SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - À frente da FPF (Federação Paulista de Futebol) desde 2015, Reinaldo Carneiro Bastos inicia o último ano de seu atual mandato em campanha para se manter no poder. O dirigente, que assumiu a presidência quando Marco Polo Del Nero deixou o cargo para assumir a CBF, poderá, em caso de reeleição, completar 14 anos no maior posto da entidade estadual.
Reinaldo tentou em 2025 seguir um caminho parecido com o de seu antecessor, mas não conseguiu o apoio necessário de outras federações estaduais para disputar a presidência da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Sem concorrentes, Samir Xaud, da Federação de Roraima, acabou eleito.
Para ser eleito novamente em São Paulo, o cartola argumenta que suas gestões modernizaram a estrutura da entidade, ampliaram receitas e fortaleceram relações com clubes grandes e pequenos.
O processo eleitoral ainda não está aberto, mas Reinaldo poderá ter uma dificuldade para se manter no poder que não teve nas duas últimas eleições: um concorrente.
Wilson Marqueti Júnior, que foi vice-presidente da FPF na gestão do próprio Reinaldo, trabalha nos bastidores para buscar apoio e lançar sua candidatura oficialmente. Ele acusa o atual presidente de ser autoritário e defende um processo de alternância.
"Os grandes clubes da Premier League são de donos com mandato indefinido. Os times de futebol nos Estados Unidos são de empresas sem tempo de mandato", rebateu Reinaldo, nesta entrevista à Folha. "O que define o tamanho do mandato é a qualidade do serviço que você entrega."
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*Folha - Por que o sr. decidiu concorrer a mais um mandato na Federação Paulista?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* O principal motivo é a vontade enorme dos clubes, o apoio e o incentivo para a gente [dar continuidade ao trabalho]. Neste momento, tem uma transição enorme no futebol brasileiro, que é uma adequação do calendário, em que os estaduais sofreram uma redução de datas. Para fazer essa transição, era muito importante que quem estivesse no comando fosse quem construiu.
*Folha - Em seus dois primeiros mandatos, o sr. não teve concorrente na eleição. Agora, o Wilson Marqueti lançou pré-candidatura. Um dos argumentos dele para concorrer é buscar uma alternância de poder na FPF. Como o sr. vê essa tentativa de ruptura?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Não vamos inventar a roda, vamos pegar exemplos no mundo. Na Conmebol [Confederação Sul-Americana de Futebol) são três mandatos. Na Fifa são três mandatos. Os grandes clubes da Premier League são de donos com mandato indefinido. As grandes empresas, os grandes eventos, os times de futebol nos Estados Unidos, são de empresas sem mandato, sem tempo de mandato. Eu acho que o que define o tamanho do mandato é a qualidade do serviço que você entrega, é a qualidade da prestação que você faz. Continuidade é um termo que, para mim, não soma nada. O que soma é a competência. Você faz algo bem-feito, você continua. Se não faz algo bem-feito, deixa o lugar para alguém que faz.
*Folha - O sr. entende que o Wilson, mesmo tendo sido seu vice-presidente, não preenche esses requisitos?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Não. A história dele na Federação Paulista de Futebol foi como procurador no TJD [Tribunal de Justiça Desportiva]. Como diretor da federação, ele ficou apenas seis meses aqui, seis, sete meses, não fez um ano. E continuou sem nenhum contato e sem construir nada aqui dentro.
*Folha - Ele acusa o sr. de ter uma gestão autoritária, sem dar espaço para sugestões dos diferentes departamentos da federação. Como o sr. responde?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* O cargo dele era institucional. É um cargo mais honorífico. Ele não tinha função executiva nenhuma. Vice-presidente de comunicação e marketing, vice-presidente de gestão corporativa, vice-presidente da área de futebol, esses são os profissionais com currículo, com capacidade para desempenhar o trabalho na Federação Paulista de Futebol. Os institucionais são nomes que dão respaldo à federação, mas são apenas institucionais, não são executivos.
*Folha - O sr. tem respaldo dos clubes para a continuidade do seu trabalho?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Enorme. Nós fizemos três pré-conselhos técnicos, com todos os clubes das séries A4, A3 e A2. Em um desses encontros, alguém comentou que tinha sido procurado [para apoiar outra candidatura], e isso foi rechaçado por todo mundo que estava ali.
*Folha - O sr. vislumbra a possibilidade de não ter o apoio de um dos clubes grandes?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Recentemente, eu recebi o presidente do Corinthians, Osmar Stabile, que, sem a gente tocar no assunto, colocou-se à disposição para apoiar as iniciativas da federação. Estive na Vila com o presidente do Santos [Marcelo Teixeira]. Com o Julio Casares [presidente do São Paulo] nós temos uma constante relação. E falei recentemente com a presidente Leila [Pereira, do Palmeiras].
*Folha - Ter um concorrente na eleição não seria uma forma de colocar em debate as ações do seu mandato?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Essa é uma decisão que não é minha. A decisão de ter um, dois ou três candidatos pertence aos clubes. Não sou eu que decido se vai ter candidato ou não. Primeiro, para ter dois candidatos, é preciso ter dois candidatos de nível, que tenham o que vender, que tenham propostas, que tenham uma história, que já tenham construído alguma coisa no futebol, que conheçam o interior, conheçam as pessoas do interior, as dificuldades do interior, e conheçam os clubes.
*Folha - Marco Polo Del Nero tem tentado atuar na eleição da FPF, apoiando Marqueti?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Eu não tenho ouvido sobre esse assunto. Nós estamos muito focados em dar a volta por cima, enfrentar e vencer essa dificuldade atual [do calendário]. Eu não tenho tempo para gastar com hipóteses, com supostos candidatos. Nós estamos muito focados, a casa inteira, em entregar em 2026 um campeonato melhor que em 2025.
*Folha - O sr. tentou concorrer à presidência da CBF em 2025. Pensa em tentar de novo?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Não serei mais candidato à presidência da CBF. Essa parte está encerrada. Estou disposto a colaborar da forma de que a CBF precisar, de que o presidente Samir precisar, de que a sua diretoria precisar. Coloco a minha experiência à disposição para que a gente faça o futebol brasileiro cada vez maior. Candidato não serei mais.
Por que essa decisão?
Porque eu tenho 72 anos, vou concorrer a mais um mandato na Federação Paulista de Futebol. Chega. Está bom já. Eu já contribuí como eu poderia contribuir. Eu tenho orgulho do que fiz para o futebol paulista e brasileiro. Mas chega, agora a gente tem que ajudar gente nova.
*Folha - O sr. vai trabalhar para formar um sucessor?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Não, não. Vou trabalhar para formar um quadro de pessoas, de profissionais, à disposição do mercado para melhorar o futebol brasileiro. O futebol brasileiro ainda é carente de bons gestores.
*Folha - Além da questão do calendário, qual é o foco?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Qualificar a infraestrutura dos clubes, nos estádios, nas novas arenas e nos centros de treinamento.
*Folha - E como a FPF pode ajudar nisso?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Dando tranquilidade administrativa, o clube sabendo como e quando ele vai jogar, participando das decisões, como acontece nos conselhos para as categorias de base.
*Folha - Quanto o futebol paulista perde com a mudança de calendário?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Em uma análise nua e crua diminui 25% a 30% da receita. Nosso trabalho é fazer com que esse percentual seja o menor possível.
*Folha - Quais ações estão previstas para lidar com racismo, homofobia e intolerância constantes no futebol?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Trabalhar a informação, ter constantemente o diálogo e fazer palestra nos clubes. A gente tem conversado muito com os meninos da base, e sabe o que nós descobrimos? Que os meninos da base não sabem que a legislação proíbe e pode gerar suspensões enormes por fazer apostas esportivas.
*Folha - O papel da FPF e da CBF é só educacional?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Não, mas o atleta não vai com o CPF dele se registrar numa casa de apostas. Porque, se ele faz isso, assina a confissão dele. A maior dificuldade é o amigo dele que está passando por dificuldade e pede para ele forçar um cartão amarelo nos últimos cinco minutos do jogo. Então, a gente vai ter que começar a conversar, dialogar e explicar que existem outras formas de ajudar o amigo.
*Folha - Quando o sr. deve marcar a eleição?*
*Reinaldo Carneiro Bastos -* Eu não sei. Nós vamos conversar com os clubes. Mas, com certeza, será antes de outubro. Meu limite é o primeiro semestre, para dar tempo, caso tenhamos um novo presidente, de fazer a transição com conhecimento do que ele está assumindo.
*Raio-X | Reinaldo Carneiro Bastos, 72*
Presidente da FPF desde 2015, está em seu segundo mandato à frente do futebol paulista. Foi vice-presidente da federação em 1996 e passou por diferentes cargos até chegar à presidência, em abril de 2015, quando Marco Polo Del Nero deixou o cargo para presidir a CBF. Entre 2010 e 2018, foi diretor de coordenação da CBF e ocupou a cadeira brasileira no Conselho Executivo da Conmebol de 2016 a 2018. Estudou engenharia civil, mas não concluiu o curso, e tem formação em gestão esportiva.