PACARAIMA, RR (FOLHAPRESS) - A fronteira do Brasil com a Venezuela, em Pacaraima (RR), amanheceu aberta e tranquila neste domingo (4). O trânsito de veículos e pessoas não difere de um fim de semana qualquer e mantém fluxo semelhante ao do sábado (3), quando a fronteira chegou a ser fechada após o ataque dos Estados Unidos a Caracas e acaptura do ditador Nicolás Maduro.

A reportagem conversou com ao menos oito venezuelanos que faziam o caminho de ida e volta na fronteira. Com sorriso no rosto e comemorando a queda de Maduro ou apreensivos, todos levantam os ombros ao serem questionados sobre o que vem pela frente para a Venezuela.

Foi-se Maduro e se foi o petróleo, é tudo que sei, afirmou em espanhol uma senhora que não informou o nome, sob risadas da família venezuelana que passava ao lado e retornava a Santa Elena de Uairén, a cidade fronteiriça do país vizinho, após fazer compras diárias, como pães e outros alimentos.

Neste domingo (4), sozinhos ou em família, sem nada nas mãos ou cheios de sacolas, os venezuelanos fazendo o trajeto na fronteira compõem um fluxo majoritariamente de pessoas que circulam entre os dois países para compras e trabalho, como é comum em cidades fronteiriças.

"Em Santa Elena está muito tranquilo, não mudou nada. O que acontece lá [em Caracas, a 1.250 km, e no resto do país] não afeta aqui", afirma Richard, 45, que se dirigia a pé à Venezuela.

A percepção foi corroborada por todos os venezuelanos, e até brasileiros, que iam ou voltavam. Alguns com crianças de colo, outros com compras pesadas, preferiam não parar para falar detidamente com a reportagem debaixo do sol forte.

"Compramos de tudo aqui, principalmente a carne, é melhor. Às vezes também levamos combustível, que agora está muito caro na Venezuela, e também acaba muito rápido em Santa Elena", afirma Kerlis, que preferiu dar apenas seu primeiro nome.

Sobre a queda de Maduro, ela é menos esperançosa que outros compatriotas. "Outros estão felizes. Nós, que vivemos e sofremos, na Venezuela, não estamos tão felizes porque não sabemos o que vai acontecer. Tem gente que fica feliz sem saber a situação por lá", diz ela, que chegava a Pacaraima para compras.

Segundo relatos de taxistas, militares, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e venezuelanos no lado brasileiro da fronteira, o fluxo não difere de outros dias de passagens abertas.

O que mudou, segundo Anthony Queiroz, 22, é a fiscalização, embora militares no marco da divisa afirmem que ela está ocorrendo de forma rotineira. Todos os veículos cruzando o marco divisório entre as duas aduanas é parado, e o porta-malas, aberto para conferência dos militares brasileiros e da PRF.

"Parar todos os carros é muito raro, não é comum", diz Queiroz, que trabalha para uma das cooperativas de táxi intermunicipal na rota frequente entre Santa Elena e cidades roraimenses.

A fronteira do Brasil com a Venezuela é porosa. Do lado esquerdo do marco da fronteira e da passagem oficial, olhando pelo lado brasileiro, funciona a base da Operação Acolhida e o 3º Pelotão Especial de Fronteira do Exército.

Do lado direito, no entanto, há uma série de caminhos à vista de qualquer um pela savana, cenário típico do bioma do lavrado, característico do norte roraimense. As chamadas "trochas" têm pouca fiscalização, a despeito de estarem a poucos metros da rota asfaltada, e é usada diariamente por migrantes e por quem quer burlar eventual vistoria.

A população local espera que o fluxo de migrantes e solicitantes de refúgio aumente nesta segunda-feira (5), não necessariamente relacionado ao inédito ataque americano ao regime, que rompeu décadas de não intervenção direta na América Latina. Isso porque a Operação Acolhida fica em alerta nos fins de semana para eventual emergência, mas só retoma os serviços de acolhimento e triagem em dias úteis.