SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O menino que se sentia um pouco Viola ao vestir a camisa do Corinthians em 1993, com o patrocínio da Kalunga, hoje ajuda a preservar a história do clube. Aquele torcedor da Vila Albertina, aos olhos de Cássio Brandão, transformou a paixão em contribuição concreta para o Timão.

Brandão define como "mágico" o projeto Manto Alvinegro, livro idealizado e produzido por ele que documenta as 100 camisas mais importantes da história corintiana. A obra nasce do desejo de devolver ao clube parte do que recebeu ao longo da vida como torcedor.

A CAMISA COMO ELO ENTRE TORCEDOR E ÍDOLO

A relação entre camisa, identidade e pertencimento é o fio condutor do livro, que reúne uniformes históricos do Corinthians. O projeto tem origem em uma ligação afetiva de Cássio Brandão com o futebol e com o clube.

Para o autor, a camisa tem o poder de transformar o torcedor em protagonista, ainda que por alguns minutos.

"Poucas coisas fazem você se sentir tão jogador quanto vestir a camisa. Você se traveste de craque, de ídolo", diz Cássio em entrevista à reportagem.

A seleção dos uniformes prioriza modelos que marcaram épocas, seja por conquistas esportivas ou pelo impacto cultural. Cada camisa é tratada como um símbolo de seu tempo.

O livro também reúne textos de ex-jogadores, como Casagrande e Rivellino, além de corintianos notáveis, entre eles a atriz Alessandra Negrini, a cantora Negra Li e o jornalista Juca Kfouri. Os depoimentos ajudam a contextualizar a importância dos uniformes e o vínculo emocional criado com a torcida.

O prefácio é assinado por dois presidentes corintianos: Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, e Osmar Stábile, atual mandatário do clube. Brandão explica que o convite seguiu a liturgia dos cargos.

"Estamos falando do presidente da República e do presidente do Corinthians. Queria a visão dos dois como corintianos", afirma Cássio.

INCÔMODO QUE VIROU PROJETO

O Manto Alvinegro surgiu a partir de um incômodo com a ausência de documentação sobre um dos maiores símbolos do futebol brasileiro.

"Até esse livro existir, o Corinthians não sabia quantos modelos de camisa tinha usado na história. Isso, para mim, é super importante", diz Brandão.

Foram dois anos de pesquisa até a finalização da obra. Nesse período, o autor reuniu imagens, cruzou informações e trabalhou diretamente com o editor Daniel Pereira para transformar o projeto em um livro que fosse, ao mesmo tempo, registro histórico e objeto artístico.

"A gente é um país que não cuida da memória. No futebol, isso é ainda mais acentuado. O livro nasce como uma forma de tangibilizar esse processo de cuidar da memória", afirma.

O retorno do projeto, segundo ele, é principalmente simbólico. O torcedor que antes apenas consumia passa a contribuir ativamente com o clube. Como o livro é um produto licenciado, parte do valor arrecadado com cada exemplar é destinada diretamente ao Corinthians.

"O corintiano que compra esse livro está ajudando o Corinthians. Talvez, com o valor arrecadado, a gente pague o salário de um jogador ou de dezenas da base", diz Cássio.

A tiragem é limitada e simbólica: 1.910 exemplares, em referência ao ano de fundação do clube. A edição será única.

MAIOR COLEÇÃO DE CAMISAS DO MUNDO

Cássio Brandão integra o Guinness Book como dono da maior coleção de camisas de futebol do mundo. São mais de 6 mil peças, das quais cerca de 1,7 mil são do Corinthians.

O acervo é formado por meio de uma ampla rede de contatos que envolve jogadores, ex-jogadores, familiares, funcionários e ex-funcionários de clubes. Nenhuma das camisas foi comprada em loja: todas foram usadas em partidas oficiais.