SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O executivo de futebol Marcelo Paz completou nesta sexta-feira (04) três meses à frente do departamento de futebol do Corinthians.
O período foi suficiente para que o dirigente saísse do título da Supercopa do Brasil, conquistado ainda no primeiro mês de trabalho, para um ambiente de pressão pela ausência de resultados recentes.
O clima pesado atual pode, inclusive, culminar na demissão do técnico Dorival Júnior caso não vença o Internacional, neste domingo, pelo Campeonato Brasileiro.
DA EUFORIA À PRESSÃO
Marcelo Paz vive o desafio de adaptação a um novo cenário após deixar a presidência do Fortaleza. No Corinthians, apesar de liderar o departamento de futebol, ele está subordinado ao presidente Osmar Stábile.
Nesse contexto, o dirigente tem lidado com divergências internas. Ao longo dos três meses, houve conflitos de ideias com o presidente, o que exigiu habilidade política para manter o equilíbrio na condução do trabalho.
Paz tem buscado administrar os impasses com diálogo constante, sempre reforçando que a palavra final cabe a Stábile. Além das questões internas do futebol, o executivo também enfrenta um ambiente político conturbado no clube.
Em ano eleitoral, o presidente Osmar Stábile, possível candidato à reeleição, é cercado por aliados que, mesmo sem cargos oficiais, exercem influência sobre decisões relacionadas ao futebol. Embora o estatuto preveja a figura de um diretor de futebol não remunerado, Stábile pretende manter participação direta no departamento, acumulando funções ao lado de Marcelo Paz.
Algumas mudanças de rota da presidência acabaram expondo o trabalho do executivo neste início de trajetória. O principal caso foi o recuo na venda do volante André ao Milan, que já estava encaminhada.
Outros episódios incluem a desistência na contratação por empréstimo do volante Alisson, do São Paulo -negociação alinhada entre Paz e Rui Costa, executivo do rival- e o recuo na contratação do atacante Kayky, então no Bahia, por entraves anteriores entre as partes. As situações impactaram a percepção externa sobre o trabalho do dirigente.
ADAPTAÇÃO AO NOVO AMBIENTE
Os problemas enfrentados nos primeiros meses de trabalho levaram Marcelo Paz a ajustar sua forma de atuação em relação ao modelo que adotava no Fortaleza. No clube cearense, ele também lidava com questões políticas -inclusive partidárias, já que sua esposa, Jade Romero, é vice-governadora do Ceará-, mas em um ambiente com maior autonomia.
Apesar dos desafios, a relação com Osmar Stábile segue cordial e baseada em diálogo frequente.
Para conduzir o trabalho, Marcelo Paz conta com uma base de apoio no departamento. Renan Bloise atua como braço direito nas questões de mercado e gestão do futebol. Já Julio Manso e Thiago Ayres, profissionais de confiança trazidos do Fortaleza, são responsáveis por áreas administrativas e logísticas.
Enquanto Bloise já integrava o clube e vem ganhando espaço, Manso e Ayres ajudam a implementar o modelo de trabalho do executivo. Além disso, a dupla ex-Fortaleza possuem o papel atuam na redução de custos operacionais.
AJUSTES FINANCEIROS E MERCADO LIMITADO
A aproximação entre o futebol e a área financeira foi um dos principais objetivos da contratação de Marcelo Paz por Osmar Stábile. O dirigente tem trabalhado alinhado ao grupo de reestruturação financeira para cumprir o planejamento orçamentário aprovado no fim do ano passado.
Na prática, isso resultou em uma janela de transferências sem aquisição de direitos econômicos. Foram sete contratações: quatro jogadores livres no mercado (Pedro Milans, Gabriel Paulista, Zakaria Labyad e Jesse Lingard) e três por empréstimo (Allan, Matheus Pereira e Kaio César).
A única operação com custo foi a taxa de R$ 1,8 milhão paga ao Fortaleza pelo empréstimo de Matheus Pereira, valor que será abatido em caso de compra definitiva, estipulada em 2 milhões de dólares. O acordo também envolveu o abatimento salarial de Ryan, emprestado ao clube cearense.
O saldo final foi comemorado por Marcelo Paz, em contato exclusivo com o UOL, há uma semana. O dirigente celebrou o custo-benefício através da criatividade em contratar jogadores em diferentes mercados, além de realizar contratações em um período de mercado em que o Corinthians iniciou impedido de registrar atletas, por conta de um transfer ban - além de um segundo eminente, que também foi quitado.
DISTANCIAMENTO DO VESTIÁRIO
Se por um lado houve avanço na integração entre futebol e finanças, por outro, existe a percepção de maior distanciamento do executivo em relação ao vestiário. Internamente, jogadores sentem falta de uma comunicação mais próxima, característica atribuída ao antecessor Fabinho Soldado.
A comissão técnica também percebe menor blindagem em momentos de pressão, especialmente em comparação ao cenário do ano passado. Apesar disso, o departamento de futebol liderado por Marcelo Paz sempre se posicionou a favor da permanência de Dorival Júnior, inclusive de forma pública.
A sensação de menor proteção está mais relacionada à postura do executivo, que, em alguns momentos, opta por equilibrar o ambiente político em vez de adotar uma defesa mais incisiva da comissão técnica. Além disso, há divergências sobre o modelo de gestão esportiva adotada em relação a venda de reforços, considerada essencial por Paz, mas que, na visão da comissão, pode comprometer esportivamente a temporada corintiana -sobretudo no segundo semestre.
