Um dos principais jornais dos Estados Unidos (EUA) o New York Times (NYT) publicou neste sábado (3) um editorial criticando as ações do governo de Donald Trump e chamando de ilegal o ataque à Venezuela. Para o jornal, o país sul-americano foi o primeiro alvo da nova doutrina de segurança da Casa Branca para América Latina.
Aparentemente, a Venezuela tornou-se o primeiro país sujeito a esse imperialismo moderno, o que representa uma abordagem perigosa e ilegal para o papel dos EUA no mundo, diz o texto assinado pelo Conselho Editorial do jornal nova iorquino.
O imperialismo é o conceito usado quando um país central se vale de seu maior poderio econômico, político e militar para subordinar países periféricos de acordo com seus próprios interesses, explicou o sociólogo Raphael Seabra, professor da Universidade de Brasília (UnB).
Em coletiva neste sábado, Trump disse que vai governar a Venezuela até uma transição segura de governo, além de admitir que as petroleiras dos EUA vão explorar os recursos energéticos da Venezuela, que é a nação com a maior reserva de petróleo comprovada do planeta.
O NYT rejeitou o argumento do presidente norte-americano de que Maduro seria líder de um cartel de drogas. A alegação é particularmente ridícula neste caso, visto que a Venezuela não é uma produtora significativa de fentanil ou das outras drogas, disse o periódico.
O jornal acrescentou que, ao mesmo tempo em que atacava barcos venezuelanos, Trump concedia indulto a Juan Orlando Hernández, que comandava uma vasta operação de narcotráfico quando era presidente de Honduras, de 2014 a 2022. O indulto a Hernández ocorreu no contexto das eleições hondurenhas, em que Trump apoiou o candidato do partido do ex-presidente condenado.
Seu governo justificou os ataques às pequenas embarcações alegando que elas representam uma ameaça imediata aos Estados Unidos. Mas uma ampla gama de especialistas jurídicos e militares rejeita essa alegação, completou o jornal.
Dominar a América Latina
Ainda segundo o New York Times, a explicação mais plausível para ação de Trump na Venezuela pode ser encontrada na Estratégia de Segurança Nacional recentemente divulgada pela Casa Branca. Nela, o governo reivindica o direito de dominar a América Latina, diz o texto.
No início de dezembro, o governo Trump publicou as diretrizes da política externa da Casa Branca reafirmando a proeminência dos EUA na América Latina, o que foi lido como um recado à China.
Legitimidade internacional
O editorial do NYT afirma ainda que a ação de Trump, sem qualquer aparência de legitimidade internacional, corre o risco de fornecer justificativa para outros governos, como China e Rússia, dominarem seus próprios vizinhos.
O jornal nova iorquino avalia que Trump está empurrando os EUA para uma crise internacional e lembrou que o presidente precisaria pedir autorização ao Congresso para essa ação. Sem a aprovação do Congresso, suas ações violam a lei dos EUA, disse o NYT.
Em entrevista neste sábado, Trump argumentou que não precisaria de autorização do Congresso porque a ação resultou apenas na prisão de duas pessoas, não foi uma invasão "tradicional".
Se há uma lição fundamental a ser aprendida com a política externa americana no último século, é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar ainda mais a situação, argumentou o jornal estadunidense.
O NYT lembrou que o país passou 20 anos sem conseguir estabelecer um governo estável no Afeganistão e que, ao derrubar o governo de Muamar Kadafi, na Líbia, criou um Estado fragmentado no norte da África.
As trágicas consequências da guerra de 2003 no Iraque continuam a afetar os Estados Unidos e o Oriente Médio. Ele ameaça replicar a arrogância americana que levou à invasão do Iraque em 2003, completou o editorial.
Ainda segundo o jornal, é grande o potencial para o caos na Venezuela.
Apesar da captura de Maduro, os generais que apoiaram seu regime não desaparecerão repentinamente. Tememos que o resultado do aventureirismo do Sr. Trump seja o aumento do sofrimento dos venezuelanos, o crescimento da instabilidade regional e danos duradouros aos interesses dos Estados Unidos em todo o mundo, finaliza o jornal.
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