SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto o Monumental de Núñez convulsionava e o caos tomava conta das ruas do entorno do estádio, o repórter da Rádio Mitre balbuciava para os colegas ao seu lado na sala de imprensa.
"Isso não é natural."
Em um sistema feito para um time do seu tamanho não cair, o River Plate foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Argentino pelo Belgrano, em 2011. O empate por 1 a 1 ascendeu a equipe de Córdoba à elite. O momento extrapolou o esporte e se tornou um evento histórico no país. Tornou-se referência em programas jornalísticos, culturais, humorísticos e músicas de arquibancadas sobre o dia que o gigante "foi para a B".
A queda colocou no vernáculo do argentino a frase "esta mancha não se apaga".
Quinze anos depois, River Plate e Belgrano voltam a se enfrentar em uma partida decisiva. Neste domingo (24), às 15h30 (de Brasília), decidem o título nacional --com transmissão de ESPN/Disney+. O jogo será no estádio Mario Alberto Kempes, em Córdoba. A torcida do Belgrano esgotou sua cota de 20 mil ingressos em 45 minutos.
A final é em 2026, mas é como se todos vivessem ainda em 2011. Fala-se mais do jogo do rebaixamento do que da definição do troféu. Há até a lembrança de que o atacante Mariano Pavone perdeu o pênalti que praticamente selou o destino do River naquele ano aos 24 minutos e 5 segundos da etapa complementar. A data do confronto deste domingo é 24/5.
O River caiu apesar do sistema de promédios criado pela AFA (Associação de Futebol Argentino) para evitar o descenso dos grandes. A queda não é definida em apenas um campeonato, mas a partir de uma equação que leva em consideração os pontos dos cinco torneios anteriores. Com a segunda pior média de 2011, o clube de Buenos Aires teve de jogar um "playoff" contra o Belgrano, vice-líder da Série B.
Para permanecer no topo, precisava vencer pelo menos uma vez (ou obter dois empates) e evitar saldo de gols negativo. No primeiro jogo, no estádio Julio César Villagra, o Gigante de Alberdi, o Belgrano venceu por 2 a 0.
Torcedores do River foram fotografados rezando no Muro das Lamentações, em Israel. Para ilustrar o drama do momento, a imagem foi capa do "Olé", o principal diário esportivo do país, com o trocadilho "Isreal" ("is real" ou "é real", em inglês).
Na volta, no Monumental, o clube da segunda maior torcida da Argentina precisava ganhar por dois gols de diferença. Em um clima de pressão sufocante, o árbitro Sergio Pezzotta teve o vestiário invadido no intervalo por "barras bravas" e ameaçado de morte caso não marcasse um pênalti para os donos da casa.
Pezzotta deu o pênalti, desperdiçado por Pavone. "Nunca mais vi de novo essa partida", confessaria o juiz anos depois. O jogo terminou empatado por 1 a 1.
Terminar é exagero. Não terminou. As organizadas começaram a atirar bombas e objetos no gramado a dois minutos do fim. A guerra se transferiu para as ruas próximas, com a polícia esgotando seu estoque de gás de pimenta e usando os cassetetes e balas de borracha. Vidros de residências foram quebrados; carros estacionados, incendiados. Um torcedor tentou suicídio.
"E quem não salta", passou a cantar a torcida do Boca, pulando, "vai para a B". O chiste passou a ser entoado a cada confronto com o rival, definido no termo "superclássico".
Os canhões foram apontados contra o antigo presidente José Maria Aguilar, que comandou o River entre 2001 e 2009, considerada a época mais desastrosa da história do clube, responsável pela crise que resultou, dois anos depois, no descenso.
"Nunca mais poderá andar livremente pelas ruas da República Argentina!", disse, aos berros, enquanto o Monumental ardia, Atilio Costa Fiebre, "relator partidário", narrador 100% identificado com o clube cujos jogos transmite. A moda seria anos depois largamente imitada pelas rádios brasileiras.
O técnico do Belgrano em 2011 era Ricardo Zielinski. O técnico do Belgrano em 2026 é Ricardo Zielinski. O goleiro há 15 anos, que depois zombaria da torcida do River a cada visita ao Monumental, era Juan Carlos Olave, hoje auxiliar técnico.
A revelação do clube cordobês naquela tarde de junho de 2011 era o meia "Mudo" Franco Vázquez, hoje volante e líder do elenco aos 37 anos.
A final de 2026 é em jogo único pelo sistema de disputa do Argentino, um campeonato inchado com 30 equipes, ferramenta política do presidente da AFA, Claudio "Chiqui" Tápia, para se manter no poder. Dezesseis se classificaram para as oitavas de final, com as fases eliminatórias sempre em uma partida na casa de quem fez a melhor campanha. A exceção é a final, com local decidido por antecipação para ser em campo neutro.
Neste ano será em Córdoba, cidade do Belgrano, que surpreendeu e chegou à decisão. As lembranças de 2011 apagaram até o fato de que os dois times estiveram à beira da eliminação nas fases anteriores mas se superaram.
Nas oitavas de final, o River estava atrás até os acréscimos, mas empatou com o San Lorenzo e passou nos pênaltis depois de o adversário ter perdido duas cobranças. Se convertesse apenas uma, estaria classificado.
Em situação parecida, o Belgrano empatou com o Argentinos Juniors na semifinal no último lance da partida e viu o rival desperdiçar o arremate na disputa de pênaltis que lhe daria a vaga na decisão.
A discussão sobre o rebaixamento deixa também para trás o fato de que, a partir do retorno à elite, o River Plate iniciou o melhor período de sua história. São 19 títulos nesses 15 anos, sendo sete deles internacionais. Foram duas Libertadores, uma delas, em 2018, contra o Boca Juniors.
Mas a torcida arquirrival, apesar disso, continuou pelos anos seguintes a lembrar que o empate com o Belgrano é "a mancha que não se apaga".
