RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Um atleta brasileiro vai participar da primeira edição dos Enhanced Games, os "Jogos Aprimorados". Medalhista de prata nos 50m no Mundial de Gwangju, na Coreia do Sul, em 2019, o nadador Felipe Lima vai estar em ação no próximo dia 24, em Las Vegas, nos Estados Unidos.
O torneio, que permite a utilização de substâncias para a melhora de desempenho, vai reunir 41 atletas de diversas nacionalidades para disputas de natação, atletismo e levantamento de peso. Em fevereiro, o UOL mostrou essa contestada competição e apresentou seu vínculo com a indústria de suplementos e saúde.
"É um tanto quanto polêmico porque as pessoas ainda não entendem que os Enhanced Games não estão aqui para competir contra o olimpismo, contra o esporte profissional. Está aqui para agregar outros conhecimentos que possam servir de experiência, resultados positivos para a humanidade", diz o nadador à reportagem.
"Muitas pessoas não sabem o que está por trás dos Enhanced Games. Ele veio com uma política de marketing, muitas vezes, agressiva porque precisa se comparar com algo, já que são os primeiros jogos que estão acontecendo. Houve testes, no ano passado, onde obtiveram grandes resultados. Seguimos protocolos que os médicos enviam para que possamos nos adaptar, e esse acompanhamento é, praticamente, diário", apontou.
Dentre os êxitos positivos apontados está o do grego Christian Gkolomeev, que nadou os 50 m livre em 20s89, abaixo dos 20s91 de César Cielo, até então recorde mundial da prova. No mundo olímpico, a marca do brasileiro foi quebrada em março deste ano, pelo australiano Cameron McEvoy, que fez em 20s88 no Aberto da China.
"Temos braceletes que acompanham como está nosso ritmo cardíaco, quais são os picos e as mínimas, como nos recuperamos a cada noite. Os testes em hospitais são constantes, para que saibamos onde nos encontramos em níveis hormonais, o que precisamos adicionar, o que tirar, e as adaptações corporais que acontecem em qualquer reposição. São protocolos previamente estudados para seguirmos e termos um resultado em cima disso", explica o nadador.
Felipe Lima tem 41 anos e estava aposentado das piscinas desde dezembro de 2021 ? meses antes do anúncio, disputou os Jogos Olímpicos de Tóquio. O convite para os "Jogos Aprimorados" veio em setembro do ano passado, através do australiano Brett Hawke, que foi treinador dele e, atualmente, integra a equipe do torneio.
Felipe ainda é o recordista sul-americano dos 50m peito em piscina longa, com 26s33, e detém o quarto melhor tempo da história do Brasil nos 100m peito, com 59s17.
O QUE ATRAIU FELIPE PARA OS ENHANCED GAMES?
Os primeiros atletas anunciados pelos Enhanced Games apontavam duas causas principais: o lado financeiro e a possibilidade de alcançar marcas ainda inéditas no esporte. Felipe, porém, revela ter firmado contrato com a organização dos jogos por outro motivo.
"Quis encarar pela pesquisa científica, algo novo que os Enhanced Games querem trazer à tona. A reposição hormonal é uma coisa realista, muita gente passa por esse tipo de protocolo hoje em dia. Não se sabe os melhores caminhos para esses estudos, os resultados, quem se beneficia, quem não... Os jogos querem colocar no papel todos esses resultados, mostrando quais são os benefícios e malefícios", diz Felipe.
"É algo que não está sendo projetado para atletas profissionais, muito menos para incentivar atletas ao uso de algum tipo de protocolo para poder se beneficiar, mas, sim, colocar esses resultados fora dessa sombra e mostrar, realmente, quais são os resultados em atletas de alta performance", completou,
Educador físico e nutricionista, o nadador brasileiro pretende, através dos dados e estudos aos quais ele tem acesso ao longo do processo, adquirir uma base mais ampla sobre o tema.
"Eu tive uma carreira totalmente limpa, fui para duas Olimpíadas, quatro Jogos Pan-Americanos, diversos Sul-Americanos e Brasileiros... Para mim, está sendo um momento diferente, em que posso experimentar coisas diferentes para que possa, talvez, até utilizar na minha vida profissional", afirma. "Hoje sou educador físico e nutricionista, e encontro isso na minha realidade diária. Atualmente se fala muito dos peptídeos, de reposição hormonal com testosterona... Vemos que essa é a realidade, mas nem todo mundo sabe a real consequência a longo prazo. Os Enhanced Games vêm para desmistificar esse tipo de informações e colocar tudo isso em formas de estudo científico."
Os peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos, ou pequenas proteínas, que são produzidos pelo corpo naturalmente ?e são usados para tratar condições médicas, como é o caso da insulina, que ajuda pacientes com diabetes. Recentemente, o mercado de bem-estar viu explodir medicamentos como os GLP-1s, que imitam o peptídeo glucagon-1, um hormônio que ajuda a regular o nível de fome.
PROTOCOLO INDIVIDUAL
Felipe revela ainda que os atletas não sabem quais são os protocolos dos outros participantes e que realizou reuniões individuais com os especialistas.
"Não sabemos quais são os protocolos que cada um está seguindo. No termo que assinamos, esses estudos e protocolos são privados e um atleta não sabe o que o outro está utilizando. Fizemos exames previamente, em um hospital, e, depois, reuniões individuais com os médicos, fisiologistas e pessoas envolvidas no Enhanced para saber qual daquela lista das drogas que poderiam ser utilizadas cada atleta se encaixaria. Até porque estamos falando de diferentes esportes. Vai ter natação, atletismo e levantamento de peso. Então, cada esporte tem a sua característica e a sua diferença, onde cada atleta está buscando a melhor performance. Cada atleta buscou para si, e com a ajuda dos especialistas, o melhor protocolo para seguir", conta.
VIAGEM BARRADA PELA GUERRA
Felipe, que tem a cidadania dos Estados Unidos, está há três meses na Flórida, onde realiza a preparação para os Enhanced Games, com treinos diários de 8h às 12h.
A cidade surgiu como plano B em meio a um contratempo para se unir a outros integrantes da delegação que vai participar do torneio.
"Era para eu estar em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, com o resto da equipe. Eu estive lá no começo do ano para fazer alguns testes, passei três semanas lá. Voltei ao Brasil para resolver algumas questões e buscar minha família. Mas, um dia antes do embarque, estourou a guerra. Fiquei impossibilitado de voltar e tive que ajustar para onde eu iria. Morei nos Estados Unidos por 11 anos e tenho a cidadania. Então, decidi, por questões estruturais, vir para cá com a minha família e continuar os treinamentos daqui, seguindo o protocolo", afirma Felipe.
Apesar de estar distante, o brasileiro aponta que está sendo acompanhado pela equipe do Enhanced. Ele conta que é assistido com mais proximidade por um grupo de três médicos e um fisiologista,
GRANDES NOMES E PREMIAÇÃO MILIONÁRIA
Além de Felipe Lima, o Enhanced Games vai contar com nomes como o nadador inglês Benjamin Proud, campeão mundial nos 50 metros borboleta em 2017 e prata nos Jogos de Paris, o nadador ucraniano Andri Govorov, dono do melhor tempo da história nos 50 metros borboleta, e o velocista norte-americano Fred Kerley, campeão mundial dos 100 metros em 2022 e medalhista nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 e Paris-2024.
Nas provas dos 50m e 100m, de todos os estilos, será montada uma piscina com apenas quatro raias. "nesta segunda-feira (18), eu penso na minha melhor marca nos 50m peito, que é 26s33, e no 100m peito, que é o 59s17. Mas, obviamente, temos de trabalhar com cautela, até porque seguir algum tipo de protocolo não é a pílula mágica, não vou virar o Superman da noite para o dia e atravessar a piscina o mais rápido possível, bater um recorde no mundo. Não funciona assim".
A organização oferece uma premiação total equivalente a R$ 5 milhões para atletas que superarem as marcas oficiais reconhecidas pelas federações internacionais.
A questão financeira, inclusive, pesou para a escolha de muitos atletas em aderir aos Enhanced. Ben Proud foi um dos que tratou o assunto abertamente e admitiu que isso tem muita importância.
"Há um enorme incentivo financeiro nisso e eu estaria mentindo se dissesse que não importa. Levaria 13 anos ganhando títulos de Campeonato Mundial só para ganhar o que posso ganhar em uma única competição nos Jogos Aprimorados. Financeiramente, é um patamar completamente diferente. Me dá a oportunidade de ganhar esse tipo de dinheiro e me estabelecer, sustentar minha família e minha mãe. São oportunidades que, aos 30 anos, eu simplesmente não posso deixar passar", disse, à época, à BBC.
