Há histórias de amor que resistem ao tempo, outras atravessam a doença, a dor e a ausência. A de Homero Muniz de Campos e Eden Luiza Miranda de Campos superou tudo isso. Nem a morte dele, em 1996, nem o avanço do Alzheimer que acometeu Eden décadas depois conseguiram apagar uma lembrança que permanece intacta, o amor que viveram.

Contada pela filha Rosália, a história do casal é marcada por companheirismo, cartas apaixonadas, dedicação diária e uma promessa silenciosa que atravessou gerações. Mesmo após perder parte das memórias por causa do Alzheimer, diagnosticado entre 2017 e 2018, Eden jamais esqueceu o marido. Aos 90 anos, já em cuidados paliativos devido a um câncer de fígado, ela continua olhando para a fotografia dele e repetindo "Meu maridão... Esse homem me amou demais".

Um amor que enfrentou preconceitos

Homero e Eden se conheceram na década de 1960, numa época em que relacionamentos como o deles enfrentavam resistência social.

Ele havia saído de um casamento anterior, do qual teve dois filhos. Divorciado, encontrou em Eden uma nova chance para reconstruir a vida, mas a união precisou vencer obstáculos familiares e preconceitos de uma sociedade que ainda via com desconfiança mulheres que se casavam com homens separados.

Nada disso foi suficiente para afastá-los. “Eles eram muito apaixonados um pelo outro”, lembra Rosália.

O namoro foi fortalecido pela distância quando Eden passou em um concurso público e precisou morar em Rosário de Minas. Foi nesse período que nasceram dezenas de cartas de amor trocadas entre os dois, guardadas pela família até hoje.

As cartas que atravessaram quase seis décadas

Uma das correspondências encontradas pela família foi escrita por Homero em 25 de maio de 1968.

A carta começa de forma simples, mas carregada de emoção. “Querida Eden, são 12h20 e neste exato momento estou voltando do meu trabalho”.

Em seguida, ele descreve a ansiedade de encontrar uma carta da amada. “Hoje voltei ansioso e tendo certeza que havia uma carta sua para mim e a dita realmente lá estava”.

A felicidade era tão intensa que ele escreveu. “Tomou conta de meu coração, pois chegavam notícias daquela que tomou conta de todo o meu ser: você”.

Em outra carta, escrita meses depois, em 8 de maio de 1968, Eden demonstra a saudade que sentia durante a separação. “Que saudade enorme! Parece que minha vida está parada”.

Nas linhas seguintes, ele fala sobre o futuro que sonhava construir ao lado da mulher amada. As cartas revelam um relacionamento marcado pela delicadeza e pelo romantismo cotidiano, muito antes das mensagens instantâneas e das redes sociais.

FOTO: Arquivo Pessoal - Carta de amor escrita por Eden para Homero

FOTO: Arquivo Pessoal - Carta de amor escrita por Homero para Eden

“Nunca vi meus pais brigarem”

Depois do casamento vieram os filhos: Rosália, Edemir, Edmar e Rosana. A família cresceu cercada por demonstrações de afeto.

Rosália conta que nunca presenciou uma discussão entre os pais. “Eu nunca vi meus pais brigarem. Nunca vi os dois discutirem por nada”.

O carinho aparecia nos pequenos gestos. Homero levava café na cama para Eden todos os dias. Ela o chamava de “filho”. Ele a chamava de “filha”.

“Era um amor de cuidado”, resume a filha.

O AVC que mudou tudo

A vida do casal sofreu uma reviravolta quando Homero sofreu um AVC aos 58 anos. O derrame deixou sequelas graves. Ele perdeu a fala e teve a mobilidade bastante comprometida, mas se a doença transformou a rotina da família, também revelou uma das maiores provas de amor dessa história.

Durante nove anos, Eden assumiu integralmente os cuidados do marido. Ela o ajudava no banho, fazia sua barba, cuidava da aparência e fazia questão de mantê-lo sempre bem vestido.

“Ela dizia que ele precisava estar bonito”, lembra Rosália.

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Mesmo diante das limitações, Eden encontrava formas de preservar momentos especiais. Às vezes, levava Homero para passear pela cidade. Pegava um táxi, descia ao Centro de Juiz de Fora, andava de ônibus e retornava para casa. Era o mesmo roteiro dos tempos de namoro.

“Ela enfrentava todas as dificuldades para manter ele ativo. Fazia isso por amor”, conta a filha.

Nove anos de dedicação sem reclamações

Durante todo o período da doença, Rosália nunca ouviu a mãe reclamar. Não havia queixas, cobranças ou sinais de obrigação. “O cuidado dela não vinha do dever. Vinha do amor”.

Homero faleceu em 1996, aos 66 anos. A despedida foi devastadora.

Eden entrou em um período de profunda tristeza e chegou a enfrentar episódios de depressão. Com o tempo, a família incentivou viagens e passeios para ajudá-la a seguir em frente, mas havia uma coisa que ela nunca cogitou.

Encontrar outro amor. “Nunca vou encontrar alguém que me ame como ele”

Os filhos costumavam brincar com a mãe, sugerindo que ela arranjasse um novo companheiro. A resposta era sempre a mesma. “Eu nunca mais vou encontrar um homem que me ame como o meu marido me amou”.

E assim foi. Eden não teve outro relacionamento. Durante quase três décadas de viuvez, mantém viva a memória do homem com quem construiu sua história.

O Alzheimer levou memórias, mas não levou Homero

Anos depois veio outro desafio. O diagnóstico de Alzheimer. A doença começou, pouco a pouco, a apagar lembranças, confundir datas e esconder momentos importantes da vida, mas havia uma memória que permanecia intacta.

Homero.

“Ela esquece muitas coisas, mas dele nunca”, conta Rosália.

Na casa da família, um porta-retrato com a foto do marido tornou-se companhia diária. Frequentemente, Eden para diante da imagem para admirar o homem que amou. “Meu maridão. Olha como ele era bonito”.

FOTO: Arquivo Pessoal - Homero e Eden

E completa. “Esse homem cuidou muito de mim”.

Nos últimos meses de vida, já bastante debilitada pelo câncer de fígado e pelos efeitos do Alzheimer, Eden fala frequentemente sobre a possibilidade da partida, mas não demonstra medo.

Segundo a filha, ela diz. “Se for para encontrar meu maridão, eu estou pronta”.

Para Rosália, a permanência dessa lembrança é uma das provas mais bonitas da força do amor vivido pelos pais.

“O Alzheimer roubou muitas memórias da minha mãe, mas não conseguiu roubar essa. O amor deles contina vivo”.

Um legado que atravessa gerações

Da união de Homero e Eden nasceram quatro filhos: Rosália, Edemir, Edmar e Rosana.

A família cresceu e hoje inclui oito netos: Guilherme, Olívia, Luiza, Matheus, Letícia, Alice, Bia e Ana, e quatro bisnetos: Romeu, Bento, Lucca e Filippo.

Para todos eles, a história do casal é uma herança afetiva. Uma história iniciada em cartas escritas à mão na década de 1960, que sobreviveu ao preconceito, à doença, ao tempo e à morte.

Uma história que, mesmo diante do Alzheimer, jamais foi esquecida. Porque algumas memórias desaparecem, mas o grande amor permanece para sempre.

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Arquivo Pessoal - Homero e Eden no dia do casamento deles

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