SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Imagine o Juventus, tradicional clube do bairro da Mooca, em São Paulo, em uma final continental enquanto os principais times da capital paulista vivem uma temporada ruim. Isso é o que está acontecendo na Espanha: o Rayo Vallecano joga, nesta quarta-feira (27), a decisão da Liga Conferência contra o Crystal Palace (ING), às 16h (de Brasília), na Alemanha.
FINAL MELHOR DO QUE OS RIVAIS
O Rayo Vallecano é do bairro de Vallecas, um dos mais pobres de Madri. Muito mais modesto e com menos fama do que os gigantes Real Madrid e Atlético de Madri, o time vai fechar a temporada disputando sua primeira final continental na história, já os rivais caíram na Champions e viram o Barcelona conquistar o Campeonato Espanhol.
A chance de ficar no "topo" da Europa vem na volta do Rayo às competições continentais após 25 anos. Em sua 1ª participação na Liga Conferência, o clube fez a 5ª melhor campanha na primeira fase e passou por Samsunspor (TUR), AEK Atenas (GRE) e Strasbourg (FRA) no mata-mata para chegar à decisão.
É incrivelmente emocionante. Seja qual for o resultado, a história já foi feita. Os torcedores sentem que este é o jogo de suas vidas, uma recompensa por todo sofrimento que suportaram ao longo dos anos. Sergio Gallardo, torcedor espanhol do Rayo e que morou no Brasil, ao UOL
Muito além só de Madri, o Rayo é o único time espanhol que pode ser campeão continental na temporada. A final da Champions tem um inglês (Arsenal) e um francês (PSG), enquanto o Aston Villa (Inglaterra) foi campeão da Liga Europa.
O elenco não tem nenhuma grande estrela, mas conta com alguns ídolos recentes do Rayo. Estão entre eles o meia Isi Palazón e o atacante Álvaro García, artilheiro do time na temporada (12 gols).
O Rayo também tem o seu brasileiro ?e que já é importante nesta jornada rumo ao título. O atacante Alemão, ex-Internacional, foi contratado nesta temporada e chegou do Pachuca, do México. São oito gols, sendo dois deles nas vitórias por 1 a 0 sobre o Strasbourg, nos dois jogos da semifinal da Liga Conferência.
Até mesmo para Alemão, o Rayo estar em uma final europeia permite uma comparação com o futebol brasileiro no cenário sul-americano.
O Vitória é um time tradicional no Brasil, sempre está na primeira divisão... É como se ele classificasse para a Sul-Americana e chegasse à final. É um time que briga no meio da tabela e chega à final com jogadores que não ganham o mesmo que outros jogadores de equipes do Brasil. A torcida é bem aguerrida. O Rayo tem uma torcida muito apaixonada também. Alemão, à ESPN
UM CLUBE 'POLÍTICO' E MODESTO
Fundado em 29 de maio de 1924, o Rayo se mantém apegado às raízes históricas de Vallecas. Historicamente um local de residência de operários e de imigrantes, o bairro um dia já foi cidade, mas foi incorporado a Madri durante o regime ditatorial de Francisco Franco, em 1950. A população local ?e torcida do Rayo? até nesta quarta-feira (27) se manifesta em prol de movimentos sociais, pautas raciais, de gênero e antifascistas.
Uma das grandes vozes do Rayo são os ultras Bukaneros. Entre os lemas da torcida estão: "Ame o Rayo, odeie o racismo" e "Pequeno no esporte, grande nos valores". Ainda fora de campo, o clube de Vallecas foi o primeiro da Espanha a ter uma mulher como presidente: Teresa Rivero foi eleita em 1994.
A casa do Rayo também é bem modesta. O Nuevo Estádio de Vallecas tem capacidade para cerca de 15 mil torcedores, mas costuma estar sempre cheio.
Esportivamente, o Rayo não tem grandes feitos no futebol masculino. Na década de 70, ficou conhecido como "mata-gigantes" por conseguir vitórias contra Barcelona, Atlético de Madri e Real Madrid. No mais, seu maior título foi o da segunda divisão espanhola na temporada 2017/18.
Os maiores feitos do clube vieram no futebol feminino. O clube foi tricampeão do Espanhol em 2009, 2010 e 2011 e chegou a contratar a brasileira Milene Domingues no começo dos anos 2000.
A final desta quarta-feira é vista como o "jogo mais importante da história" do Rayo Vallecano. Não só pelo impacto esportivo, mas também por todo o contexto que envolve o clube, desde o posicionamento da torcida até as constantes desavenças com a diretoria.
[O título seria] Um prêmio pela luta constante e um sonho realizado já que este lugar não nos pertence de verdade. Sergio Gallardo, torcedor do Rayo
