesse que iria causar um estranhamento. Uma menina ruiva, de olhos azuis, filha de brasileiro com francês. A imagem dela foi toda trabalhada, teve um visagismo forte. Laila colocou peruca e tal. Ela não possui nenhuma semelhança física e no entanto em cena você vê Elis Regina. Ela é muito boa atriz e canta muito bem, tem um preparo vocal robusto, formação de canto lírico e ao mesmo tempo muito ligada em MPB.

    Daniela Aragão: Seu cd “Presente” traz uma valorização destacável do lirismo. Vejo ali uma espécie de poética da natureza, mais especificamente uma poética musical das águas, que é o elemento predominante.

    Délia Fischer: Nessa época eu já estava voltando a escrever letras com parceiros muito ligados ao ofício da composição como Sérgio Natureza, Camila Costa e Tiago Pich, que é escritor. A questão mar é o meu elemento, me equilibra estar em contato com o mar. Esse disco são águas divisórias, pois estava com um pé no eletrônico e outro no acústico.

    Daniela Aragão: “Presente” traz essa riqueza múltipla, “Araçagi” por exemplo é uma música instrumental que traz você em diálogo com os músicos numa Jam session. Observo então a alternância entre a cantora, compositora e instrumentista, que lida com total desenvoltura na complexidade jazzística.

    Délia Fischer: Tenho os dois lados que às vezes entram em conflito, estou muito mais cancioneira atualmente, muito mais pela música que pelo desempenho. Estou mais para Dorival Caymmi.

    Daniela Aragão: Você faria uma leitura da obra de Dorival Caymmi?

    Délia Fischer: Claro, com o maior prazer. Considero o Dorival um gênio. Depois de anos me cai essa ficha, costuma-se estudar muito e valorizar-se o complicado e o simples na verdade é o que é mais difícil de fazer. Você entendeu bem essa busca em meu trabalho pela simplicidade. Quero ver uma pessoa fazer uma música com um acorde só. Desde o “Presente” tenho entrado nessa procura pelo mais simples e no próximo pretendo utilizar ainda menos elementos. Tenho gostado muito de minimizar.

    Daniela Aragão: Quais são os novos projetos?

    Délia Fischer: Elis é um trabalho que não pára, já estou sabendo por alto que acontecerão uns desdobramentos. Estou fazendo a direção de um musical sobre o Chacrinha. Já é o oposto de tudo, com texto de Pedro Bial. Chacrinha é uma peça tropicalista, brega, MPB. Tem de tudo essa peça e num tom leve e bem humorado, com direção do Andrucha Waddington. O trabalho com atores proporciona um rendimento muito legal para minha cabeça. Como sou virginiana e gosto de estudar e no momento estou com pouca disponibilidade para isso, aproveito e aprendo muito com as peças que faço. Como é que se dirige, como é que se monta, como é que se lidera. Delegar, confiar no outro é uma aprendizagem que também vou adquirindo e aprimorando.

    Daniela Aragão: E com o cinema você já trabalhou?

    Délia Fischer: Estou louca para. Trabalhar para o teatro me faz muito feliz, só tenho uma pequena frustração que é ainda não ter tido a oportunidade de ser autora. Na verdade quando tinha dezessete anos fiz muitas composições para teatro. O teatro que tem funcionado mercadologicamente é um musical que de fato não é um musical, ou seja, é uma peça em que você pega várias músicas conhecidas. O grande barato do musical como se dá na Broadway é um texto inédito com músicas inéditas. Minha mãe foi ver “O Grande circo místico” e não gostou, isso me deixou passada. Nem sempre mãe e filha pensam igual (risos), fiquei absolutamente encantada pelo musical, achei belíssimo. Ela falou que não gostou, pois não cantou junto. Por exemplo, isso aconteceria se a pessoa fosse ouvir “A noviça rebelde” pela primeira vez, mas graças ao musical que levou aquele repertório adiante, tornou-se um repertório que todo mundo conhece. Acho que a função verdadeira do musical é criar tudo, não uma biografia. Estou surfando nessa onda da biografia e estou gostando, para mim não há problema. Acho que o próximo passo para evoluirmos é mudarmos esse mercado, pois ele vai acabar. Terá uma hora em que não teremos mais de quem falar. Só se sairmos matando Gil, Caetano para fazermos a biografia deles. Acho que não dá para fazer uma biografia com o personagem vivo, tanto que no musical dedicado a Milton Nascimento não foi feita uma biografia, são músicas do Milton. Não se fala do personagem, pois seria muito deselegante colocar um personagem fazendo Milton Nascimento e o próprio na platéia assistindo, não acho isso bom. De qualquer maneira adoro biografias, documentários, considero uma maneira de me tornar amiga dessas pessoas que admiro. O próximo passo é trazer texto inédito, música inédita. Mostrar para o público que isso é um musical e aí sim ele irá cumprir a sua função real de mostrar música nova. Esse é o lado que ainda careço. Voltando ao cinema, ele é um lugar para isso, onde você cria canções para ressaltar cenas, dar ênfases necessárias. Adoraria compor para cinema e jogo esse desejo para o universo, pois acredito que retorna. E sigo em frente com muito trabalho!

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