SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O Corinthians recebeu, nos dias 13 e 14 de maio, duas novas notas fiscais emitidas pela Mega Assessoria Operacional Ltda. para substituir um documento anterior que havia sido emitido de forma equivocada pela empresa para ela própria.

A reportagem teve acesso aos novos documentos e também à troca de e-mails internos do clube sobre o caso. As novas emissões ocorreram após o Corinthians identificar problemas na nota fiscal número três, relacionada a serviços prestados no Parque São Jorge entre setembro e outubro 2025.

Procurado pelo UOL, o clube afirmou que as novas notas não foram pagas e nem serão alvo de novo pagamento, já que foram emitidas apenas para regularização fiscal e contábil do processo.

A movimentação ocorre no momento em que o Ministério Público de São Paulo investiga a contratação da Mega pelo Corinthians sem contrato formal. A empresa pertence a Fernando José da Silva, ex-coordenador operacional do CT Joaquim Grava.

Os documentos aos quais a reportagem teve acesso mostram que a nota original apresentava inconsistências nos dados do tomador de serviço. Em uma das mensagens internas, integrantes do departamento financeiro do Corinthians afirmam que a NF 03 havia sido emitida "contra o próprio prestador" e solicitam o cancelamento do documento junto à Prefeitura.

A troca de e-mails revela ainda que o clube discutia internamente a necessidade de correção da nota desde dezembro de 2025. Funcionários dos departamentos financeiro, administrativo e contábil cobraram diversas vezes a regularização do documento ao longo de quase cinco meses.

TROCA DE EMAILS

Em mensagem enviada em 5 de dezembro de 2025, uma funcionária do Corinthians pede a correção da nota fiscal porque o documento estava "com o tomador incorreto". A cobrança voltou a ocorrer em dezembro, janeiro, abril e maio de 2026.

Em outro e-mail, o departamento financeiro afirma que o pagamento de R$ 223.650,00 já havia sido realizado, mas permanecia "em aberto" no sistema pela ausência de documento fiscal válido.

A reportagem teve acesso ainda a uma resposta da contabilidade responsável pela empresa. Nela, o escritório afirma que não seria possível apenas corrigir a nota já emitida porque alterações em tomador, CNPJ e valores exigiriam cancelamento e nova emissão do documento fiscal.

Foi nesse contexto que surgiram as notas fiscais emitidas nos dias 13 e 14 de maio, justamente na data e dia seguinte da abertura da processo investigatório pelo Ministério Público, após a divulgação do caso inicialmente pelo site Sport Insider. O UOL apurou que a primeira tentativa de substituição também apresentou inconsistência relacionada ao código de tributação utilizado, o que exigiu nova emissão no dia seguinte.

O Corinthians sustenta internamente que as novas notas serviram apenas para regularizar contabilmente um pagamento já efetuado em 2025 e que não representam novos serviços ou repasses financeiros à empresa.

CONTRATAÇÃO ÀS PRESSAS

Ao UOL, a versão apresentada por Fernando José da Silva, através da sua defesa, é de que a contratação ocorreu em caráter emergencial após a invasão ao Parque São Jorge, em 31 de maio de 2025. Segundo relatos obtidos pela reportagem, a gestão interina de Osmar Stabile buscava reorganizar o controle de acesso em diferentes áreas do clube. A justificativa está alinhada com o discurso do presidente Osmar Stábile, em entrevista exclusiva ao UOL.

A justificativa apresentada é que o trabalho executado não envolvia segurança armada, mas controle de acesso e apoio operacional em portarias do Parque São Jorge, CT Joaquim Grava e Neo Química Arena. Pessoas ouvidas pela reportagem afirmam que, naquele momento, houve reforço de equipes em portarias e monitoramento externo diante do cenário de instabilidade política e problemas de segurança no clube.

Segundo essa versão, Fernando teria custeado inicialmente parte da operação com recursos próprios porque o Corinthians enfrentava dificuldades financeiras para realizar pagamentos imediatos.

Ainda de acordo com os relatos obtidos, a abertura da empresa teria sido sugerida posteriormente, pelo então diretor administrativo Fabio Soares para viabilizar o ressarcimento dos valores desembolsados. Integrantes da diretoria administrativa e do departamento jurídico participaram das discussões sobre a regularização documental do processo. Soares pediu desligamento da sua função após o início das investigações pelo MP.

INVESTIGAÇÃO DO MP

As novas notas fiscais passam a integrar o contexto da investigação aberta pelo Ministério Público de São Paulo sobre a contratação da Mega Assessoria.

A Promotoria apura possíveis irregularidades na prestação de serviços ao Corinthians sem contrato formal e sem autorizações específicas para atuação em segurança privada armada.

O procedimento também investiga a emissão das notas fiscais relacionadas aos pagamentos feitos pelo clube à empresa entre setembro e outubro de 2025.

Fernando José da Silva e o diretor administrativo Fabio Soares foram convocados para prestar depoimento ao Ministério Público na próxima terça-feira.