SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Única grande produtora de petróleo americana que ainda atua na Venezuela, a Chevron poderá ganhar protagonismo no futuro próximo da indústria no país, após o ataque do governo de Donald Trump ao país neste sábado (3), a depender dos próximos desdobramentos políticos.

Em suas primeiras declarações depois da captura do ditador Nicolás Maduro, Trump disse que o petróleo venezuelano será explorado por empresas americanas e "voltará a fluir" com petroleiras dos EUA à frente das operações e da infraestrutura do país.

A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, mas os principais investidores globais se afastaram ao longo dos anos, o que daria hoje uma oportunidade à Chevron, segundo a expectativa de analistas do setor.

A companhia resistiu a turbulências históricas em uma trajetória centenária na Venezuela, que começou com atividades de exploração em 1923 e a descoberta do campo de Boscan em 1946. O papel da Chevron na economia da Venezuela se consolidou em uma aposta feita há cerca de duas décadas, quando Hugo Chávez, então presidente, iniciou uma campanha para nacionalizar ativos de petróleo de propriedade estrangeira.

Outros concorrentes como a ExxonMobil e a ConocoPhillips deixaram o país. Mas a Chevron tinha um executivo, Ali Moshiri, nascido no Irã, que desenvolvera um bom relacionamento com Chávez na época. A empresa insistiu em uma visão de longo prazo de que deveria resistir às turbulências para permanecer em um país que abriga uma das maiores reservas de petróleo bruto do mundo.

Apesar das sanções americanas contra o setor petrolífero venezuelano, a Chevron seguiu operando com anuência de Washington --medida adotada pelo governo Joe Biden com o objetivo de reduzir o preço de gasolina nos EUA e mantida pelo governo Trump depois de uma série de revezes com o cancelamento da licença da empresa para produzir e exportar o produto.

Adriano Pires, especialista no setor de energia, sócio-fundador do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura) avalia que a Chevron não é a única que deverá se beneficiar desse momento histórico.

"É importante para todas as empresas privadas americanas e até as não americanas. Fala-se muito da Chevron porque, mesmo no governo Maduro, ela conseguiu celebrar alguns contratos para explorar determinados campos de petróleo na Venezuela. Então, em tese, ela estaria avançada por já estar lá dentro", diz Pires.

Outra vantagem, segundo o especialista, seria o fato de a companhia ser hoje um grande investidor nas proximidades, com negócios na Guiana, junto com a ExxonMobil.

"Com essa mudança que aparentemente estamos vendo com a prisão de Maduro e com Trump falando que as empresas americanas vão voltar a investir na Venezuela, acho que o país pode se tornar o que é hoje a Guiana, em que as duas grandes investidoras são Chevron e ExxonMobil. Faz sentido que essas duas empresas sejam grandes beneficiárias dessa nova Venezuela", afirma Pires.

Com uma produção estimada em 1 milhão de barris por dia de produção de petróleo da Venezuela --sendo aproximadamente um terço pela Chevron-- o volume é considerado abaixo de seu potencial por falta de investimentos, equipamentos velhos e mão de obra desqualificada, já que os melhores técnicos da estatal PDVSA saíram do país.

A estimativa é que a produção cresceria rapidamente, a depender dos desdobramentos e da estabilidade política.

"Acho que a principal ideia de Trump é abrir esse mercado para as empresas americanas. O mercado da Guiana ainda é pequeno e ainda tem que furar. A Venezuela já está lá. Pode crescer a produção da noite para o dia", diz o especialista, que prevê um aumento no preço das ações das empresas de petróleo americanas em geral.