SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Antes mesmo da pira olímpica acender, a edição de Milão-Cortina dos Jogos de Inverno representa uma nova página para o Brasil. Pela primeira vez na história, a equipe de bobsled vai utilizar um trenó de última geração.

A delegação verde e amarela vai usar um trenó da BTC, empresa com sede na Letônia, e que custou 60 mil euros, em torno de R$ 375 mil.

"É um marco, sem dúvida. Na nossa sexta participação olímpica no bobsled, esta será a primeira vez com um equipamento novo. Esse trenó também representa a sincronia entre os projetos da confederação e o COB [Comitê Olímpico do Brasil], pois, sem um planejamento conjunto, este investimento não seria possível", diz Emilio Strapasson, presidente da Confederação Brasileira de Desporto no Gelo

O equipamento já foi utilizado em competições na última temporada. O trenó anterior era de 2013 e, apesar de ter levado o Brasil a bons resultados, a tecnologia e algumas peças já estavam defasadas. "O trenó anterior é muito competitivo e está sendo utilizado pelo nosso segundo piloto Gustavo Ferreira - se tudo se confirmar este trenó também estará em Milano-Cortina", conta Strapasson.

Recordista do país em participações nos Jogos Olímpicos de Inverno, Edson Bindilatti, do bobsled, enalteceu o investimento e apontou a diferença que fez para resultados recentes.

"Representa muita coisa. Representa o trabalho que a gente vem fazendo ao longo dos anos, os resultados que a gente vem fazendo com trenós alugados, com, às vezes, lâminas emprestadas... Foi o momento que a confederação e o COB entenderam que faltava o 'algo a mais'. Conseguimos comprar um trenó novo, zero, de 4-man, e um 2-man novo também, não zero, mas bem competitivo. E isso foi importante pros resultados tivemos no Mundial e ao longo da temporada", comenta Edson Bindilatti.

Além do trenó novo foram compradas também novas lâminas, algo que é tem um peso grande na equação do bobsled, apelidada de "Fórmula 1 do gelo" devido às altas velocidades que são atingidas.

"Todos os trenós seguem uma regulamentação muito rígida e têm um conceito, à primeira vista, simples, mas grandes fabricantes da indústria automobilística já tentaram criar versões que se mostraram lentas e ineficientes. Atualmente, a tradição de construção destes trenós pertence a, no máximo, seis fabricantes. O diferencial é a montagem e ajuste do equipamento. Existe também o fator aerodinâmico, no qual cada fabricante opta por um conceito próprio. Porém, o principal diferencial está nas lâminas", explicou.

"O metal das lâminas precisa ser certificado e ter origem no mesmo distribuidor oficial. Deste metal, cada fabricante realiza os cortes com diâmetros diferentes, o que afeta a área de contato com o gelo e oferece mais ou menos controle. Quanto mais controle, menor a velocidade, e o contrário também se aplica. É necessário ter ao menos 2 tipos de lâminas - um para quando a temperatura está muito baixa e o gelo está 'duro', e outro para gelo 'macio', com temperaturas próximas de zero e quando a pista fica mais lenta. Fazendo um paralelo à F1 é como pneus para pista seca ou molhada, com aderência a controles diferentes", completou.

O Brasil garantiu no domingo a participação no quarteto do bobsled em Milão-Cortina após o trenó de Edson Bindilatti ficar na terceira colocação na etapa de Lake Placid, da Copa América da modalidade.

No ano passado, o quarteto formado por Edson Bindilatti, Edson Martins, Rafael Souza e Erick Vianna conseguiu o melhor resultado da história do bobsled nacional: 13º lugar no Mundial.

"Estamos muito animados, especialmente pelo excelente resultado no Mundial, em março de 2025, quando nosso time ficou na 13ª posição, mesmo tendo treinado com o novo equipamento por apenas uma semana. Planejamos conquistar a melhor colocação da história em Cortina".

Bindilatti indica que houve, sim, uma mudança de patamar dos esportes de inverno no Brasil e ressaltou resultados expressivos que foram conquistados anteriormente, mesmo sem apoio, para reforçar que o país chega a Milão-Cortina em uma cenário "muito melhor" e expectativa de "fazer coisa grande".

"O Brasil chega com uma esperança muito maior do que as edições anteriores. Isso é muito bom porque mostra a seriedade das confederações, tanto da Confederação Brasileira de Desporto na Neve quanto a Confederação Brasileira de Desporto no Gelo. A gente vem tendo resultados astronômicos. Tivemos um quarto lugar da Nicole no Mundial, o Lucas, que foi medalhista nas Copa do Mundo, o Pat Burgener no snowboard... O esporte de inverno vem crescendo bastante, mas tudo por conta do esforço dos atletas, que vinham mostrando resultados com poucos recursos e, agora, com o apoio maior, as coisas estão acontecendo", continua Edson Bindilatti.

Isso prova mais ainda que quando tem investimento, apoio, os resultados acontecem. Conosco não foi diferente. Se não tivéssemos um trenó novo de 4-man, não teríamos feito esse resultado histórico que fizemos no Mundial. A expectativa é de muitos resultados expressivos. Jogos Olímpicos é uma competição em que tem de estar naquele momento, não é fácil. Todos estão preparados, estão com vontade, querem medalha, mas a gente chega em uma posição muito melhor do que anos anteriores e a expectativa é de fazer coisa grande", disse.

Outra esperança de bom resultado está em Nicole Silveira. No último dia 9, ela conquistou o bronze na etapa de St. Moritz da Copa do Mundo de skeleton.

Nascida no Rio Grande do Sul, Nicole mudou-se para o Canadá com a família ainda na infância. Lá, jogou futebol, se destacou no fisiculturismo e até praticou levantamento de peso. O destino cruzou com os esportes de inverno em 2017.

"A Nicole é uma destas surpresas do destino. Ela vive no Canadá e, em 2017, um atleta da nossa equipe de bobsled estava na loja de suplementos onde ela trabalhava quando descobriu que ela era brasileira e a convidou para tentar o bobsled. Ao final da temporada, a CBDG a convidou para testar o skeleton e o resto é história. Em quatro anos, foi a 13ª nas Olimpíadas de Pequim 2022 e, agora, chega como uma das candidatas ao pódio", enaltece Strapasson.

O que mais ele falaram

Quais são as expectativas para os Jogos de Milão-Cortina?

Emilio Strapasson. "Queremos classificar as equipes do Edson Bindilatti e do Gustavo Ferreira. Bindilatti sonha com um Top 10 e o Gustavo, com ficar entre os 20 mais bem colocados do mundo".

Edson Bindilatti: "As expectativas são as melhores. Estamos vindo melhor física e mentalmente, com material melhor, lâminas melhores... Todos os times estão muito bem preparados, estão muito bem competitivos. Não vai ser fácil, como nenhuma competição é. É uma competição de alto rendimento, são três medalhas que estão em jogo, mas vamos com muita vontade e força. Queremos assustar muita gente. A expectativa é grande. Não vamos ficar falando de posição, colocação, mas vamos com uma vontade que nunca tivemos. Pode ter certeza"

O que norteou a escolha pelo trenó novo?

Emilio Strapasson. "Escolhemos um trenó da marca BTC, com sede na Letônia, que oferece o melhor custo-benefício do mercado, além de termos uma relação de parceria técnica de longa data com a federação letã. Todos os nossos quatro trenós que estamos usando com os nossos dois times são BTC".

Edson Bindilatti: "A escolha desse novo trenó foi pela empresa, que já fabrica os trenós de 2-man muito competitivos. É um dos melhores. A Alemanha é fabricação própria, Estados Unidos fabricação própria, e eles não vendem para ninguém. Esse trenó que é um BTC, da Letônia. Conseguimos comprar um seminovo deles 2-man e um 4-man novo. Pelos valores, conversamos com a confederação e com o COB, e conseguiu comprarmos".

O Brasil chega com uma esperança maior que em edições anteriores. É o começo de uma nova etapa nos esportes de inverno?

Emilio Strapasson. "Vários fatores contribuíram para este momento, especialmente os resultados do Lucas Pinheiro e da Nicole Silveira. Acreditamos que os esportes de inverno serão 'descobertos' pelos brasileiros, pois o fuso horário será de apenas cinco horas, em comparação às últimas três edições na Ásia, com fusos horários de até 12 horas, o que, consequentemente, resultou em menor audiência no Brasil. Teremos 4 grandes canais cobrindo todas as competições com participação brasileira e uma cobertura pré-olímpica intensa. Com certeza teremos um antes e um depois dos Jogos de Milão-Cortina".

A confederação, de alguma forma, monitora competições e analisa atletas brasileiros com descendência brasileira para que possam competir pelo país?

Emilio Strapasson. "A CBDG não costuma repatriar atletas que estejam competindo por outros países. Costumamos dizer que estamos com as portas sempre abertas, e se um brasileiro radicado no exterior tiver o sonho olímpico e quiser representar o Brasil, estaremos prontos para recebê-lo. O que fazemos e estamos prestes a iniciar outro ciclo é na busca por jovens atletas entre 13 e 17 anos para começarem nas modalidades de montanha (bobsled, skeleton e luge), com foco na formação e qualificação para as Olimpíadas da Juventude de Inverno, que serão na Itália em 2028".

A CBDG tem algum projeto que possa facilitar, ou diminuir barreiras, para o contato dos brasileiros com os esportes de inverno?

Emilio Strapasson. "A CBDG inaugurou em 2019 a Arena Ice Brasil em São Paulo, onde fomenta as modalidades de patinação artística, hóquei no gelo e curling. É o primeiro centro de treinamento de inverno no Brasil. Ali é o ambiente onde conseguimos apresentar as nossas modalidades a milhares de jovens que querem descobrir um pouco mais sobre esta experiência mágica. Trabalhamos, portanto, com três frentes: o fomento na Arena Ice Brasil para a descoberta das nossas modalidades, captação de jovens para bobsled, skeleton e luge, e filiação de brasileiros radicados no exterior. O nosso projeto dos sonhos é construir a primeira pista oficial de patinação e hóquei no Brasil dentro dos próximos quatro anos para acelerar a formação de atletas de alto rendimento no país".