RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - Autor de um golaço e de uma assistência, o haitiano Garrinsha roubou a cena e foi o grande personagem da vitória do Bangu por 2 a 1 sobre o Flamengo, pelo Campeonato Carioca. Com nome inspirado na lenda do futebol brasileiro ?e o perdão do "S" na grafia? ele revelou que não vê a família há seis anos.

REFUGIADOS NOS ESTADOS UNIDOS APÓS GUERRA CIVIL

Os pais e a irmã caçula de Garrinsha se refugiaram para os Estados Unidos em 2021, após uma guerra civil no Haiti que eclodiu com o assassinato do então presidente Jovenel Moïse.

Desde então, eles aguardam um visto de trabalho para vir ao Brasil ficar com Garrinsha. Após o jogo desta quarta-feira (14), o atacante se mostrava ansioso para falar com o pai, Garry, que ligava para ele durante a entrevista.

"Ele estava acompanhando o jogo, mas ainda não consegui falar. Mas já, já vai acabar aqui (a entrevista) e vou ligar, porque já recebi a ligação dele aqui (risos). Sei que eles estão muito felizes por mim. A saudade é muito grande, mas não tem outro jeito, a gente tem que se sacrificar mesmo. Se Deus quiser, logo eles vão estar aqui comigo", afirma Garrinsha, após a vitória sobre o Flamengo.

QUER SER EXEMPLO PARA JOVENS HAITIANOS

Garrinsha foi descoberto no Haiti pela ONG Viva Rio, que possui o projeto do Pérolas Negras, time de futebol que tem a filial brasileira em Resende, no interior do Rio. Após ser aprovado num teste, ele embarcou para o Brasil em 2019 e iniciou sua aventura. Em seguida, passou por São Bernardo-SP, Penapolense-SP, Comercial-SP, Aymorés-MG, Sampaio Corrêa-RJ e Petrópolis-RJ, até chegar ao Bangu.

Ainda em busca de um lugar ao sol no futebol brasileiro, o atacante de 24 anos quer ser uma inspiração para jovens haitianos.

"Penso, sim, porque sei de onde vim. É um país com muita dificuldade, mas com muito talento. Infelizmente, desde que morreu o presidente, as coisas ficaram muito complicadas. Quero que os jovens lá continuem seguindo seus sonhos e trabalhem muito porque não tem como realizar nada sem trabalho. A gente sabe como o futebol é difícil, pede muito sacrifício. Posso dizer que sou um exemplo disso. Estou há seis anos aqui no Brasil sem ver minha família, mas tenho que continuar trabalhando, focando, porque se a gente tem um objetivo, tem que passar por esse processo para conseguir nosso propósito", afirma o jogador.

EVITA COMPARAÇÕES COM ETERNO CRAQUE DO BRASIL

A escolha pelo nome foi do pai de Garrinsha. Joseph Garry, que também foi jogador de futebol, tem Mané Garrincha como ídolo e decidiu homenagear o craque brasileiro, considerado um dos maiores de todos os tempos. O jovem atacante haitiano, porém, prefere evitar comparações, apesar da noite digna da lenda diante do Flamengo.

"Não gosto muito de comparar porque a gente sabe como foi a história dele. O cara foi um gênio, mas graças a Deus, posso dizer que tive a sorte dele, né (no jogo contra o Fla)? Foi uma noite gratificante mesmo, pelo gol e pela assistência", diz Garrinsha.