A ausência de narrativas sobre povos originários e a contribuição da população negra na formação do Brasil e de Juiz de Fora ainda é uma lacuna persistente na educação formal — e é justamente esse silêncio que um encontro marcado para o dia 9 de abril, na cidade, pretende confrontar. Em uma aula aberta ao público, especialistas e professores se reúnem para discutir saberes historicamente invisibilizados e provocar reflexões sobre identidade, cultura e o papel da educação na construção de novas perspectivas sociais.
A proposta vai além de uma palestra pontual. O encontro marca o início de um projeto interdisciplinar que une estudantes de design gráfico e pedagogia na criação de jogos educativos voltados para uma abordagem afrocentrada da história, incluindo também a valorização dos povos originários e suas contribuições para o país e para a região da Zona da Mata mineira. A iniciativa parte do entendimento de que o ensino tradicional ainda reproduz recortes limitados e, muitas vezes, excludentes da história brasileira.
Idealizado pela professora doutora Tâmara Lis, do curso de Design Gráfico, o projeto convida futuros pedagogos a atuarem como “clientes” dos designers em formação, estabelecendo uma relação prática entre criação e aplicação pedagógica. “A ideia é que os alunos compreendam que o design não é neutro. Ele comunica, forma percepções e também pode ser uma ferramenta de transformação social”, explica a docente. Ao lado dela, participam da organização os professores doutores Alan Jesus e Octávio Neto, do curso de Pedagogia.
Para o coordenador do curso de Pedagogia, professor Octávio Neto, a proposta tem potencial transformador na formação dos estudantes. “Trata-se de um projeto com grande capacidade de ressignificar as experiências acadêmicas e, futuramente, profissionais dos nossos alunos. Trabalhar com temas transversais tão potentes, dentro de uma proposta interdisciplinar consistente, amplia o olhar e fortalece a formação docente”, destaca.
O professor Alan Jesus, do curso de Pedagogia, também ressalta a relevância do tema para a formação dos estudantes. “A discussão sobre povos originários e educação afrocentrada é extremamente pertinente, tanto para as disciplinas quanto para o curso de Pedagogia como um todo”, afirma. Ele destaca ainda o desdobramento prático do conteúdo em sala de aula. “Pretendo aprofundar esse debate, especialmente abordando a potência da literatura indígena na educação infantil, dentro de uma perspectiva de educação decolonial”, completa.
Entre as convidadas está a pesquisadora e artista Adryana Ryal, também conhecida como Petara Puri, doutoranda em Artes Cênicas e estudiosa das relações entre corpo, território e ancestralidade. Com uma trajetória que atravessa a arte, a cultura e a educação, ela destaca a importância de resgatar saberes que foram historicamente marginalizados.
Também participa do encontro a historiadora Vanessa Ferreira Lopes, mestre em História pela UFJF e com MBA em Coordenação Pedagógica. Servidora federal, atua na Diretoria de Ações Afirmativas da universidade, desenvolvendo projetos voltados à diversidade, memória social, equidade e políticas afirmativas. Sua atuação transversal reforça o diálogo entre educação, inclusão e justiça social, ampliando as perspectivas abordadas no evento.
A relevância do tema dialoga com debates contemporâneos sobre educação inclusiva e diversidade cultural, especialmente em um contexto em que legislações como a Lei 10.639/03 e a Lei 11.645/08 ainda enfrentam desafios para serem plenamente aplicadas nas escolas. Em cidades como Juiz de Fora, com forte presença de manifestações culturais diversas, iniciativas como essa buscam aproximar teoria e prática, universidade e comunidade.
O encontro acontece às 19h, no campus do Centro Universitário Estácio de Juiz de Fora, com entrada gratuita e aberta ao público. A expectativa é que a atividade não apenas amplie o repertório dos participantes, mas também estimule novas formas de ensinar e aprender, mais conectadas com a pluralidade da sociedade brasileira.
