SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ainda é cedo demais para avaliar quais foram os alvos específicos, número de vítimas e os bastidores da ação que causou o bombardeio de Caracas e outros pontos da Venezuela na última madrugada.
Um aspecto que deve ser levado em conta agora, supondo que seja certo ser Maduro uma carta fora do baralho, é saber quem assume. Qual é o futuro político imediato da Venezuela?
Duas respostas surgem como as mais óbvias. A Venezuela, apesar de ser uma ditadura, tem uma Constituição, que diz o seguinte sobre a sucessão em seu artigo 233: "A falta absoluta do presidente obriga a Assembleia Nacional a convocar uma eleição dentro dos próximos 30 dias consecutivos; enquanto isso se realiza, exerce o cargo o vice-presidente".
A vice-presidente da Venezuela chama-se Delcy Rodríguez, figura-chave das frentes do chavismo desde o seu início. Ela e seu irmão, Jorge, são conhecidos por serem as pessoas mais poderosas do regime, apesar de a figura espalhafatosa de Diosdado Cabello estar sempre diante dos holofotes e exercer grande poder econômico no país.
Jorge Rodriguez foi vice de Chávez e desde então ocupou vários cargos. Hoje é o líder da Assembleia Nacional, totalmente controlada pelo chavismo. Portanto, se não for preso ou defenestrado nessa ação, será o responsável por marcar as novas eleições ?segundo a Carta Magna do país, aprovada em 1999 no governo Chávez.
Delcy também ocupou vários cargos e é tida como uma chavista das mais comprometidas. O vínculo ideológico de Jorge e Delcy com o regime está selado pelo fato de ambos serem filhos de Jorge Antonio Rodríguez, um guerrilheiro de esquerda sequestrado e morto em 1976, durante a presidência autoritária de Carlos Andrés Pérez (1974-1979 e 1989-1993).
Ou seja, neste primeiro momento, é preciso saber se, descartado Maduro (fora do país, preso, extraditado, exilado, morto, o que for), o que será da força, por exemplo, desses dois irmãos e de outras figuras-chave do regime, o já mencionado Cabello e o comandante do Exército, Vladimir Padrino, para ficar nos principais.
A outra alternativa, que seguramente vai ser a preferida da comunidade internacional, agora encabeçada por María Corina Machado, recém-festejada por seu Nobel da Paz, será esta: a Venezuela elegeu um presidente em 2024 e, segundo as atas reunidas pela oposição e pelo reconhecimento tácito de vários países, ele se chama Edmundo González.
Porém, isso ocorreu há mais de um ano. Que legislação valida que um homem que se autoexilou na Espanha por não se conformar com uma derrota eleitoral, em julho de 2024, ainda tenha o direito de se sentar na cadeira presidencial do palácio de Miraflores?
Se aquela eleição foi fraudada, e tudo leva a crer que sim, tampouco há documentos oficiais que o tenham conferido a vitória a Gonzalez. É difícil imaginar que bastaria que ele chegasse a Miraflores, fosse recebido e empossado.
Uma questão que é necessário que se leve em conta é o que a população venezuelana quer neste momento. Quer a volta de Edmundo? Quer que o restante do chavismo dialogue com a oposição? María Corina Machado é peça-chave, mas a base de apoio que ela atingiu em 2024 já se diluiu, há várias lideranças pregando outras propostas. Um Nobel não legitima que ela tome o poder.
Colegas jornalistas venezuelanos e amigos que estão em Caracas nesta manhã de sábado me dizem que as ruas estão calmas. É certo que ainda é muito cedo, muitos foram acordados de madrugada durante os ataques. Sair na rua a protestar, por ora, parece precipitado, além de perigoso. Os caraquenhos, ao que parece, vão preferir ter mais informações ao longo do dia para sair às ruas.
A oposição precisa de um líder que esteja dentro do país. Alguém que faça frente para que o chavismo não cumpra a lei, ou seja, que Jorge Rodríguez apareça convocando mais uma eleição que será, sem muita dúvida, levando-se em conta o histórico recente, fraudada, forjada como as anteriores.
Se eu fosse Maria Corina, voltava agora, de barco, do modo como saiu.
Desde a defenestração de Juan Guaidó, o chavismo construiu algo que os venezuelanos consideram "uma oposição fake". Ou seja, chavistas que têm um "discurso crítico" ao regime. Na Assembleia Nacional hoje, para onde temos de colocar os olhos, as maiorias são formadas não por chavistas apenas, mas chavistas aliados a essa oposição "fake". Que nada mais são que chavistas "disfarçados", nascidos para seguir driblando a opinião da comunidade internacional. Para o chavismo, oferecer um "fake" para ocupar o poder seria estratégia válida.
O que vem depois desse bombardeio é uma novela política sem muitos precedentes. Extirpar Maduro está longe de resolver um problema, o da conciliação da Venezuela em nome de pelo menos alguns pontos em comum para encontrar uma saída política e legal para essa crise.