SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A janela de transferências do futebol brasileiro fechou às 23h59 de terça-feira (3) com os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tendo investido cerca de R$ 1,6 bilhão em reforços para a temporada.

O valor corresponde a uma queda de 24% em relação à primeira janela do ano passado, quando a elite do futebol brasileiro gastou aproximadamente R$ 2,1 bilhões em contratações, em valores corrigidos pela inflação.

Segundo especialistas, a queda reflete a maior preocupação dos times com suas finanças, na primeira janela de transferência depois da apresentação pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) das regras do novo sistema de fair play financeiro a ser implementado no futebol brasileiro.

O modelo brasileiro, denominado SSF (Sistema de Sustentabilidade Financeira), será baseado em padrões já adotados no exterior, estabelecendo limites para dívidas, gastos com elenco, capacidade de endividamento e equilíbrio operacional dos clubes.

"A tendência de um maior rigor na alocação de recursos para esta finalidade parece evidente. A dedução mais lógica é que se trata de um efeito imediato e pedagógico do início do fair play financeiro recém-instituído pela CBF", afirmou Michel Fauze Mattar, professor da FIA Business School.

"As exceções são os clubes cujas reestruturações financeiras sabidamente já foram implementadas e aquelas SAFs cujos investidores aportaram capital para esta linha de investimento", acrescentou o especialista.

Diretor-geral da Trevisan Escola de Negócios e especialista em gestão e marketing esportivo, Fernando Trevisan disse que a queda também pode estar relacionada com a redução dos patrocínios das bets, na esteira de um aumento da regulação no setor que diminuiu a margem para investimentos no esporte.

"Podemos estar vendo um ajuste nesse cenário de uma bolha que houve no passado e que não há mais. Inclusive com alguns clubes começando o campeonato sem patrocínios, o que não acontecia há algum tempo", disse Trevisan.

Vasco, Internacional, Grêmio, Coritiba e Bahia iniciaram a disputa do Brasileiro sem patrocínio master, após encerrarem seus contratos com casas de apostas esportivas.

Como já tem sido comum nas últimas janelas, Flamengo e Palmeiras voltaram a liderar os gastos para reforçar os elencos já fortes, com a SAF do Cruzeiro e o Fluminense vindo um pouco atrás.

O rubro-negro foi o responsável por protagonizar a maior contratação da história do futebol brasileiro, repatriando o volante da seleção brasileira Lucas Paquetá, cria da base do clube carioca que esteve nos últimos anos no West Ham, da Inglaterra, por R$ 257 milhões.

O Flamengo ainda investiu R$ 62,4 milhões para tirar o zagueiro Vitão do Internacional, além de mais R$ 9,2 milhões para trazer o goleiro Andrew do Gil Vicente, de Portugal.

O Palmeiras, por sua vez, teve como maior contratação da janela o atacante colombiano Jhon Arias, que havia deixado o Fluminense no ano passado rumo ao inglês Wolverhampton e foi trazido de volta ao Brasil por R$ 152 milhões.

O alviverde também pagou R$ 31,2 milhões no volante Marlon Freitas, do Botafogo, e outros R$ 24,5 milhões pelo zagueiro Bruno Fuchs, do Atlético-MG.

Já o Cruzeiro apostou todas as fichas no volante Gerson, que deixou o Zenit, da Rússia, por R$ 165 milhões -no momento do anúncio, tornou-se a contratação mais cara do futebol brasileiro, ultrapassando Vitor Roque, que veio do Barcelona para o Palmeiras por R$ 162 milhões em fevereiro de 2025, em valores corrigidos pela inflação, mas superada poucos dias depois por Paquetá no Flamengo.

"Houve um aumento no valor por atleta. Os clubes foram mais seletivos nesse momento na busca por jogadores de uma qualidade maior, em vez de olhar a quantidade. Talvez a gente tenha agora uma melhor qualificação dos elencos em comparação com o período anterior", disse Trevisan.

Apesar dos valores altos com contratações de peso pelo trio, os clubes ficaram dentro dos novos limites estabelecidos pelo fair play da CBF. "São negociações que causam um impacto pequeno e não devem criar problemas ao cumprimento das regras", disse o economista César Grafietti, um dos responsáveis pela elaboração do programa.

"A amortização do Gerson deve representar cerca de 7% das receitas do Cruzeiro, enquanto as contratações de Flamengo e Palmeiras devem representar 3% das receitas. Não estamos falando de valores proibitivos, mas no Cruzeiro o impacto é maior, com a vantagem de poder contar com aportes de capital do acionista para compensar eventuais valores acima do limite", acrescentou o economista.

Grafietti assinalou que o Brasil representa hoje a sexta maior liga do mundo em termos de receitas, com a evolução das condições financeiras dos clubes ao longo dos últimos anos calcada, em parte, em melhores gestões de times como Flamengo, Palmeiras e Athletico-PR, e também pelo impacto causado pelas SAFs.

"Mas é preciso atenção, porque se parte pode fazer esses investimentos sem dificuldades, ainda há casos de clubes desequilibrados que reagem sem capacidade. Grêmio, Internacional, Corinthians, Santos, São Paulo são exemplos disso", disse Grafietti.

Os clubes ainda poderão reforçar os elencos entre esta quarta-feira (4) até 27 de março, mas, neste caso, tendo à disposição apenas atletas que disputaram os estaduais ou que rescindiram recentemente seus contratos.

A janela de transferências "tradicional", com as equipes aptas a trazer jogadores sem qualquer tipo de impeditivo, volta a se abrir entre 20 de julho e 11 de setembro.

AS CINCO MAIORES CONTRATAÇÕES DA HISTÓRIA DO FUTEBOL BRASILEIRO

1) Lucas Paquetá (do West Ham-ING para o Flamengo) - R$ 257 milhões

2) Gerson (do Zenit-RUS para o Cruzeiro) - R$ 165 milhões

3) Vitor Roque (do Barcelona-ESP para o Palmeiras) - R$ 162 milhões*

4) Thiago Almada (do Atlanta-EUA para o Botafogo) - R$ 156 milhões*

5) Jhon Arias (do Wolverhampton-ING para o Palmeiras) - R$ 152 milhões

*valores corrigidos pela inflação