BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Em uma decisão que surpreendeu os torcedores argentinos, a AFA (Associação Argentina de Futebol) suspendeu a nona rodada do Torneio Apertura (o Campeonato Argentino do primeiro semestre), como uma resposta às investigações de suposta sonegação fiscal contra o presidente da entidade, Claudio "Chiqui" Tapia.
Após uma reunião do Comitê Executivo, a associação divulgou um comunicado em que repudia a investigação da Arca (o equivalente local à Receita Federal).
"Em virtude da reunião do Comitê Executivo da Liga Profissional realizada hoje, os líderes, por decisão unânime de todos os presentes, solicitaram a suspensão da data 9 da LPF, que vai de quinta-feira, 5 de março, a domingo, 8 de março, e das demais categorias do nosso futebol; em repúdio à denúncia feita pela Arca contra a Associação Argentina de Futebol", diz o comunicado.
O presidente da AFA e o tesoureiro Pablo Toviggino foram chamados para depor por supostas irregularidades que envolvem a retenção de contribuições e a omissão de pagamento de impostos, com um valor equivalente a R$ 73,5 milhões.
A entidade também é investigada por possível lavagem de dinheiro, um caso que levou a uma operação de busca e apreensão em dezembro, com o objetivo de coletar documentos que apontariam transações suspeitas com uma instituição financeira privada.
A AFA afirma que não tem dívidas fiscais e que todos os pagamentos foram feitos em dia, rebatendo as alegações que levaram à convocação de uma investigação pelas autoridades.
"Esta não é a primeira vez que vivenciamos isso. Três presidentes [da República] já passaram pelos nove anos em que estou à frente do futebol argentino, e ainda tenho muitos anos pela frente", disse Tapia em novembro.
Tapia foi proibido de viajar ao exterior. O juiz responsável pelo caso expressou que existem motivos suficientes para suspeitar da participação dele nas irregularidades investigadas. A ordem judicial se estende a outros três dirigentes da federação argentina de futebol, que supervisiona a seleção atual campeã mundial.
O cancelamento da rodada ganha peso por causa da Copa do Mundo que se aproxima, a ser realizada nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Tapia tenta pressionar o governo de Javier Milei a suspender a investigação para que a Fifa (Federação Internacional de Futebol) não puna a seleção argentina ?o órgão que comanda o futebol mundial veta expressamente intervenções de governos nas federações nacionais.
As investigações têm gerado debates intensos no mundo do futebol argentino, não apenas sobre as práticas da AFA mas também sobre as implicações que isso traz para o futuro dos clubes.
Os líderes das equipes expressam suas preocupações sobre uma possível "guerra" contra o esporte, que, segundo eles, está alheia às questões levantadas nas acusações.
Antes de a AFA ter suspendido a rodada, o presidente do Vélez Sarsfield, Fabián Berlanga, já havia sugerido que a medida poderia ocorrer se necessário.
A maioria dos clubes expressou apoio à AFA e confirmou seu apoio à suspensão. O Central Córdoba foi um dos primeiros a se manifestar, referindo-se à acusação como "infundada" e afirmando que isso causa incertezas para clubes, atletas e trabalhadores.
O Deportivo Riestra se uniu a essa linha de defesa, rotulando o cenário judicial como "falacioso" e repetindo as preocupações sobre a influência da mídia nos processos judiciais.
O Atlético Tucumán também declarou seu apoio à AFA, afirmando que todas as obrigações mencionadas na acusação foram pagas a tempo e considerando inadmissível a continuação do caso.