A cada edição da Copinha, histórias de jovens talentos ganham projeção nacional. Entre elas, a trajetória de Max Alves, de 24 anos, ajuda a compreender o peso real da competição na formação e no destino de um jogador. Nascido e criado em Juiz de Fora, no bairro Dom Bosco, região do Chapadão, o meia percorreu um caminho que começou nas peladas de rua, passou pelo futsal, pela base do Tupi e culminou no protagonismo na Série A do Campeonato Brasileiro.

Ainda criança, passava horas jogando bola com amigos, em uma rotina que moldou sua relação com o futebol. “Eu jogava o dia inteiro. Minha mãe falava que eu levava bola pra tudo quanto é lugar”, relembra.

Essa vivência precoce ajudou a formar um jogador intuitivo, acostumado a improvisar e a decidir rápido, características que seriam refinadas ao longo da formação.

Futsal: a base técnica que moldou o estilo

A formação esportiva de Max passou diretamente pelo futsal, modalidade em que se destacou em Juiz de Fora. Ele integrou projetos e equipes como Sesi e disputou torneios tradicionais da cidade, como a Copa Bahamas.

Durante anos, viveu a transição constante entre quadra e campo. “Dos sete aos 14 anos foi futsal e campo ao mesmo tempo. Isso marcou muito minha vida”, afirma. 

No Sesi, Max chegou à Seleção Mineira de futsal. “Eu achei que ia virar jogador de futsal. Foi uma experiência enorme. O futsal te dá raciocínio rápido, relação com a bola. Isso levo até hoje para o campo”, diz. Segundo ele, o diferencial técnico atual vem dessa origem: “Quem jogou futsal pisa na bola diferente. Eu só transferi isso para o campo”.

“Ele jogava rindo”: o primeiro encontro com o empresário que mudou a carreira

O encontro entre Max Alves e seu empresário Régis Oliveira, aconteceu de forma quase casual, durante uma partida das categorias de base em Betim, em 2017, quando o jogador ainda defendia a MDH. O agente estava no local para observar outro atleta, mas foi a atuação de Max que chamou sua atenção.

“Eu vi o Max jogando com a camisa 10, aberto, jogando rindo. Aquilo me chamou atenção. Jogador não joga sorrindo à toa”, relembra. Ao fim da partida, ele procurou informações sobre o meia e descobriu que se tratava de um jovem de Juiz de Fora, criado no bairro Chapadão, região do Dom Bosco.

O contato telefônico não funcionou, e a decisão foi direta: ir pessoalmente até a casa do jogador. “Peguei o carro e fui no Chapadão. Cheguei lá numa segunda-feira. A conversa foi no meio da rua, com a família toda em volta”, conta. A mãe, Ângela, autorizou prontamente o início da parceria. “Ela nem pestanejou. Depois sentamos, tomamos um café e explicamos tudo com calma.”

A partir dali, a carreira de Max tomou outro rumo. O empresário acompanhou de perto a transição para o Tupi, a disputa da Copinha de 2020 e, posteriormente, a chegada ao Flamengo, um movimento considerado fora da curva no futebol brasileiro. “É muito difícil um jogador chegar ao Flamengo com 18 anos. O Max chegou e, em dois meses, já era titular na base. Isso é raríssimo”, afirma.

Segundo ele, o meia assinou dois contratos em curto espaço de tempo, teve rápida valorização salarial e chegou ao profissional em poucos meses, estreando no Maracanã com gol. Apesar de decisões posteriores consideradas precipitadas, como a ida para o futebol dos Estados Unidos, o empresário avalia que o potencial sempre foi evidente.

“Desde aquele primeiro dia, ficou claro que ele era diferente. O Max sempre teve algo que não se ensina: entendimento de jogo, personalidade e naturalidade com a bola”, conclui.

FOTO: Arquivo Pessoal - Max e seu empresário Régis Oliveira

Do campo ao Tupi: identidade, confiança e projeção na Copinha

A dedicação de Max Alves ao futebol de campo ganhou força na adolescência e encontrou no Tupi um ponto de virada. Vestir a camisa do clube da própria cidade teve peso simbólico e impacto direto na forma como passou a ser reconhecido. “Foi diferente disputar campeonato pelo time da minha cidade. Onde eu ia, quando falava que vinha do Tupi, as pessoas reconheciam”, relata.

Dentro do clube, o meia passou a ganhar espaço, assumir responsabilidades e se firmar no elenco, sendo vice-campeão mineiro Sub-20, mas foi na Copinha de 2020 que sua trajetória ultrapassou os limites regionais. A competição colocou o Tupi em evidência em um contexto marcado por desafios internos, disputas de bastidores e forte pressão por resultados.

Nesse cenário, a atuação do técnico Wesley Assis foi decisiva ao bancar Max como camisa 10 da equipe. “Ele bateu no peito e falou: ‘o Max é meu camisa 10’. Ele segurou a onda”, relembra o jogador. A confiança explícita do treinador deu segurança para que o meia assumisse o protagonismo em campo. “Isso mudou tudo. Saber que o treinador confiava em mim fez diferença”.

Apesar da eliminação na terceira fase, o desempenho individual de Max chamou a atenção e ampliou sua visibilidade. “A Copinha é uma vitrine absurda. Nem todo mundo consegue jogar”, afirma, ao resumir a importância do torneio para a projeção nacional do seu futebol.

FOTO: Arquivo Pessoal - Max na Copinha

Wesley Assis: o treinador que acreditou

A relação entre Max Alves e o técnico Wesley Assis foi determinante para a consolidação do meia ainda nas categorias de base do Tupi. Mais do que a escolha tática de colocá-lo como camisa 10 na Copinha de 2020, o treinador acompanhou de perto o processo de formação do jogador ao longo de dois anos, oferecendo respaldo em momentos decisivos da trajetória.

“Ele me deu respaldo quando muita gente duvidava. Não foi só treinador, foi alguém que acreditou”, afirma Max. Segundo o meia, Wesley teve sensibilidade para entender seu perfil dentro de campo. “Ele sabia como eu jogava, não tentou me engessar. Isso foi essencial para eu mostrar meu futebol”.

Do outro lado, Wesley Assis, destaca o privilégio de ter trabalhado com um atleta que considera fora da curva. “Foi um privilégio muito grande ter trabalhado por dois anos com um jogador de tamanha qualidade e repertório técnico”, afirma. Segundo ele, Max sempre se destacou em relação à média dos atletas. “Com todo respeito aos outros jogadores, o Max era muito acima da média no que diz respeito a recurso, relação com a bola, improviso e qualidade técnica”.

Entre as características ressaltadas pelo treinador está a ambidestria. “Ele tem muita facilidade de usar as duas pernas. Muitas vezes, resolvia problemas do jogo justamente com essa ambidestria, com uma naturalidade muito grande”, explica.

Wesley também faz questão de destacar o lado comportamental do meia. “Muita gente fala da qualidade, mas poucas pessoas conheceram o Max trabalhador, que treinava todos os dias a 120%”, relata. “Às vezes jogava no fim de semana e não queria deixar de treinar na segunda-feira, porque gostava de estar no campo, de estar com a bola no pé”.

A parceria começou em 2018, quando Max optou por deixar um projeto anterior para integrar o Tupi. “Ele veio porque quis. Se sentiu à vontade com a gente e foi muito bem acolhido”, relembra o treinador. Segundo ele, a comissão técnica identificou rapidamente a realidade do jogador e buscou criar um ambiente favorável ao desenvolvimento. “Isso fez com que ele gostasse do ambiente e se sentisse seguro”.

Em 2019, o crescimento foi gradual. “Ele não começou como titular, mas rapidamente ganhou respeito da comissão técnica e, principalmente, do grupo de jogadores”, diz Wesley. “Quando conquistou a titularidade, não largou mais. Foi decisivo em vários jogos, fazendo gols”.

Ao projetar o futuro do atleta, Wesley não esconde a convicção. “É um jogador que vai ficar marcado. Tenho um carinho e um respeito muito grandes por ele e torço para que continue alçando voos altos. O futebol que ele joga é futebol de elite”.

FOTO: Arquivo Pessoal - Max e o treinador Wesley Assis

Do interior de Minas ao Flamengo

O Tupi caiu na terceira fase da Copinha, mas o desempenho foi suficiente para colocar Max no radar de grandes clubes. “Depois da Copinha, apareceram cinco propostas. O Flamengo foi o último a ligar”, relembra Régis Oliveira. “Normalmente quem está lá já vem desde o Sub-13, Sub-15”, reforça o profissional.

A adaptação foi rápida. Em dois meses, já era titular e recebia elogios públicos do então técnico Maurício Souza. “Ele falou que parecia que eu estava ali há cinco, seis anos”.

Em menos de um ano, Max estreou no time profissional do Flamengo, no Maracanã. Mesmo em meio à pandemia, o momento foi marcante. Logo na estreia, marcou um gol. “Entrei pensando que precisava finalizar. Quando chutei, foi na gaveta.”

Depois do Flamengo, Max teve passagem pelo Cuiabá por empréstimo, foi vendido ao Colorado Rapids, dos Estados Unidos, e viveu uma experiência de adaptação fora do país. “Foi difícil no começo. Frio, língua diferente. Cheguei querendo ir embora”, admite. Apesar disso, ele avalia o período como essencial para o amadurecimento. “Não foi o auge da carreira, mas me fez crescer como pessoa”.

FOTO: Arquivo Pessoal - Mac comemorando seu primeiro gol com a camisa do Flamengo

Consolidação no Cuiabá: camisa 10, sequência e maturidade profissional

Em 2024, Max reencontrou no Cuiabá o cenário ideal para seu retorno ao Brasil, marcando um período de estabilidade, continuidade e amadurecimento, tanto dentro quanto fora de campo. “O Cuiabá reabriu as portas. Criei uma identificação muito grande com o clube”, resume o meia que já soma mais de 100 jogos pela equipe.

Nas temporadas de 2024 e 2025, o desempenho se traduziu em números, foram seis gols marcados e nove assistências, além de participação constante na construção ofensiva da equipe. Mais do que estatísticas, Max destaca a regularidade como um dos principais ganhos no período. Diferentemente do início da carreira, marcado por transições rápidas entre clubes e países, no Cuiabá ele conseguiu disputar calendários completos, algo raro entre os jogadores que dividiram com ele as categorias de base.

“A camisa 10 carrega cobrança, mas isso faz parte”, afirma. Para o jogador, a exigência vem acompanhada de liberdade criativa e da confiança da comissão técnica, fatores que o ajudaram a alcançar maior consistência e leitura de jogo.

FOTO: Arquivo Pessoal - Max recebe homenagem do Cuiabá pelos 100 jogos vestindo a camisa do clube

Racismo nas redes sociais: “Doeu mais fora do campo”

Além dos desafios esportivos, Max Alves também precisou lidar com o racismo. O episódio ocorreu fora das quatro linhas, nas redes sociais, e marcou o jogador de forma profunda.

Segundo o meia, o ataque aconteceu no ambiente virtual. “Dentro de campo você está preparado para cobrança, crítica. Fora dele, quando vem algo assim, machuca mais”, relata. Max conta que as mensagens tinham cunho ofensivo e racista, direcionadas à sua aparência e origem.

O jogador afirma que o impacto foi imediato. “A gente tenta ser forte, mas chega em casa, vê aquilo no celular, e é impossível não sentir”, diz. Ele destaca que o apoio da família, de amigos e de pessoas próximas foi fundamental para atravessar o momento. “Se eu não tivesse uma base forte, teria sido muito mais difícil.”

Max também aponta que episódios como esse reforçam a necessidade de debate e combate ao racismo no futebol e na sociedade. “Isso não é só comigo. Acontece com muitos jogadores, todos os dias. Enquanto não houver punição de verdade, vai continuar acontecendo.”

Apesar da violência sofrida, o meia afirma que transformou a experiência em combustível para seguir em frente. “Não deixei isso me parar. Pelo contrário, usei como força para continuar trabalhando e mostrando quem eu sou dentro e fora de campo”.

Olhar para fora: ambição, alto nível e o sonho de jogar na Espanha

Consolidado no futebol brasileiro e com protagonismo no Cuiabá, Max não esconde que mantém ambições de atuar em alto nível fora do país. O meia adota um discurso cauteloso, mas demonstra convicção ao falar sobre o próprio potencial. “Com toda humildade, eu acho que tenho capacidade de jogar em clubes grandes fora do Brasil. Pelo que eu me conheço, eu acredito que teria condição, sim”, afirma.

Apesar de reconhecer a relevância do Cuiabá em sua trajetória, clube com o qual construiu identificação e sequência profissional, o atleta vê a possibilidade de uma experiência internacional como um passo natural de crescimento. Para ele, o destino ideal estaria ligado ao estilo de jogo que mais se aproxima de suas características técnicas.

Entre as ligas europeias, a espanhola surge como principal referência. “Acho que a Espanha combina mais com o meu estilo. É um jogo mais técnico, com a bola no chão, que desenvolve o jogador”, analisa. Ao comparar com outros campeonatos, ele cita a Premier League como um exemplo de liga mais física e intensa. “É muita força, muita porrada. A Espanha é um jogo que desenvolve mais”, resume.

Sem estabelecer prazos ou citar clubes específicos, o meia ressalta que o foco segue sendo a evolução diária e a manutenção do nível competitivo. Ao olhar para trás, Max faz uma reflexão direta sobre o próprio percurso. “De tantos que disputaram aquela Copinha, poucos conseguiram sequência depois. Eu fui um deles”, finaliza.

 
 

Arquivo Pessoal - Reprodução

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