PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - A transferência do técnico Liam Rosenior do Racing Strasbourg, da França, para o Chelsea, da Inglaterra, reacendeu a polêmica no futebol europeu sobre a multipropriedade de clubes.
Strasbourg e Chelsea pertencem ao mesmo consórcio de empresas, o grupo norte-americano BlueCo. Há, porém, uma clara hierarquia: a prioridade é o clube inglês, um dos mais poderosos do mundo, vencedor da Copa do Mundo de Clubes disputada nos Estados Unidos no ano passado.
Quando demitiu o técnico Enzo Maresca, devido a uma série de resultados ruins na liga inglesa, o Chelsea não tardou a buscar seu sucessor do outro lado do Canal da Mancha. Também vai levar para Londres três membros da comissão técnica de Rosenior.
O episódio causou indignação no futebol francês. Um deputado de esquerda, Éric Coquerel, propôs uma lei proibindo a multipropriedade de equipes. "Os clubes se tornaram objetos especulativos", afirmou o congressista ao jornal francês Le Parisien.
Uma associação de torcidas organizadas do Strasbourg protestou. "A transferência de Liam marca uma etapa humilhante da servidão do Racing ao Chelsea. É o futuro do futebol francês que está em jogo", publicou a entidade.
"Eu vou amar este clube pelo resto da vida, mas não posso recusar o Chelsea", disse o inglês Rosenior, de 41 anos, em sua emocionada despedida do Strasbourg.
Um dos raros treinadores negros em clubes de alto nível da Europa, Rosenior foi zagueiro de times pequenos de seu país. Parou de jogar em 2018 e aos poucos galgou degraus na carreira de treinador, destacando-se no Hull City, da segunda divisão inglesa.
Em julho de 2024, o consórcio BlueCo colocou Rosenior no Strasbourg, onde ele passou a ser visto como um dos nomes mais promissores da nova geração de técnicos. O time é o atual sétimo colocado da liga francesa, mesma posição em que terminou na temporada passada.
Fundado em 1906, o Racing Strasbourg é um clube tradicional do leste da França. Chegou a ser campeão nacional em 1979. Uma crise financeira, porém, levou-o à falência em 2011. Refundado como clube amador na quinta divisão, conseguiu retornar à primeira em 2017.
Mas a grande virada veio em 2023, com a compra pelo grupo BlueCo.
Liderado pelo empresário norte-americano Todd Boehly -um dos proprietários do Los Angeles Dodgers, time de beisebol que é atual bicampeão dos Estados Unidos-, o BlueCo adquiriu o Chelsea em 2022. Na ocasião, as sanções à Rússia pela invasão da Ucrânia levaram o empresário russo Roman Abramovich a se desfazer do clube que detinha desde 2003.
Graças ao reforço de jogadores não aproveitados pelo Chelsea, como o meio-campista brasileiro Andrey Santos e o goleiro sérvio Djordje Petrovic, o Strasbourg decolou. Foi a sensação do último Campeonato Francês, derrotando até o hegemônico Paris Saint-Germain, atual campeão nacional, europeu e intercontinental.
O preço dessa volta por cima, porém, é o status de clube-satélite, pronto a fornecer talentos quando a matriz precisa.
Um exemplo é o lateral direito Angelo Candido, de 17 anos, revelado pelo São Paulo. O BlueCo deve usar o Strasbourg para dar um pouco de experiência ao jovem brasileiro até ele estar pronto para o Chelsea. Angelo Candido foi retirado da Copa São Paulo de juniores deste ano e vai a Estrasburgo para um período de aclimatação neste mês.
Por mais que os dirigentes adotem o discurso do rigor contra a multipropriedade, fonte constante de possíveis conflitos de interesse, na prática os mecanismos de controle têm sido inócuos. Na França, o Strasbourg não é um caso isolado.
Em 2022, o Lyon foi adquirido pelo empresário norte-americano John Textor, que também controla o Botafogo (e, na época, também o Crystal Palace, da Inglaterra). A gestão desses diferentes times gerou várias controvérsias, que levaram a liga francesa a rebaixar o Lyon no ano passado. O clube recorreu e conseguiu se manter na primeira divisão.
Em 2023, o Toulouse chegou a ser impedido pela Uefa (União das Associações de Futebol Europeias) de disputar a Liga Europa, segunda competição de clubes mais importante do continente. É que o clube pertence a outro grupo norte-americano, o RedBird Capital Partners, proprietário também do Milan, da Itália.
Em tese, a Uefa proíbe dois clubes com o mesmo proprietário de disputar competições europeias, e o Milan estava classificado para a Champions League. Mas a entidade acabou autorizando o Toulouse a participar, sob a condição de não ceder jogadores ao Milan, e vice-versa.