SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Reforço do Corinthians para a atual temporada, o volante Allan apontou falhas no processo de formação de atletas no futebol brasileiro.
Aos 28 anos, o jogador está emprestado pelo Flamengo e carrega no currículo uma experiência de quatro anos no futebol europeu, entre 2015 e 2019.
JOVENS SOBEM MAIS SOBERBOS
Ao comentar uma declaração do atacante Memphis Depay, em entrevistas após o título da Supercopa do Brasil, no início do mês, Allan concordou que a importância da formação final dos jogadores brasileiros ser melhor fora do país.
Para o volante, um dos principais problemas está no comportamento de atletas que chegam ao elenco profissional ainda muito jovens.
"Hoje, no Brasil, a molecada já sobe para o profissional com mais moral do que a gente, que já tem uma porrada de jogos. Eles chegam um pouco mais soberbos e é natural que não queiram aprender. Já se acham preparados. Na Europa, eles são mais educados no entendimento do jogo e precisam passar por todo o processo quando sobem", disse o volante durante sua apresentação pelo Timão.
O jogador avalia que essa postura está diretamente ligada a uma questão cultural do futebol brasileiro, em que jovens atletas são lançados precocemente em clubes de grande visibilidade e passam a ser cobrados de forma imediata. Como exemplo, Allan citou o companheiro de posição André.
"No Brasil, as coisas são muito aceleradas. Quando surge uma joia da base, como o André, já se cobra que ele esteja pronto, mas ele é um menino. Vai errar, precisa aprender. E aqui não há tempo. Isso é cultural."
FALTA ENTENDIMENTO DE JOGO
Na avaliação do novo volante corintiano, o futebol brasileiro sofre, em comparação ao europeu, com a falta de estímulo ao entendimento coletivo e tático do jogo.
"O futebol evoluiu muito. Quando o Memphis fala que a formação final tem que ser lá fora, é porque hoje você precisa de físico, tática e entendimento de jogo. Muitas vezes, no Brasil, a gente joga por jogar, sem compreender a demanda da partida. Isso se aprende com estímulo. Talento nós temos de sobra, mas na Europa os meninos sobem querendo aprender, perguntam, se aproximam do treinador."
Allan também apontou o aumento do número de atletas estrangeiros no futebol brasileiro como um sinal de alerta para o processo de formação no país.
"Isso é ruim para a gente, porque tira espaço, mas é mérito deles. Se vêm, é porque têm qualidade. Se não encontramos aqui, buscamos fora. Isso precisa servir de alerta para as nossas bases evoluírem. Somos o país do futebol e temos talento em casa, mas isso precisa ser construído desde baixo", falou o jogador.
Recentemente, o técnico Dorival Júnior também criticou a regra que permite até nove atletas estrangeiros em campo em competições nacionais.
EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL
Allan voltou ao Brasil em 2019, quando foi contratado pelo Fluminense, após quatro temporadas atuando na Europa. Ele havia sido contratado em 2015 pelo Liverpool, antes mesmo de estrear como profissional no país, mas sequer chegou a entrar em campo pela equipe inglesa.
No período, o volante acumulou empréstimos para clubes da Finlândia, Bélgica, Alemanha e Chipre. Desde o retorno ao futebol brasileiro, além do Fluminense, também defendeu o Atlético-MG e o Flamengo.
Allan tem contrato com o clube carioca e está emprestado ao Corinthians até o fim da temporada. O acordo prevê opção de compra fixada em 2 milhões de euros, valor próximo de R$ 12 milhões na cotação atual.