SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesta terça-feira (3), começa a contagem regressiva de 100 dias para o início da maior Copa do Mundo de todos os tempos, com o número recorde de seleções participantes, 48, um total de 104 partidas, divididas em 16 cidades de três países-sede, Estados Unidos, Canadá e México.

Apenas com essas características, a 23ª edição do torneio já seria a mais complexa organizada pela Fifa (Federação Internacional de Futebol). Mas crises internas nos países anfitriões e um cenário geopolítico desafiador elevaram ainda mais a tensão a pouco mais de três meses do jogo de abertura entre México e África do Sul, em 11 de junho, no estádio Azteca, na capital mexicana.

Debates sobre equipes favoritas, candidatos a craques do torneio e o clima de despedida de gênios como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo foram ofuscados nos últimos meses pelo intenso noticiário político, com impacto direto na realização da competição.

Não faz muito tempo, as preocupações giravam em torno da relação entre os Estados Unidos e seus dois vizinhos coanfitriões, tensionada pela criação de tarifas comerciais impostas por Donald Trump a diversos países, entre eles, Canadá e México. No último dia 20, a Suprema Corte dos EUA determinou que as tarifas eram ilegais, em uma dura derrota para a política econômica do republicano.

Além do protecionismo econômico, Trump aumentou a repressão à imigração. Seu governo adotou uma política restritiva, que congelou o processamento de vistos para imigrantes para 75 países, incluindo os visitantes de quatro nações classificadas para o Mundial: Haiti, Costa do Marfim, Senegal e Irã.

O presidente dos EUA abriria uma nova crise pouco tempo depois, com a ameaça de anexar a Groenlândia, causando tensão com a Dinamarca e com grande parte da União Europeia.

Países do bloco chegaram a discutir a possibilidade de um boicote à Copa do Mundo caso a situação se agravasse nos meses seguintes. Publicamente, porém, houve uma tentativa de baixar a temperatura da crise. A Federação Alemã de Futebol divulgou um comunicado dizendo que um "boicote não estava sendo considerado" e citando o "poder unificador do esporte".

Esse poder de pacificação será novamente testado nas próximas semanas depois da notícia que abalou o mundo no último sábado (28), com a operação militar conjunta de EUA e Israel contra o Irã, que provocou uma reação dos iranianos, perturbando a ordem no Oriente Médio.

Forças iranianas atingiram instalações americanas e alvos em países do Golfo, entre eles, Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Ainda no sábado, foi confirmado que o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, estava entre as pessoas mortas após os ataques de EUA e Israel.

Horas depois, num discurso exibido por uma rede de televisão estatal local, o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, classificou como "improvável" a participação do país no Mundial.

"Com o que aconteceu hoje e com o ataque dos Estados Unidos, é difícil olhar para a Copa do Mundo com esperança, mas essa é uma decisão que cabe aos dirigentes do esporte", afirmou.

Procurada pela reportagem, a Fifa não respondeu sobre a declaração de Taj nem sobre eventuais consequências do conflito para o torneio.

As três partidas do Irã na fase de grupos estão previstas para ocorrer em território americano: contra a Nova Zelândia, em 15 de junho, em Los Angeles; diante da Bélgica, no dia 21, na mesma cidade; e contra o Egito, em 26 de junho, em Seattle. Há ainda a possibilidade de um confronto direto com os donos da casa na primeira fase eliminatória, caso ambos terminem em segundo lugar em seus grupos.

A possibilidade de transferir esses jogos para o México tem sido divulgada pela imprensa internacional. O coanfitrião, no entanto, vive uma onda de violência interna, desencadeada após uma operação que causou a morte do narcotraficante Nemesio Oseguera, conhecido como "El Mencho".

Após o ocorrido, o país passou a conviver com uma série de ataques organizados pelo Cartel Jalisco Nova Geração.

A tensão obrigou o presidente da Fifa, Gianni Infantino, a se manifestar sobre a possibilidade de transferir os jogos da repescagem da Copa do Mundo, que estão marcados para ocorrerem no México neste mês. O dirigente, contudo, rechaçou a ideia.

"Ninguém precisa mudar nada. Nós estamos em contato constante com a presidência mexicana e as autoridades. Temos plena confiança nas autoridades mexicanas, na presidente Claudia Sheinbaum e sua equipe, e as apoiamos integralmente", disse Infantino. "É claro que estamos monitorando a situação, mas temos plena confiança de que tudo correrá bem", insistiu o dirigente.

No dia 26, Jamaica x Nova Caledônia e Bolívia x Suriname abrem as partidas do mini torneio que vale vaga no Mundial. No dia 31, Iraque e República Democrática do Congo vão enfrentar os vencedores dos duelos. Os jogos estão marcados para Jalisco e Monterrey.

Ainda restam seis vagas para a Copa, sendo duas para a repescagem mundial, em território mexicano, e quatro que vão sair da repescagem europeia. Isso sem falar na possibilidade de desistência do Irã, algo que não acontece desde a Copa de 1950.