BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Um incêndio criminoso em cabos de uma usina termelétrica no sudoeste de Berlim, no sábado (3), deixou sem energia cerca de 50 mil residências e comércios no sudoeste da capital alemã. O ato de sabotagem foi reivindicado por um grupo de extrema esquerda, que, em carta, lamentou os transtornos à população, mas defendeu a ação como "ato de legítima defesa" do planeta.

Autoridades consideraram a mensagem autêntica, e a divisão de terrorismo da polícia assumiu as investigações. "Sabotamos com sucesso a central termoelétrica a gás em Berlim-Lichterfelde na noite passada", diz a carta, que está em posse das forças de segurança desde sábado, mas só veio a público neste domingo.

O ataque, na verdade, destruiu uma dezena de cabos de alta e média voltagem elevados sobre um canal fluvial, derrubando a transmissão de energia da usina para o distrito de Steglitz-Zehlendorf. "O ataque à central termoelétrica a gás é um ato de legítima defesa e solidariedade internacional com todos aqueles que protegem a Terra e a vida."

"É inaceitável que, mais uma vez, extremistas de esquerda estejam atacando nossa rede elétrica e, com isso, colocando vidas em risco", declarou o prefeito de Berlim, o conservador Kai Wagner, neste domingo.

Uma grande operação foi montada na região para garantir suporte aos afetados. Berlim enfrenta um fim de semana gélido, com termômetros marcando 2°C negativos, mas com sensação de -7°C. Além de residências e estabelecimentos como supermercados, restaurantes e lojas, a telefonia móvel também está prejudicada.

A preocupação principal é com pessoas idosas, que moram sozinhas, tônica na Europa. Além de bombeiros, paramédicos e agentes de segurança, o Exército foi mobilizado para montar cozinhas comunitárias nos bairros afetados.

Na manhã deste domingo, cerca de 7.000 casas e uma centena de comércios tiveram a energia restabelecida. Como grande parte da estrutura é aterrada, os trabalhos de recuperação são lentos, e a neve não ajuda.

Segundo a Stromnetz Berlin, empresa reestatizada em 2013, a previsão pessimista é que o apagão só seja completamente sanado na quinta-feira (8).

"Os cortes de energia não eram o objetivo da ação, mas sim a indústria de combustíveis fósseis. Pedimos desculpas às pessoas menos favorecidas do sudoeste de Berlim", diz o grupo na carta, para logo ponderar que a região é mais conhecida pelas residências sofisticadas. "Nossa compaixão pelos muitos proprietários de casas nesses bairros é limitada."

A facção se chama "Vulkangruppe" (grupo de vulcões ou vulcões, em tradução livre), mas há pouca informação oficial sobre seu tamanho e estrutura. Classificado pelos serviços de segurança da Alemanha como "anarquista", o grupo se notabilizou nos últimos anos por ataques a infraestruturas.

Em 2021 e 2024, o Vulkangruppe ganhou as manchetes de sites e jornais ao derrubar o fornecimento de energia para a fábrica da Tesla, localizada em um subúrbio próximo a Berlim. A instalação é alvo frequente de protestos, intensificados no último ano pelo apoio do bilionário Elon Musk à AfD, o partido de extrema direita (outra classificação oficial), em plena ascensão no país.

A facção também reivindica o ataque a um parque tecnológico realizado em setembro do ano passado, em Adlershof. Ocupado por startups e empresas de tecnologia, a instalação sofreu um apagão e prejuízos à sua estrutura de dados. Em geral, as ações do grupo infraestrutura exposta ou parcialmente exposta, como cabos de energia, torres de telefonia e fibra e também veículos.

Na carta deste fim de semana, o Vulkangruppe critica a "ganância por energia", representada pela demanda dos projetos de inteligência artificial, e o comprometimento do planeta devido ao aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis. Para os autores, a ação, apesar dos transtornos provocados, serviu "ao bem-estar público".

"A extensão da devastação [provocada pelo aquecimento global] é simplesmente ignorada, abstraída e discutida em conferências climáticas até que a escala da destruição desapareça em meio a tabelas e declarações de intenções", argumenta o grupo, que considera a transição energética uma farsa.