RIO DE JANEIRO, RJ, E MIAMI, EUA (UOL/FOLHAPRESS) - Clubes da Série B filiados à Futebol Forte União (FFU) tiveram um fim de semana de cobranças e questionamentos direcionados à empresa investidora do bloco, a Sports Media Entertainment (SME). O movimento abala as estruturas do vínculo entre a companhia e os clubes que compõem a liga.

A novela ganha corpo diante dos movimentos da CBF de tentar fazer uma liga única entre os 40 clubes das Séries A e B.

A mobilização dos dirigentes, registrada em e-mails aos quais a reportagem teve acesso, ganhou tração nos últimos dias a partir de uma medida preventiva tomada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

O órgão entendeu que o acordo entre clubes e investidor tem elementos que ferem regras de concorrência e que devem ser modificados para não impedir a saída deles. Isso levou Corinthians, Cruzeiro, Botafogo e Goiás a enviar notificações extrajudiciais ameaçando sair do grupo.

O debate entre clubes e SME envolve justamente o mecanismo de saída da FFU, a recompra do percentual dos direitos negociados com a investidora e quão leoninas são as cláusulas que ligam clubes à empresa por até 50 anos.

Os cartolas discutem entre si a marcação de assembleia sem a presença da SME e da Live Mode -intermediária da venda dos direitos de transmissão- para definir os próximos passos.

Mas de antemão, Atletico-GO, Cuiabá e Vila Nova enviaram à SME um parecer jurídico que tem como recomendações, em nome de uma adequação à decisão mais recente do Cade, acabar com a cláusula de exclusividade de 50 anos do investidor da FFU e o fim de outra cláusula, que trata da absorção desse mesmo dispositivo de 50 anos, caso os clubes da FFU organizem e entrem em uma nova liga.

Desde que a medida do Cade veio à tona, a SME já teve que lidar com ofícios de alguns clubes.

O Operário-PR informou que vai sair do bloco, apontando até que há conflito de interesses na negociação de transmissão da FFU, algo que envolve a LiveMode e a CazéTV.

Outros clubes, como Goiás, Cruzeiro e Botafogo, disseram que têm a intenção de sair, se mudanças contratuais na relação entre clubes e investidor não acontecerem. O Corinthians não faz parte do condomínio, mas informou o interesse de não renovar o contrato de direitos de TV do Brasileirão.

Na sexta-feira, o CEO da Sports Media, Bruno Pimenta, enviou aos clubes uma nota de esclarecimento após a publicação da medida do Cade.

O executivo se disse surpreendido pelo despacho decisório, alegando que não tinha sido notificado oficialmente. De todo modo, disse aos clubes que a equipe jurídica estava em contato com conselheiros da autarquia.

Segundo Bruno, os próprios conselheiros "foram pegos de surpresa pela decisão, mas acreditamos que muito em breve a decisão será revista".

O presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, então, respondeu com o parecer jurídico sobre o assunto e não parou por aí.

"Acho que é o momento de parar de tapar o sol com a peneira", iniciou Cristiano. Na visão dele, a decisão do Cade pode gerar "vários riscos e custos aos clubes".

O cartola afirma que os dirigentes já tinham conversado entre si e "ninguém vai apoiar ou defender práticas anticompetitivas ou restritivas".

Com esse gancho, Dresch afirmou a Bruno Pimenta que os dirigentes convocariam uma assembleia para debater oficialmente o tema. Mas ainda não há data confirmada.

"Enquanto você alardeia milhões e bilhões que estão indo para Sports Media e Live Mode, a verdade é que praticamente todos os clubes estão em péssima situação financeira e se sentem presos em contratos que mal tiveram tempo de ler ao assinar", afirmou o dirigente do Cuiabá no e-mail.

Em outra mensagem, Pedro Martins, CEO do Fortaleza, disse que a gestão do clube debateu o assunto. O entendimento é que "as questões levantadas no parecer merecem uma reflexão e um debate conjunto".

O documento defende ainda mudanças nas cláusulas de governança do condomínio da FFU "para que garantam maior autonomia dos clubes sobre seus próprios direitos de transmissão", disse o texto.

O QUE DIZ O INVESTIDOR, EM NOTA

"O e-mail enviado aos clubes refere-se ao exercício legítimo e formal do direito de defesa da Sports Media Entertainment (SME) no processo em curso no Cade, por meio dos canais jurídicos constituídos nos autos.

A decisão a que ele se refere foi preliminar, proferida antes do fim do prazo para apresentação de informações, em processo de natureza meramente preparatória, que sequer comporta medidas preventivas. A SME buscará sua revisão pelos meios próprios, como lhe assegura a lei.

Disso decorre que qualquer menção à interferência indevida junto a conselheiros do Cade é despropositada, até porque não há recurso da SME pendente de julgamento no Plenário, inexistindo, portanto, instância sobre a qual se pudesse sequer cogitar de influência. Registre-se, ainda, que a decisão foi divulgada à imprensa antes mesmo de a SME ser notificada, em processo que tramita sob sigilo.

A SME reafirma seu compromisso com a integridade, com a defesa da concorrência e com o desenvolvimento do futebol brasileiro e permanece à disposição das autoridades competentes para os esclarecimentos necessários".

E A CBF NISSO TUDO?

A reportagem apurou que os clubes procuraram a CBF depois da medida do Cade. A entidade disse aos dirigentes que eles deveriam tratar do assunto diretamente com a SME.

Para a CBF, a batalha é interessante para que ela consiga oficializar a liga única e organizar a venda em bloco dos direitos de transmissão e comerciais do Brasileirão a partir de 2030.