SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Mohamed é o nome mais comum da Copa do Mundo de 2026. A curiosidade é normal, já que esse é o Mundial da Fifa com o maior número de nações árabes da história. O irônico é que essa marcante presença árabe - e, portanto, muçulmana, já que a religião é majoritária entre essas populações - se dará em um país onde a islamofobia e o preconceito antiárabe têm peso histórico e crescem expressivamente há mais de duas décadas: os Estados Unidos, que receberá 75% das partidas, incluindo a final.
Ao todo, segundo levantamento da reportagem, serão 52 Mohameds e suas variações de grafia em campo, presentes em sua maioria nas oito seleções árabes: Egito, Iraque, Arábia Saudita, Jordânia, Marrocos, Argélia, Tunísia e Qatar. Ainda há representantes do Irã, atualmente em guerra com os EUA, na lista. Embora não sejam árabes, os iranianos são majoritariamente muçulmanos, como os oito países citados.
"Desde o 11 de setembro, parte da opinião pública, da mídia e do aparato de segurança norte-americano passou a associar, muitas vezes de forma indevida, identidades muçulmanas, árabes ou do Oriente Médio a riscos de segurança. Esse enquadramento não desapareceu. Ele se reativa em momentos de crise, especialmente quando há guerra, terrorismo, conflito no Oriente Médio ou tensões envolvendo o Irã", afirma Alexandre Coelho, doutor em Relações Internacionais pela USP.
Isso aumenta a sensibilidade em torno de delegações, torcedores, jornalistas e comunidades do mundo islâmico ou de países árabes, prossegue o professor: embora seja um evento esportivo, a Copa será atravessada por temas como segurança, controle de fronteiras, vistos, policiamento, atos políticos e proteção dos atletas.
"A contradição é real: a Copa apresentará uma diversidade muçulmana e árabe visível, em um momento no qual essa diversidade pode ser alvo de preconceito, vigilância ou instrumentalização política. A pergunta é se as instituições anfitriãs, a mídia e o público serão capazes de tratar esses jogadores como atletas e cidadãos globais, não como símbolos de guerra", afirma Coelho.
PRECONCEITO REMONTA DE DÉCADAS, E CRESCE DESDE 2001
O preconceito nos Estados Unidos, citado pelos professores, se apresenta nas estatísticas. Um estudo da Universidade de Berkeley, em 2021, ouviu muçulmanos residentes nos EUA e apontou que quase todos dizem que há islamofobia no país (97,8%). E, para quase dois terços (60,6%), trata-se de um problema muito grande.
Do total de entrevistados, 67,5% afirmaram já ter vivenciado islamofobia em algum momento e, entre esses, 76% disseram ter passado por isso nos 12 meses anteriores à pesquisa. Além disso, 62,7% responderam que eles próprios, familiares, amigos ou membros de sua comunidade foram afetados por políticas que discriminam desproporcionalmente muçulmanos. Mais da metade (53,3%) disseram ter sido tratados injustamente por um policial devido à sua identidade religiosa.
Há, por fim, um problema de subnotificação, segundo a pesquisa: 87,5% dos entrevistados que relataram ser vítimas de algum tipo de discriminação não denunciaram.
A professora e antropóloga Francirosy Campos, do Departamento de Psicologia da FFCLRP/USP, explica que o preconceito contra árabes e muçulmanos tem raízes anteriores ao 11 de setembro, "ligadas a estereótipos construídos ao longo de décadas de conflitos envolvendo o Oriente Médio", mas o atentado em 2001 marcou um forte agravamento da islamofobia no país.
"Após os ataques, muitos passaram a associar injustamente a religião islâmica e as populações árabes ao terrorismo, resultando em aumento de discriminação, crimes de ódio e desconfiança social", explica a professora, que cita o recente ataque a uma mesquita em San Diego, que resultou em cinco mortes, e completa: "A islamofobia permanece um desafio relevante na sociedade norte-americana, mesmo em um contexto de crescente pluralidade cultural."
Outro estudo, da Brigham Young University (BYU), também de 2021, apontou que, de 2006 a 2015, ataques terroristas cometidos por pessoas que se identificam como muçulmanas representarem apenas 12,5% de todos os eventos do tipo no país, mas receberam 357% mais atenção da mídia do que os cometidos por outros grupos.
"Apesar de os EUA serem uma sociedade marcada pela diversidade cultural, organizações apontam que ainda há casos de discriminação e hostilidade contra essas comunidades, especialmente em contextos de tensão internacional. Embora os muçulmanos representem cerca de 1% da população dos EUA, pesquisas mostram que estão entre os grupos que mais relatam episódios de discriminação religiosa", afirma Campos.
O NOME MAIS FREQUENTE NA COPA
O levantamento feito pela reportagem considera todas as variações dos nomes listados. No caso de Mohamed, nome de origem árabe que significa "louvado", entram na conta também Mohammed, Mohammad, Mohanad e Muhammed, totalizando 52 atletas. Em segundo lugar estão Ahmed e Nicolas -e suas respectivas variações-, com 21 jogadores para ambos os casos. Michael (20), Ali (19), Andrés (18), David (18), José (17), Alexander (16) e Ibrahim (14) completam a lista.
Alexandre Coelho ressalta a importância de se separar categorias comumente confundidas nesse debate: muçulmano, árabe e iraniano. "Nem todo muçulmano é árabe; nem todo árabe é muçulmano; e o Irã, embora seja um país majoritariamente muçulmano, não é um país árabe", afirma.
O dado de que Mohamed será o nome mais comum é simbolicamente muito forte, mas precisa ser interpretado com cuidado, comenta Coelho. Não se trata apenas de uma curiosidade estatística, diz ele, mas a expressão de uma transformação mais ampla do futebol e da própria sociedade internacional: "Deve ser um lembrete de que o futebol é mais plural do que os estereótipos permitem enxergar."
"O risco não está nos jogadores chamados Mohamad, mas na possibilidade de setores políticos, midiáticos ou de segurança converterem identidades culturais em categorias de suspeição. No contexto de guerra, cresce a chance de discursos que confundem nacionalidade, religião, origem étnica e ameaça, o que pode alimentar discriminação contra torcedores árabes, muçulmanos, iranianos, palestinos ou mesmo pessoas apenas percebidas como pertencentes a esses grupos", diz Alexandre Coelho.
COPA COM CARÁTER DIPLOMÁTICO: OPORTUNIDADE PARA SER EXEMPLO
Os especialistas ouvidos pelo UOL veem na Copa de 2026 a chance para a realização de um megaevento sem conflitos ou grandes ocorrências envolvendo preconceito entre povos.
"A Copa representa uma oportunidade singular para promover o diálogo intercultural, o respeito à diversidade e a aproximação entre povos. O esporte, nesse sentido, pode desempenhar um papel fundamental como ferramenta de convivência e construção de pontes em um mundo cada vez mais polarizado", pondera Ricardo Ricci Uvinha, professor titular da USP e especialista em turismo esportivo.
A presença de países diretamente envolvidos em guerra, segundo Alexandre Coelho, confere à Copa um peso diplomático, tornando a competição uma "vitrine global".
Em relação ao caráter diplomático do poder executivo dos Estados Unidos, o que se viu recentemente é a abertura do presidente Donald Trump à participação iraniana na Copa, ao menos nos posicionamentos públicos.
Na prática, porém, o processo de permissão à entrada dos atletas do Irã não tem avançado rapidamente: eles obtiveram os vistos na quarta-feira (3), mas ainda aguardam autorização para irem aos EUA.
"Os EUA precisarão demonstrar capacidade de organizar um megaevento seguro sem reforçar práticas discriminatórias. Para a Fifa, o desafio será preservar a ideia de universalidade do futebol em um cenário de guerra, polarização e suspeita", afirma Coelho.
"A islamofobia continua sendo um desafio na sociedade norte-americana. Nesse contexto, a presença expressiva de atletas e torcedores muçulmanos durante a Copa do Mundo reforça a importância de promover um ambiente de respeito à diversidade cultural e religiosa", diz a antropóloga.