SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Vinicius Júnior voltou a marcar um gol neste sábado (21), na derrota por 2 a 1 do Real Madrid para o Osasuna, pelo Campeonato Espanhol. Na última semana, a postura de combate do brasileiro aos ataques racistas que recebe também colocou Vini Jr. em um papel de destaque na luta contra o racismo nos esportes. Mas diversos outros atletas negros também já sentiram na pele os efeitos de comprar essa briga.
Um dos casos mais emblemáticos foi o do jogador de futebol americano Colin Kaepernick, que nunca mais atuou na NFL depois de protestar contra a violência policial nos Estados Unidos, há quase dez anos.
Em agosto de 2016, o quarterback do San Francisco 49ers não se levantou durante o hino nacional dos Estados Unidos e iniciou uma onda de debate sobre o assunto no país, com a sociedade local dividida entre críticas e apoio à atitude do atleta.
Em agosto de 2016, o quarterback do San Francisco 49ers não se levantou durante o hino nacional dos Estados Unidos e iniciou uma onda de debate sobre o assunto no país, com a sociedade local dividida entre críticas e apoio à atitude do atleta.
A realidade de Vinicius Júnior é diferente da que viveu Kaepernick. Eleito melhor jogador do mundo pela Fifa em 2024, o brasileiro segue cobiçado pelo mercado do futebol e também pela publicidade e é hoje o nome do país mais procurado pelas agências de marketing.
"O Vinicius é um personagem que atrai a atenção e move causas. Empresas gostam de embaixadores que buscam propósitos. As empresas gostam de se associar a pessoas que lideram causas e são capazes de mobilização. E o Vinicius tem esse poder de mobilização", disse Ivan Martinho, professor de marketing da ESPM e presidente da World Surf League (WSL).
Vinicius Júnior é garoto-propaganda de sete marcas internacionais. Uma delas é a Nike, que também era fornecedora de material esportivo de Colin Kaepernick. Em 2018, a empresa lançou uma campanha mundial com o atleta norte-americano e viu as vendas aumentarem em 10%, segundo o então presidente executivo da empresa, Mark Parker.
Na última semana, após Vinicius Júnior ter denunciado um novo ataque racista durante a partida entre Real Madrid e Benfica, a empresa manifestou apoio ao brasileiro e pediu para que ele "siga bailando".
"Para as marcas, o silêncio hoje pode ser mais arriscado do que o posicionamento. Vinicius Junior não está criando uma pauta, ele está reagindo a episódios concretos. Ao assumir essa narrativa, ele se posiciona como protagonista de uma causa legítima. Isso pode gerar ruído pontual em mercados específicos, mas, no médio e longo prazo, tende a consolidar sua imagem como liderança social dentro do esporte", explicou Wagner Leitzke, diretor digital da agência End to End.
Repercussão nem sempre é positiva
A luta antirracista de Vinicius Júnior é bem recebida por boa parte do mercado publicitário, mas a defesa da causa também desperta reações negativas em setores do universo esportivo que entendem que não é papel dos atletas se posicionar de forma incisiva sobre o assunto.
Na eleição de melhor jogador do mundo de 2024, realizada pela revista France Football, o brasileiro perdeu a disputa para o espanhol Rodri, do Manchester City. O resultado foi contestado por boa parte da comunidade do futebol, e muitos apontaram que a luta antirracista fez ele perder votos. Na ocasião, Vini Jr. novamente não se calou e publicou nas redes sociais: "Eu farei 10 vezes se for preciso. Eles não estão preparados".
Alvo de racismo em 2014, quando atuava pelo Santos em uma partida contra o Grêmio, em Porto Alegre, o goleiro Aranha admite que o posicionamento social de um atleta pode gerar consequências negativas e até um isolamento.
"No primeiro momento, você recebe uma chuva de apoio, uma rede de proteção. Mas passam alguns dias, a notícia fica velha e você fica sozinho. É nesse momento que as coisas acontecem", comentou Aranha, ex-goleiro de futebol.
Aranha encerrou a carreira de atleta em 2018, três anos após ser agredido verbalmente na Arena do Grêmio. Questionado se os ataques racistas prejudicaram seu desempenho, ele garante que não houve mudança, mas revela que percebeu uma diferença no tratamento de dirigentes e torcedores.
"O meu desempenho não teve impacto. Eu voltei à Arena do Grêmio outras vezes e fiz boas partidas. O que eu sofri não impactou em nada dentro de campo, mas, fora de campo, eu comecei a ser visto como encrenqueiro, agitador. Muitos jogadores, diretores e clubes decidiram não se aproximar de mim para não ter a imagem ligada à minha. Dentro de campo, eu não tive prejuízo, mas, fora de campo, eu tive muito", finalizou Aranha.
Nova era da luta antirracista
Desde 2023, Vinicius Júnior já sofreu mais de 20 ataques de racismo. O mais recente foi na vitória por 1 a 0 sobre o Benfica, pela Liga dos Campeões na Europa, na última terça-feira (17). Aos 6 minutos do segundo tempo, o brasileiro relatou ao árbitro François Letexier que foi chamado de macaco pelo argentino Gianluca Prestianni.
O caso está sob investigação na Uefa e tem movimentado debates em todo mundo, com declarações de grandes nomes do esporte como Kylian Mbappé, Thierry Henry, Pep Guardiola e Vincent Kompany, entre outros. As reações deram peso ao protesto de Vinicius Júnior e sinalizam uma diferença em relação ao que aconteceu com Kaepernick.
"A diferença do Vinicius Júnior para o Kaepernick é o tempo. Em 2016, a NFL não tinha a pretensão de ser um esporte global. A liga não tinha essa busca para levar os jogos para todos os cantos do mundo como tem hoje. A NFL e os clubes não declararam oficialmente um boicote ao Kaepernick, mas a verdade é que ele nunca mais jogou", disse Ivan Martinho, professor de marketing da ESPM.
"Hoje, o momento é diferente. O futebol é um esporte global. Já se passaram dez anos. E o Vinicius Junior tem o apoio do Kylian Mbappé. Dois dos três melhores do mundo estão juntos em uma causa. Isso chama a atenção", explicou Ivan Martinho, professor de marketing da ESPM.
Apesar das manifestações de apoio, os casos contra Vinicius Junior são recorrentes, e setores do mundo do futebol também costumam atacar o brasileiro, com insinuações de que seus dribles e comemorações são atos provocativos que incitam as agressões de rivais.
"A partir do momento em que você se posiciona, você vai ser atacado. Isso tem acontecido com o Vinicius. Alguns torcedores e até jogadores enxergam isso como uma forma de desestabilizá-lo. Isso aconteceu comigo. É uma situação horrível", comentou Aranha.
"Mas o Vinicius precisa usar isso como força para se superar e não deixar que isso o atrapalhe, porque, a partir do momento que a performance dele não aparecer e os títulos não vierem, certamente o Vinicius vai ser um dos alvos para deixar o clube e aliviar toda essa tensão que existe hoje em cima do Real Madrid", concluiu o ex-goleiro Aranha.