(UOL/FOLHAPRESS) - O Brasil atravessou décadas com grandes nomes na lateral-esquerda: Roberto Carlos, Branco, Junior e outros. A posição era tão consolidada que Emerson Palmieri decidiu se naturalizar italiano em 2018 por não ver um futuro pela seleção canarinha. Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, ele recorda o sonho da convocação e questiona como seria o presente se não tivesse perdido o direito de jogar pela equipe nacional brasileira.

"Na minha época a disputa era muito complicada. Era Marcelo vivendo o auge no Real Madrid, Filipe Luís no Atlético de Madri e Alex Sandro dominante na Juventus. Eu esperei por muito tempo o Brasil. Demorei seis meses para responder o pedido da Itália, mas ninguém da CBF me procurou. O Tite chegou a ver alguns jogos meus, mas ninguém nunca me mandou uma mensagem", disse Palmieri à reportagem.

"São escolhas que eu fiz na vida e não me arrependo. Mas eu não posso negar minhas origens. Eu tenho coração brasileiro, joguei na seleção brasileira de base. Então você tem esse pensamento. Pensamentos intrusos que a gente fala", disse.

No futebol europeu desde 2014, Emerson estreou pela Itália em agosto de 2018, quando tinha 24 anos, e jogou 29 partidas pela Azzurra. Apesar de nunca ter disputado uma Copa do Mundo, já que o país não participa de um Mundial desde 2014, o lateral tem na galeria de títulos a Eurocopa de 2020.

O título europeu ameniza a dúvida do jogador sobre como seria o presente pelo Brasil. Desde o fim da Copa do Mundo de 2022, a seleção brasileira teve 13 jogadores convocados para a lateral-esquerda e nenhum deles conseguiu se consolidar no setor.

Contra o Marrocos, primeiro jogo do ciclo em março de 2023, o titular foi Alex Telles, que não correspondeu. Depois vieram Ayrton Lucas, Renan Lodi, Caio Henrique, Guilherme Arana, Carlos Augusto, Wendell, Abner, Alex Sandro, Lucas Beraldo, Douglas Santos, Luciano Juba e Kaiki Bruno.

Para a Copa do Mundo, o técnico Carlo Ancelotti deve chamar Alex Sandro (Flamengo) e Douglas Santos (Zenit), com preferência pelo último para ser titular. Além dos dois, o italiano colocou na pré-lista de 55 nomes os laterais Carlos Augusto, Kaiki Bruno e Luciano Juba.

O cenário atual vivido pelo Brasil é bem diferente de quando Emerson Palmieri aguardava uma chance na seleção e via Marcelo e Filipe Luís consolidados no setor.

"Eu acompanho todos os jogos da seleção brasileira. As posições mais afetadas nesse processo de renovação foram as laterais. Pela história, de grandes laterais, a gente chega pela primeira vez sem uma questão bem resolvida", avaliou Emerson, que além de campeão da Eurocopa, também conquistou a Liga dos Campeões, a Liga Europa e a Conference League, levantando todas as taças dos torneios profissionais organizados pela Uefa.

A DESCOBERTA DE HAALAND PELO VIDEOGAME

Além de acompanhar os jogos da seleção brasileira, Palmieri é um grande apaixonado por videogames. Desde jovem, ele mantém esse hábito, principalmente com o Football Manager, jogo em que o usuário administra um clube de futebol em todas as áreas, desde a presidência, com a contratação de jogadores e comissão técnica, até a montagem de treinos diários.

Por causa do Football Manager, ele tem um conhecimento geral sobre futebol em vários locais do mundo. Foi assim que ele descobriu Erling Haaland, estrela do Manchester City, mas na época apenas um atacante desconhecido no futebol austríaco.

"Nós fomos jogar um amistoso de pré-temporada pelo Chelsea contra o Red Bull Salzburg, da Áustria. E foi bem curioso. Eu estava com o Willian e com o David Luiz no Chelsea. Eu virei para o David Luiz e falei 'mano, cuidado com o atacante dos caras'. O David Luiz brincou comigo e perguntou como assim? Você conhece o atacante do Salzburg?'. E eu respondi que sim por causa do joguinho. Falei que ele fazia gol pra caramba e que ele tinha de ficar ligado. O joguinho não tem as fotos do jogador. Quando eu vi ele, um cara muito forte, eu pensei 'caramba! Esse cara que é a máquina de fazer gols?", relembrou Palmieri, que se tornou parceiro do Football Manager e dos desenvolvedores e recebe o jogo antes de ele ser comercializado para o público.

"Quando a gente concentra, eu jogo mesmo. Eu estou no ano 2043. Nem tem mais jogadores da atualidade. Eu já devo ter até virado bisavô", brincou.

RETORNO AO BRASIL E CRENÇA EM NEYMAR

Revelado pelo Santos, Palmieri tem 31 anos e ainda não definiu como será o futuro. O contrato com o Olympique de Marselha termina em 2027, mas com opção de renovação automática por mais um ano. Quando ficar livre, o Brasil deve ser o destino.

"O Santos sempre vai ter um lugar no meu coração. Eu sou muito grato ao clube, comecei lá quando eu tinha nove, dez anos de idade. Quando eu voltar para o Brasil, a prioridade, obviamente, vai ser ouvir o Santos", disse o jogador, que tem acompanhado as dificuldades de seu clube formador e torcido pelo sucesso de Neymar.

"Eu acredito muito no Neymar. Acredito e acredito muito. Eu vejo todos os jogos do Santos e eu vejo que o Neymar quer muito, que ele quer ajudar o clube. Sobre talento, não tem o que falar. O Neymar pode decidir a partida em uma jogada, numa bola. Eu vi o Neymar de perto. Ele é diferente de tudo que eu vi. O estilo dele mudou um pouco por causa da idade, pela lesão, que é a mesma que eu tive em 2018, mas ele é o Neymar. Ele em condições, saudável, não tem que abrir um ponto de interrogação. Ele é indispensável na seleção brasileira", afirma Palmieri.

Palmieri subiu para o profissional do Santos em 2013 e viu os últimos meses de Neymar no clube. Ele admite ser um fã do camisa 10 e que este sentimento é compartilhado por outros jogadores da seleção.

Todo mundo da seleção brasileira é fã do Neymar. A rapaziada toda tem ele como ídolo. Imagina a presença do Neymar em uma Copa do Mundo? Isso vai motivar os caras assim como foi com a Argentina, com o Messi. Os caras deram a vida pelo Messi e no final deu certo. A presença do Neymar é importantíssima.Emerson Palmieri

"O Santos tem um time competitivo, mas não passa por um bom momento. Já a seleção, nós estamos falando dos melhores do mundo. O Raphinha foi o melhor do mundo na minha opinião em 2025. O Vinicius Jr. já ganhou o prêmio de melhor do mundo. Tem Casemiro, Gabriel Magalhães, Marquinhos... É diferente quando você joga com jogadores assim. Não é desmerecendo o Santos, mas a gente precisa ser sincero. Na seleção estão os melhores e isso vai ajudar bastante o Neymar", complementou.

Sobre a carreira de treinador ou dirigente, ele prefere que essa ideia, pelo menos por agora, fique apenas no videogame.

"Antes eu jogava o jogo pensando em poder trabalhar em um clube de futebol, de virar treinador. Mas nesta sexta-feira (15) não tenho mais essa vontade. Tenho minha esposa, meus três filhos. Quando eu me aposentar, eu quero aproveitar um pouco a minha vida, curtir um pouco. Depois, quando tudo esfriar, pode ser que eu volte a pensar nisso. Mas hoje não quero. Prefiro ficar no jogo que quando o time perde e a torcida dá bronca, eu só desligo o computador e não tem crise".