SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após Donald Trump dizer que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela e seus recursos "de forma segura, sólida e eficaz", o The American Petroleum Institute (Instituto Americano do Petróleo, em inglês) não demorou a se pronunciar.
A entidade afirmou acompanhar "de perto os acontecimentos, inclusive as potenciais implicações para o mercado global de energia".
O instituto é uma das pontas da ligação histórica da indústria com o Partido Republicano.
Na campanha presidencial de 2024, contribuiu com cerca de US$ 4 milhões (R$ 21,7 milhões) para grupos conservadores, apoiadores de Trump, e candidatos republicanos. Também fez parte do lobby na redação da Lei de Redução de Custos de Energia, para facilitar e acelerar licenciamentos para extração de petróleo e minerais críticos.
Antes da eleição, há dois anos, o atual presidente pediu a executivos de petróleo e gás que arrecadassem US$ 1 bilhão (R$ 5,4 bilhões) para a sua campanha. De acordo com a Yale Climate Connections, ligada à Universidade Yale, as companhias doaram, no total, US$ 220 milhões (R$ 1,2 bilhão).
Após a posse, Trump autorizou perfurações, eliminou regulamentações ambientais, cortou impostos e colocou empresários do setor em postos da administração pública.
Desde os pleitos na década de 1990, mais de dois terços das doações de companhias petrolíferas foram para candidatos republicanos. A partir de 2008, a indústria passou a gastar cerca de US$ 100 milhões (R$ 542 milhões) por ano para tentar influenciar políticas do governo.
Quando Trump chegou ao cargo pela primeira vez, em 2016, atendeu a pedidos do setor para reverter norma que o obrigava a tornar públicos quaisquer pagamentos superiores a US$ 100 mil (R$ 542 mil) a governos do exterior. O secretário de Estado era Rex Tillerson, ex-executivo da ExxonMobil.
No escândalo de Watergate, que derrubou a presidência do republicano Richard Nixon, em 1976, documentos mostraram que petrolíferas falsificaram dados ou utilizaram outras companhias para mandar dinheiro para paraísos fiscais, especialmente Bahamas.
"Nós construímos a indústria de petróleo da Venezuela com talento, perseverança e talento, e o regime socialista nos roubou nas últimas administrações", disse Trump neste sábado (3) após a prisão e sequestro de Nicolás Maduro.
"É um grande negócio [para as empresas americanas]. Há um caminho enorme para investirem e pegarem o dinheiro de volta. Você sabe que ali tem muito petróleo. As maiores reservas do mundo estão lá. É um petróleo de menor qualidade, mas o parque de refino americano se vira bem com isso. Não é por necessidade. Os Estados Unidos são autossuficientes", diz David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da ANP (Agência Nacional de Petróleo) e professor do Instituto de Energia da PUC-RJ.
As conversas a respeito do tema acontecem há algumas semanas, segundo o site Politico. Este publicou que empresas foram consultadas pelo governo dos Estados Unidos sobre o interesse em explorar petróleo na Venezuela.
Trump também corta, na questão geopolítica, parte do fornecimento de petróleo para a China. A estimativa é que 70% das exportações do produto pela Venezuela são para o país asiático rival dos EUA.
O presidente fala em "roubo" porque a indústria de petróleo venezuelana foi nacionalizada na década de 1970, quando as companhias americanas eram responsáveis por mais de 70% da produção. O ditador Hugo Chávez repetiu o processo em 2007. ExxonMobil e ConocoPhillips reclamam bilhões de dólares em compensação.
"Na arbitragem internacional, os Estados Unidos venceram. Mas a Venezuela nunca pagou", completa Zylbersztajn.
O país sul-americano tem reservas estimadas em 300 milhões de barris de petróleo, mas produz menos de 10% disso pela falta de capacidade de investimento, tecnológica e de pessoal. Também possui uma das dez maiores reservas de gás natural do planeta. A estimativa é que são cerca de 200 trilhões de pés cúbicos, 90% encontrados nos poços de petróleo.