SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A população da Groenlândia é soberana para decidir seu futuro político, e o território do Ártico é parte da Otan que deve ter sua integridade respeitada segundo preceitos da Carta da ONU.
As afirmações estão em um comunicado conjunto de líderes da União Europeia, que reagiram nesta terça-feira (6) à nova investida do presidente americano, Donald Trump, sobre a ilha que é integrante autônoma do Reino da Dinamarca -1 dos 32 membros do clube militar ocidental, liderado de forma hesitante pelos Estados Unidos.
Também nesta terça, a Casa Branca divulgou nota dizendo que a "aquisição da Groenlândia é uma prioridade de segurança nacional" e que Trump não descarta o uso da força, embora estude outras formas de ficar com a ilha. Segundo a agência Reuters, o americano quer tomar o local até o fim do mandato, em 2029.
"A Groenlândia pertence a seu povo. Cabe apenas à Dinamarca e à Groenlândia decidir sobe assuntos envolvendo a Dinamarca e a Groenlândia", disse o texto conjunto dos governos de França, Alemanha, Itália, Espanha, Polônia, Reino Unido e Dinamarca.
"A Otan já deixou claro que o Ártico é uma prioridade, e os aliados europeus estão reforçando sua presença e investimentos lá", afirmou o texto, em resposta à insinuação do republicano de que a ilha está desprotegida.
No domingo (4), um dia depois de atacar a Venezuela e capturar o ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Trump afirmou a repórteres no avião presidencial: "Nós precisamos da Groenlândia do ponto de vista de segurança nacional."
Não é a primeira vez que ele toca essa tecla. Desde que voltou ao poder, há quase um ano, Trump fala insistentemente na necessidade de tomar o território dinamarquês, gerando uma crise política com seus desconfiados aliados europeus.
Aos poucos, o tema saiu do radar, dada a balbúrdia geopolítica sob sua Presidência, de Gaza à Ucrânia, passando por guerra tarifária e pela reformulação de prioridades domésticas. Em dezembro, o assunto foi retomado quando Trump tomou a criticada decisão de nomear um enviado político à ilha.
A ação bem-sucedida do ponto de vista militar do sábado (3) em Caracas reativou de vez a obsessão do presidente. Ela se encaixa nos termos da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que retoma com referência literal a ideia de aplicar a força para fazer valer a Doutrina Monroe de 1823, que defendia a hegemonia hemisférica americana.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, havia dito na segunda (5) que qualquer ataque americano à ilha significaria "o fim da Otan". Membros da aliança já se estranharam militarmente, como a Grécia e a Turquia, mas nunca houve uma ameaça do criador do grupo a um colega.
Nesta terça, o chanceler dinamarquês, Lars Lokke Rasmussen, disse que a visão vendida por Trump de que a ilha está "cercada de barcos russos e chineses" não é real. Afirmou ainda que pediu uma reunião com seu colega americano, Marco Rubio.
Diferentemente da Venezuela e seu petróleo ou do canal do Panamá, outro alvo contumaz de ameaças que é vital para o fluxo comercial americano, os interesses na ilha congelada do Ártico são diversos.
Em relação à segurança nacional, a assertiva de Trump é correta. O território está posicionado estrategicamente no caminho de um eventual ataque com mísseis nucleares por russos ou chineses, já que a rota transpolar é a mais curta entre os rivais.
Desde a Guerra Fria, os EUA mantêm por lá uma base militar vital, Pituffik, que controla os satélites de alerta para ataques contra a América do Norte.
Como a instalação está lá e a Groenlândia é território da Otan, logo integrada ao sistema de defesa de Washington, os olhos se voltam para as potencialidades econômicas que o aquecimento global negado por Trump proporcionou.
Com o degelo de sua capa polar, a ilha poderá ter exploradas suas reservas de petróleo e, mais importante ao olhos do republicano, de terras raras essenciais para a indústria de tecnologia moderna: baterias, chips e outros componentes precisam desses materiais, hoje controlados principalmente pela rival China.
Não é a primeira vez na história que um líder dos EUA busca controlar a Groenlândia. Em 1867, o secretário de Estado William H. Seward, último político importante antes de Trump a propor abertamente a anexação do Canadá, sugeriu a compra da ilha e da Islândia, então também dinamarquesa. Houve debates também em 1910.
Em 1940, os nazistas tomaram Copenhague. Um ano depois, quando os americanos entraram na Segunda Guerra Mundial, Washington invadiu a Groenlândia para evitar a presença alemã perto de seu território. Um ano depois do fim do conflito, em 1946, os EUA tentaram sem sucesso comprar a ilha pelo equivalente hoje a US$ 1,6 bilhão.
Além da Dinamarca e da Europa, a Rússia já se manifestou contrária à pretensão americana, lembrando que o Ártico é uma de suas zonas de interesse estratégico, não menos porque o mesmo derretimento do gelo tem permitido a abertura de rotas marítimas para a China durante mais meses do ano.