A primeira sessão de maio foi bastante negativa para a curva de juros futuros, que ganhou inclinação de forma acentuada nesta segunda-feira, 4. Se, no primeiro mês do conflito no Oriente Médio, as taxas curtas e intermediárias foram as mais impactadas, a dinâmica mudou, com os vértices longos chegando a abrir mais de 20 pontos-base no meio da tarde, impulsionados pela avaliação de que a guerra pode ter efeito mais duradouro sobre a inflação.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,141% no ajuste anterior a 14,21%. O DI para janeiro de 2029 abriu a 13,85%, vindo de 13,665% no ajuste de sexta-feira. O DI para janeiro de 2031 saltou de 13,567% no ajuste a 13,86%.
As taxas já abriram em alta, pressionadas pelo tensionamento adicional entre Estados Unidos e Irã, que provocou forte abertura da curva dos Treasuries e nova elevação do petróleo - o contrato futuro do Brent fechou em avanço de quase 6%. Por aqui, ainda que em segundo plano para a curva de DIs, a piora das expectativas inflacionárias também teve influência nos juros.
No início da tarde, houve notícias de que o ataque de um drone do Irã provocou um incêndio de grandes proporções em uma zona de indústrias petrolíferas nos Emirados Árabes Unidos. O órgão de gestão de emergências do país informou, por volta das 14h50, que sistemas de defesa aérea estão atualmente respondendo a uma sexta ameaça de míssil. Países do Golfo elevaram o nível de alerta diante das ofensivas sofridas pelos Emirados, enquanto Abu Dhabi disse ter "pleno direito de responder" ao que chamou de agressão iraniana.
O presidente dos EUA, Donald Trump, acusou o país persa de realizar ataques contra navios de países "não relacionados" à operação norte-americana no Estreito de Ormuz e disse, em entrevista mais cedo, que o Irã será "varrido da Terra" se atacar meios navais americanos. Diante do acirramento das tensões geopolíticas ditando o tom dos mercados globais, o anúncio do novo programa de renegociação de dívidas do governo, o Desenrola 2.0, foi totalmente ofuscado.
"O dia de hoje[segunda-feira], muito ruim, mostra o tamanho do efeito da guerra, que prepondera sempre nos juros futuros sobre qualquer outra notícia que saia", diz Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. As ofensivas do Irã aos Emirados Árabes Unidos reacenderam preocupações com a duração da guerra e, consequentemente, com a oferta mundial de óleo, uma vez que Washington e Teerã não conseguem avançar em uma negociação diplomática, aponta Tavares.
Para ele, a perspectiva de que o conflito não chegará ao fim tão cedo pode ter contaminado os vencimentos mais longos da curva a termo, que foram os que mais subiram nesta segunda. "Esse conjunto de cenário global pior, sem perspectiva de fim para a guerra, contamina períodos mais longos. O que causa o mau humor é o ambiente externo".
Além dos ataques, a BuysideBrazil menciona o "Project Freedom", ou "Projeto Liberdade", iniciativa anunciada por Washington para escoltar navios retidos em Ormuz. "Embora a medida busque aliviar parcialmente o gargalo logístico na região, ela também representa um aumento relevante do risco operacional, especialmente após o Irã afirmar que atacará forças americanas caso avancem sobre a rota estratégica", alerta a consultoria, para quem a probabilidade de um cenário com o barril do Brent cotado a partir de US$ 120 aumentou de 30%, na semana passada, para 40% na atual.
O mercado segue incorporando o efeito da guerra em suas projeções de inflação, que tiveram novo recrudescimento nesta segunda. No boletim Focus, a mediana de estimativas para a alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu pela oitava semana seguida, de 4,86% a 4,89%. As previsões para 2027 e 2029 permaneceram em 4% e 3,5%, pela ordem. O número esperado para 2028 passou a 3,64%, de 3,61% anteriormente.
