SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As ações da Polícia Civil e do Ministério Público apontam que o esquema ilegal de vendas de camarotes no Morumbis, estádio do São Paulo Futebol Clube, localizado na zona oeste da capital, tem causado prejuízos ao clube e dado lucro aos envolvidos.
Na manhã desta quarta-feira (21), foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão contra três investigados. A ação resultou na apreensão de dinheiro, documentos e um computador. O promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, que atua no caso, classificou a operação como exitosa.
Em conversa com a reportagem, ele afirmou que as apurações apontam o envolvimento de mais pessoas do que o observado inicialmente. O esquema também seria antigo, envolvendo vários shows, não apenas o da cantora colombiana Shakira, em fevereiro de 2025.
Segundo Carneiro, o montante obtido pelos envolvidos era repartido entre eles, sem que nada fosse revertido para o clube. "O São Paulo é vítima dos recursos manipulados pela própria diretoria. O Morumbis se transformou em uma máquina de arrecadação pessoal", afirmou o promotor.
As buscas e as apreensões nesta quarta foram realizadas contra Douglas Schwartzmann, diretor-adjunto de futebol de base, Mara Casares, ex-mulher de Julio Casares, presidente afastado do clube, e Rita de Cássia Adriana Prado.
Rita Adriana não foi encontrada em seu endereço. Seus filhos, que estavam no local, informaram que ela mora atualmente em outro lugar. A polícia afirma ter apreendido anotações de interesse da investigação.
Na residência de Mara Casares foram apreendidos R$ 20 mil em espécie, além de documentação e um computador.
Douglas Schwartzmann também não estava em casa. As equipes descobriram que ele está fora do país. Os filhos dele receberam os policiais.
Em nota, a defesa de Mara disse que ela foi "surpreendida na data de hoje com o cumprimento de medida cautelar de busca e apreensão em sua residência" e acrescentou que "mantém a sua postura irrestrita de colaborar amplamente para a elucidação dos fatos perquiridos, cuja lisura de seus atos será comprovada ao longo desta investigação policial".
Os advogados de Douglas criticaram a operação. "A toda evidência, a busca realizada na presente data - justamente quando as autoridades tinham prévia ciência que Douglas estaria fora do país - tem a finalidade única de constrangê-lo, uma vez que tal medida foi totalmente inócua", afirmaram.
A assessoria do clube declarou à reportagem que o São Paulo é vítima e vai contribuir com a investigação.
IMPEACHMENT DE CASARES
O Conselho Deliberativo do São Paulo aprovou na sexta-feira (16) o afastamento de Julio Casares da presidência do clube. Na votação do impeachment, 188 conselheiros votaram contra sua permanência no cargo. Foram 45 votos pela rejeição do pedido e dois em branco.
A queda de Casares é consequência do derretimento de seu capital político, provocado por uma série de escândalos que abalaram a gestão. O vice-presidente Harry Massis Junior, 80, assume o cargo interinamente.
O pedido de destituição, protocolado em 23 de dezembro, tem como base a suspeita de uso irregular de camarotes do Morumbis durante shows.
Em dezembro, o site ge.com divulgou áudios que indicariam um suposto esquema de venda clandestina de ingressos de um camarote reservado à presidência em dias de eventos musicais no estádio.
Após a divulgação do material, Mara Casares, então diretora feminina, cultural e de eventos, e Douglas Schwartzmann se afastaram de seus cargos.
Nas últimas semanas, enquanto o caso do camarote ganhava repercussão, a Polícia Civil já mantinha um inquérito aberto, com frentes de investigação distintas: uma sobre supostas irregularidades no departamento de futebol e outra relacionada às contas bancárias do São Paulo Futebol Clube e de Julio Casares.
A Polícia Civil apura, por exemplo, o recebimento de R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro nas contas pessoais do dirigente. Outra linha de investigação tenta esclarecer a realização de 35 saques nas contas do clube entre 2021 e 2025, que somam R$ 11 milhões.
Os advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, que representam Casares, afirmaram que as movimentações financeiras apontadas em relatório do Coaf "têm origem lícita e legítima, compatível com a evolução da capacidade financeira" do dirigente.
Segundo a defesa, antes de assumir a presidência do São Paulo, Casares ocupou cargos de alta direção na iniciativa privada, com remuneração elevada. A origem dos recursos, afirmam os advogados, será esclarecida ao longo das investigações, com a apresentação de documentos e declarações fiscais.
VEJA A NOTA DA DEFESA DE MARA CASARES
A Sra. Mara Suely Soares de Melo Casares, por meio de seus advogados Rafael Maluf, Paula Stoco e Chiara de Siqueira, vem a público informar que foi surpreendida na data de hoje com o cumprimento de medida cautelar de busca e apreensão em sua residência.
Cumpre destacar que a Sra. Mara Suely Soares de Melo Casares sempre se colocou à inteira disposição da Autoridade Policial para prestar os devidos esclarecimentos acerca dos fatos perquiridos nos autos do aludido Inquérito Policial, jamais tendo sido intimada para qualquer ato que objetivasse a sua respectiva elucidação, mesmo com o constante contato presencial de seus advogados com a Autoridade Policial. É inegável a postura colaborativa da Sra. Mara Suely Soares de Melo Casares com o deslinde das investigações, cujo teor é amplamente divulgado pelos meios de comunicação. Dessa forma, uma medida desta gravidade, cujos fatos são públicos, a torna desnecessária e inócua, restando como objetivo apenas e tão somente a exposição midiática e abusiva da Sra. Mara e de seus familiares.
A Sra. Mara Casares mantém a sua postura irrestrita de colaborar amplamente para a elucidação dos fatos perquiridos, cuja lisura de seus atos será comprovada ao longo desta investigação policial. Por fim, a Defesa esclarece que ainda não teve acesso à íntegra da decisão proferida pelo Juízo da Vara das Garantias do Foro Central Criminal da Capital do Estado de São Paulo, que determinou a medida de busca e apreensão.
VEJA A NOTA DA DEFESA DE DOUGLAS SCHWARTZMANN
No final do ano passado, quando tomou ciência da investigação pela mídia, a Defesa se dirigiu a Delegacia e informou que o Sr. Douglas Schwartzmann estava à inteira disposição da Autoridade Policial para prestar esclarecimentos sobre os fatos.
Ato seguinte, no dia 9 de janeiro, a Defesa comunicou formalmente a Autoridade Policial que o Sr. Douglas faria uma viagem ao exterior na semana do dia 18 de janeiro, em razão de compromissos profissionais.
Inclusive, naquela oportunidade, apresentou-se cópia das passagens aéreas -ida e volta-, bem como a documentação comprobatória das atividades que faria no exterior.
Hoje, policiais civis se dirigiram a residência do Sr. Douglas e constataram o óbvio: ele não estava.
À toda evidência que a busca realizada na presente data - justamente quando as Autoridades tinham prévia ciência que Douglas estaria fora do país - tem a finalidade única de constrangê-lo, uma vez que tal medida foi totalmente inócua.
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