PACARAIMA, RR (FOLHAPRESS) - Em visita à fronteira do Brasil com a Venezuela em Pacaraima (RR) nesta segunda (5), o general Roberto Angrizani cobrou militares presentes por maior fiscalização das rotas paralelas à via oficial de passagem entre os países. O general Viana Filho, que chefia o Comando Militar da Amazônia, baseado em Manaus, também estava presente.

As chamadas "trochas" são visíveis ao lado do marco da fronteira e são usadas diariamente por motos, pessoas e outros veículos que tentam burlar eventual fiscalização. Militares na divisa afirmam fazer patrulhamentos rotineiros no local --a reportagem não presenciou ação do tipo em dois dias em Pacaraima (RR).

"Não pode entrar", disse o general a subordinados, no topo do marco da fronteira. Observando a passagem de três veículos 4x4 e motos, ele ordenou que uma equipe fosse enviada para os locais de destino dos veículos.

As entradas das trochas em Pacaraima ficam abertas, sem posto de controle ou presença de militares. Os locais se parecem com o começo de uma estrada vicinal de terra e estão conectados às ruas da cidade, ao lado dos pequenos totens brancos que marcam a fronteira e equipamentos urbanos municipais, como um campo de futebol e residências.

Procurado sobre novas ordens de fiscalização e patrulhamento na fronteira, o Exército não respondeu até a publicação deste texto.

Os generais visitam a fronteira no segundo dia após o ataque dos Estados Unidos em Caracas que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro.

Em entrevista coletiva no marco da fronteira, o general Angrizani afirmou que a situação na fronteira não pede reforço de tropas.

"Nesse momento, como o fluxo [de imigrantes] se manteve estável, não houve a necessidade de reforço. Redobramos a nossa atenção aqui nesse local, com um monitoramento maior, um patrulhamento mais constante durante o dia", disse o general. Pela manhã, dois blindados Guaicurus foram posicionados no marco da fronteira pelo Exército --segundo os militares, quatro desses veículos ficam no quartel do Pelotão Especial de Fronteira em Pacaraima.

"Mas em termos de efetivo, nós temos hoje 129 militares aqui no nosso PEF [Pelotão Especial de Fronteira]. E, obviamente, temos tropas em Boa Vista em condições de reforçar, mas até agora não sentimos essa necessidade", afirmou.

A 1ª Brigada de Infantaria de Selva na capital roraimense conta com aproximadamente 3.500 homens, segundo o general, e atua em toda a faixa de fronteira do estado, com a Venezuela e a Guiana.

Perguntado sobre o plano do Exército em uma eventual guerra aberta entre EUA e Venezuela, o general afirmou que nada muda na atuação militar na fronteira.

"O confronto entre os dois países, inicialmente, não tem efeito, não tem relação com a atuação da nossa tropa aqui. A atuação da nossa tropa é a manutenção da inviolabilidade do território brasileiro e o apoio à Operação Acolhida. A gente não vê relação entre o possível conflito e reflexo dele para nós. Não mudaremos a nossa atitude aqui" afirmou.

O movimento na fronteira em Pacaraima nesta segunda-feira foi maior do que no domingo (4), o dia seguinte ao ataque americano. Nos fins de semana, a Operação Acolhida funciona apenas para situações emergenciais, e o serviço de acolhimento e triagem é retomado em dias úteis. Militares e funcionários de agências humanitárias dizem que o fluxo não está maior do que o esperado para um dia como este.

O fim do ano e a incerteza com relação ao futuro da Venezuela também são hipóteses para a movimentação ainda normal na fronteira. Há pessoas e famílias inteiras que chegam à divisa nesta segunda-feira após 3 ou 4 dias de viagem, o que significa que elas deixaram o país antes do ataque americano.

Durante a tarde, seis viaturas da Polícia Militar e sete da Força Nacional se aproximaram com sirenes ligadas do marco da fronteira. Os policiais estacionaram os veículos à beira da estrada e fizeram um vídeo dos agentes enfileirados ao lado dos carros antes de voltarem às viaturas e deixarem o local.

Há expectativa entre funcionários da acolhida na fronteira de que o fluxo possa aumentar nos próximos dias e semanas em razão da distância da fronteira brasileira em relação aos grandes centros da Venezuela -Caracas está a mais de 1.200 quilômetros. Há relatos de estradas e rodoviárias fechadas pelo país, o que pode dificultar o trajeto de migrantes à fronteira.