Na contagem regressiva para o Enem, muitos estudantes enfrentam uma dúvida que pode aumentar ainda mais a pressão: ainda há tempo para se preparar? Para a psicopedagoga e psicóloga Vanice Begnami, responsável pelo Núcleo de Apoio e Atendimento Psicopedagógico (NAAP) do Centro Universitário Estácio Juiz de Fora, a resposta é sim, mas a reta final exige uma mudança de foco. Em vez de tentar aprender, de uma só vez, todo o conteúdo acumulado ao longo do ensino médio, o caminho mais eficiente é reconhecer prioridades e transformar o tempo disponível em uma preparação possível e consistente.
Ainda há conteúdos a revisar, exercícios a resolver e lacunas a enfrentar, mas isso não significa que o estudante deva passar horas diante dos livros sem planejamento. Segundo Vanice, qualidade e estratégia podem fazer mais diferença neste momento do que simplesmente aumentar a carga de estudos. “O mais importante agora não é tentar aprender todo o conteúdo do ensino médio de uma vez, mas fazer um planejamento estratégico, identificar as principais dificuldades e priorizar os conteúdos mais cobrados”, orienta.
O primeiro passo, portanto, é entender onde estão as maiores dificuldades. A recomendação, porém, não é dedicar toda a preparação apenas aos conteúdos que o estudante considera mais difíceis. Essa escolha pode gerar frustração e desmotivação, especialmente quando o esforço não produz resultados imediatos. Por outro lado, concentrar-se somente no que já domina pode criar uma sensação enganosa de segurança.
Vanice defende uma combinação entre os dois caminhos. Começar por conteúdos conhecidos pode ajudar o estudante a ganhar confiança e estabelecer um ritmo de estudo antes de enfrentar temas mais complexos. Depois, o tempo deve ser direcionado às dificuldades que ainda precisam ser superadas. “O objetivo é transformar as maiores dificuldades em pontos de melhoria”, afirma.
A mesma lógica vale para a quantidade de horas reservadas aos estudos. Não existe uma fórmula capaz de determinar quanto cada candidato deve estudar por dia. A rotina, o nível de preparação, o trabalho e as demais responsabilidades precisam ser considerados na organização do tempo.
Para a psicopedagoga, duas ou três horas bem aproveitadas podem render mais do que uma longa jornada marcada pelo cansaço e pela falta de concentração. “Não existe um número de horas que sirva para todos. Mais importante do que estudar muitas horas é conseguir manter uma rotina consistente e produtiva”, explica.
Nesse planejamento, o descanso não deve ser tratado como tempo perdido. Em meio à preocupação de dar conta de conteúdos, simulados e revisões, reduzir o sono para ampliar as horas de estudo pode ter o efeito contrário ao desejado. Vanice lembra que dormir adequadamente contribui para a memória, a atenção e a aprendizagem, três fatores diretamente ligados ao desempenho do estudante.
A preparação também não deve ficar restrita à leitura e à revisão da matéria. Resolver questões de provas anteriores é uma das estratégias indicadas para que o candidato compreenda melhor a dinâmica do exame e reconheça, na prática, os conteúdos que ainda representam um obstáculo. “O Enem exige que o estudante consiga interpretar, raciocinar e aplicar aquilo que aprendeu”, destaca Vanice. Ao resolver questões de edições anteriores, segundo ela, o candidato passa a conhecer o estilo da prova e pode transformar os próprios erros em parte do processo de aprendizagem, identificando com mais clareza o que precisa ser retomado antes do exame.
A estratégia precisa continuar no dia da prova. A administração do tempo pode ser decisiva para evitar que questões não sejam respondidas simplesmente porque o candidato demorou demais em outras. A orientação é não insistir excessivamente em uma pergunta que está consumindo muitos minutos. Nesse caso, seguir para a próxima questão e retornar depois pode ser uma escolha mais segura.
Também é preciso acompanhar o relógio durante toda a prova e não deixar o preenchimento do cartão-resposta para os últimos minutos. “Se uma questão estiver demorando muito, o ideal é seguir para a próxima e voltar depois”, orienta a psicóloga, ressaltando a importância de reservar tempo suficiente para concluir essa etapa com atenção.
A reta final, portanto, não precisa ser uma tentativa desesperada de alcançar uma preparação perfeita. Para Vanice, o Enem vai além da avaliação do conhecimento acumulado e também exige estratégia, concentração e equilíbrio emocional. O desafio do estudante, agora, é utilizar bem o tempo que ainda tem, sem transformar a preparação em uma fonte adicional de esgotamento.
Nesse sentido, a orientação é clara: reconhecer limites não significa desistir de melhorar. Ao contrário, significa fazer escolhas mais conscientes sobre o que estudar, como organizar a rotina e onde concentrar esforços. “O estudante não precisa buscar uma preparação perfeita, mas uma preparação possível e consistente”, resume Vanice. Na reta final, mais do que contar as horas disponíveis, pode fazer diferença saber o que fazer com cada uma delas.