BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - James Story, 55, ex-embaixador dos EUA na Venezuela, diz à reportagem que a substituta de Nicolás Maduro no comando da Venezuela, Delcy Rodríguez, é fiel ao ditador e não representa uma mudança de regime.
Story afirma ainda que não está claro de que forma Washington governaria a Venezuela até uma transição, como disse Donald Trump, e que as críticas do presidente Lula (PT) à ação militar não devem prejudicar a relação bilateral entre Brasil e EUA.
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PERGUNTA - Qual foi a sua primeira reação quando soube dos ataques e da captura de Maduro?
JAMES STORY - O povo da Venezuela já havia votado por uma mudança de regime. Logo no começo eu fiquei satisfeito pelo povo da Venezuela. Um ditador que enfrenta acusações no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade e que comandou uma organização criminosa que matou e prendeu pessoas que eu conheço está sendo levado à Justiça.
Para mim, era uma questão de restaurar a democracia, os direitos humanos e garantir a estabilidade continental. Não podemos esquecer: trata-se de uma pessoa que presidiu uma ditadura que levou à saída de 25% da população do país.
Você vai ter que me desculpar se eu pensei que era sobre mudança de regime, democracia e estabilidade regional. Eu estava feliz de ver um mau agente sendo levado à Justiça. A entrevista coletiva do presidente Trump foi incômoda.
P - Por quê?
JS - Foi muito incômoda porque ele não mencionou a palavra "democracia". Por outro lado, disse "petróleo" 20 vezes. Depois disse que nós iríamos governar o país, além de ter descartado María Corina [Machado, líder da oposição venezuelana] e focado na vice-presidente Delcy Rodríguez [agora empossada como líder interina].
A minha pergunta é: se Maduro era um presidente ilegítimo e perdeu a eleição no ano passado, então a vice-presidente dele também é ilegítima. Como essa vice-presidente agora é a presidente?
Delcy Rodríguez nunca havia ocupado um cargo de liderança de alto nível no governo venezuelano até a chegada de Maduro. Ela se tornou chanceler, depois ministra do Petróleo e vice-presidente. É uma aliada leal de Maduro, e ao dizer que Maduro é o presidente do país e que não está ouvindo o que Trump diz reforça o fato de que não parece que o governo dos EUA tenha um plano muito claro para garantir a paz na Venezuela.
P - Está claro para o sr. como os EUA poderiam "governar" a Venezuela até uma transição, como disse Trump?
JS - Não está claro. Quando Rubio foi questionado, ele não deu uma resposta. A Venezuela está cheia de organizações terroristas estrangeiras: as Farc, o ELN [Exército de Libertação Nacional], o Hezbollah e agora Tren de Aragua e Cartel de los Soles.
Em um Estado falido, você vai precisar de segurança. As únicas pessoas que realmente podem garantir a segurança na Venezuela são as Forças Armadas venezuelanas; caso contrário, teríamos de fazer isso nós mesmos, o que exigiria um comprometimento massivo de soldados dos EUA. Eu não vejo isso acontecendo.
P - Avalia que o chavismo pode sobreviver na Venezuela sob Delcy e com algum nível de tolerância dos EUA?
JS - O chavismo sobrevive de alguma forma na Venezuela porque [Hugo] Chávez venceu uma eleição livre e justa. No início, ele conseguiu governar democraticamente por causa da desigualdade massiva no país. O problema começou quando Chávez se tornou um ditador, um autocrata.
O chavismo sempre vai representar algo em torno de 25% ou 30% da população. Há pessoas que, se Chávez estivesse na cédula hoje, votariam nele. É importante para Edmundo González, como presidente eleito, e para María Corina, enquanto líder da oposição, se reconciliarem com o fato de que essas pessoas existem e têm o direito de ter uma voz política.
O que me preocupa é não termos uma mudança de regime. Temos apenas a substituição de uma figura ruim por outra, ambas do mesmo clã político. Delcy é uma aliada de Maduro. Se Delcy continuar no comando e ainda não houver independência do Judiciário, será que a maioria das empresas vai querer voltar à Venezuela? Eu acho que não.
P - Quais as implicações dos ataques à Venezuela para Brasil e Colômbia?
JS - Eu ouvi os comentários do presidente Lula e os compreendo completamente. A soberania é de importância suprema para toda a região.
Eu entendo plenamente as preocupações com a extraterritorialidade e com a ideia de entrar e remover o Maduro. Mas se isso realmente for uma restauração da democracia, dará a oportunidade para que todas as pessoas que tiveram de fugir de suas casas possam voltar, o que teria um impacto positivo enorme sobre a região.
P - Acredita que as críticas de Lula contra a ação dos EUA na Venezuela podem prejudicar outros aspectos da relação bilateral?
JS - Eu não acho que isso vá acontecer, porque acredito que democracias maduras, em países amigos e com longa história podem discordar sobre temas importantes -e ainda assim se concentrarem nos aspectos positivos. Um exemplo é a agenda dos minerais críticos.
Trabalhando juntos nesse campo, eu acho que será um ponto positivo muito mais importante do que um desacordo sobre a Venezuela.
P - O que aconteceu na Venezuela é um sinal de que os EUA esperam que outros países da região reduzam a cooperação com China e Rússia?
JS - A questão da China não vai desaparecer. Ela é hoje, acredito, o maior parceiro comercial de todos os países da América do Sul. Não consigo imaginar um mundo em que isso signifique que não se deva fazer comércio com a China. Nós fazemos comércio com a China.
É claro que acreditamos que a China não deveria ter monopólio sobre terras raras e minerais críticos. Exatamente por isso que faz tanto sentido os EUA e o Brasil trabalharem juntos para processar mais desses elementos, para que a China não possa paralisar nossa capacidade industrial.
Se Brasil ou Argentina vendem soja para a China, existe um mercado para isso. O que nós recomendamos é que todos que trabalhem com a China prestem muita atenção às entrelinhas, porque já houve problemas suficientes com grandes projetos de infraestrutura que não deram certo.
Não acho que seja necessariamente uma questão de "ou vocês estão conosco ou com a China". Entendemos que vocês vão negociar com a China; nós vamos negociar com vocês e também com a China. O que esperamos é que exista um campo de jogo equilibrado, em que todos sigam as mesmas regras. E, infelizmente, os chineses nem sempre têm jogado de acordo com as normas internacionais.
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RAIO-X | JAMES STORY, 55
Servidor de carreira no Departamento de Estado americano, foi encarregado de negócios em Caracas entre 2018 e 2019, quando o pessoal diplomático americano foi retirado do país. Seguiu comandando a unidade de assuntos venezuelanos da embaixada dos EUA na Colômbia, até ser designado embaixador em 2020. Permaneceu no cargo até 2023. Embaixador aposentado, é sócio fundador das consultorias Global Frontier Advisors e conselheiro na Dinámica Americas.