SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Poucos jogadores na história do Corinthians foram tão queridos quanto Baltazar. Hoje o clube celebra os cem anos do nascimento do ídolo, que foi batizado Oswaldo, adotou o nome do irmão e se consagrou como o Cabecinha de Ouro.
"Nunca fui muito bom os pés", mentia, abraçando a caricatura que o pintava como um jogador severamente limitado. "Mas ninguém, nem Pelé, foi melhor do que eu com a cabeça."
Baltazar era ídolo do próprio Pelé, que relatou em diversas ocasiões ter feito "gol de Baltazar" em seu time de futebol de botão. O centroavante marcou 269 gols em 404 partidas em preto e branco, e mais de 70 desses gols foram comprovadamente de cabeça.
A habilidade pelo alto virou marchinha, uma canção composta por Alfredo Borba que ganhou popularidade na voz de Elza Laranjeira: "Gol de Baltazar! Gol de Baltazar! Salta o Cabecinha, 1 a 0 no placar!".
Os gols de Baltazar foram determinantes no período mais vitorioso da história do Corinthians. De 1950 a 1955, o time ganhou tudo o que era possível, com três títulos do Campeonato Paulista, três do Torneio Rio-São Paulo (o Roberto Gomes Pedrosa) e a Pequena Taça do Mundo, com duas vitórias sobre o Barcelona e duas sobre a Roma.
Aquela equipe tinha alguns dos grandes ídolos alvinegros, como Idário, Roberto Belangero, Cláudio e Luizinho. Mas, mesmo com seu jeito sisudo e calado ?há quem diga que odiava a marchinha "Gol de Baltazar"?, foi Baltazar quem venceu o concurso O Craque Mais Querido do Brasil.
O prêmio foi um Studebaker zero-quilômetro, que veio a calhar. Apaixonado por carros, o centroavante havia perdido seu Cadillac, que pegou fogo quando ele voltava de São Lourenço, em Minas Gerais, onde estava em período de concentração da seleção brasileira, em 1953.
Reza a lenda que o jogador, em um de seus carros, foi flagrado na contramão na rua São Caetano, na região central de São Paulo. O guarda de trânsito ficou incrédulo: "É o Cabecinha? É você mesmo, Cabecinha?". Em vez de multá-lo, pegou seu autógrafo no próprio talão de multas.
A popularidade era tal que foi retratada em programa do humorista Silvino Neto, na Rádio Nacional. Ele imitava Adhemar de Barros, interventor, governador e grande figura política de São Paulo da década de 30 à década de 60.
"Quem é o maior político do Brasil?", perguntava Silvino, emulando a voz anasalada de Adhemar. "Quem é o maior líder do Brasil?", indagava. A resposta da multidão, em coro, era: "A-dhe-mar! A-dhe-mar!". Quando, no entanto, a questão era sobre "o maior cabeça do Brasil", a multidão explodia com outra resposta: "Bal-ta-zar! Bal-ta-zar!".
Esse não era, no registro oficial, o nome do artilheiro. Nascido Oswaldo Silva, em 14 de janeiro de 1926, em Santos, defendeu desde criança o time Flor da Noite, ao lado do irmão, Baltazar. Os pais chegaram a proibir os meninos de jogar. Só Oswaldo desobedeceu à ordem e avisou que jogaria por si e por Baltazar.
O apelido pegou, e foi como Baltazar que Oswaldo tentou a sorte no futebol. Atuou no Juvenil Guarany e no Flamengo, ambos de Santos, e chegou a vestir a camisa do União Monte Alegre, de Piracicaba, antes de iniciar verdadeiramente sua carreira, como profissional, no Jabaquara, de Santos.
Destacou-se e chegou ao Corinthians em 1945, por 200 mil cruzeiros mais a renda de dois amistosos. Mas levou tempo até virar "o craque mais querido do Brasil". A equipe alvinegra vivia jejum de títulos desde 1941, e a contratação do garoto do bairro santista do Macuco não mudou imediatamente a situação.
Baltazar atuava desde sempre como meia-direita, e foi nessa posição que desembarcou no Parque São Jorge ?o centroavante era Servílio, o Bailarino, outro ídolo histórico preto e branco. O jovem de Santos era criticado, jogava mal, até que o médico Sérgio Blumer Bastos diagnosticou desnutrição e lhe receitou altas doses de cálcio.
OS MAIORES ARTILHEIROS DA HISTÓRIA DO CORINTHIANS
Cláudio
306 gols
Baltazar
269 gols
Teleco
257 gols
Neco
242 gols
Marcelinho
206 gols
O cálcio ajudou, mas também ajudaram os jovens incorporados ao elenco principal. Cabeção, Idário, Roberto Belangero e Luizinho se juntaram a Baltazar e a Cláudio ?este ponta-direita, também nascido em Santos, até hoje o maior artilheiro da história do Corinthians?, e o alvinegro foi do jejum a uma sequência frenética de títulos.
Com o time encorpado, floresceu a parceria entre Cláudio e Baltazar, que, com a saída de Servílio, virou centroavante. Se Baltazar é o Cabecinha de Ouro, é o Cabecinha de Ouro por causa dos cruzamentos de Cláudio.
"Eu já sabia onde ele gostava do lançamento: na esquerda, atrás do beque central. Eu centrava, ele pulava e cumprimentava, fulminava. No escanteio, o Baltazar saía da grande área. Quando ela estava chegando, na direção da marca do pênalti, ele estava chegando junto. De braços abertos, dava a cabeçada. Dificilmente errava", disse Cláudio, em depoimento para o livro "Coração Corinthiano" (1992), de Lourenço Diaféria.
"O Baixinho fazia metade do trabalho. Bom de centro, de cobrança de falta, com bola correndo, com bola parada", reconheceu Baltazar. "Eu tive a felicidade de jogar com o mais perfeito jogador que vi. Foi o Cláudio."
Baltazar foi convocado para a Copa de 1950 ?Cláudio, não, erro que o técnico Flávio Costa nunca conseguiu justificar. Foi decisivo também para a classificação da seleção ao Mundial de 1954, com cinco gols nos quatro jogos das Eliminatórias.
O corinthiano começou as duas Copas como titular e depois perdeu a posição, mesmo marcando gols. Não compreendeu as decisões e chegou a dizer que jamais voltaria a defender o time amarelo ?ele foi o autor dos dois primeiros gols do Brasil com a camisa amarela, em 1954, uma vitória por 2 a 0 sobre o Chile, em Santiago.
Sua seleção era mesmo o Corinthians, clube no qual foi também técnico das categorias de base e da equipe profissional, no primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971. Atuou posteriormente como carcereiro e treinador do time da penitenciária do Carandiru, em São Paulo. E foi instrutor do Ceret (Centro Esportivo Recreativo Educativo do Trabalhador), na zona leste paulistana, pouco antes de morrer, em 1997, aos 71 anos, com problemas de circulação sanguínea.
"É o Cabecinha?", perguntava no Ceret, vez ou outra, um torcedor alvinegro, como fizera o guarda de trânsito na rua São Caetano. Ao que ele respondia: "Sim. Amo o Corinthians com todas as minhas forças".