CÚCUTA, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Enquanto o debate sobre o ataque de Donald Trump à Venezuela se concentra na prisão de Nicolás Maduro, nos interesses dos Estados Unidos no petróleo venezuelano e no xadrez político local no curto e no médio prazo, um assunto tem ficado um pouco esquecido: o dos presos políticos do regime chavista.
Para centenas de famílias venezuelanas, porém, os últimos dias foram vividos não como um episódio geopolítico, mas como a possível abertura de uma oportunidade concreta de liberdade.
Desde a captura de Maduro, familiares de presos políticos, defensores de direitos humanos e os próprios detentos acompanham cada movimento com expectativa e cautela. A percepção geral é de que o cenário político mudou de forma irreversível, ainda que o quadro institucional permaneça confuso e sem roteiro claro de transição.
Trump afirma que assumiu o controle da situação no país, sem detalhar como isso se traduzirá na administração do Estado venezuelano. Ao mesmo tempo, Delcy Rodríguez, uma das figuras centrais do chavismo, assumiu interinamente a Presidência. Ela é parte do sistema que colocou atrás das grades os inimigos do regime.
Embora o aparato político e repressivo construído ao longo dos anos siga operando, a captura de Maduro abriu fissuras inéditas. Multiplicaram-se sugestões discretas para recolocar a situação dos presos políticos no centro das negociações. Segundo relatos de defensores de direitos humanos, houve uma intensificação de contatos entre chefes de Estado, diplomatas e figuras com influência internacional. As próprias famílias passaram a buscar canais de pressão, num esforço para acelerar decisões que, até poucos dias atrás, pareciam inviáveis.
O tema também voltou à arena política. Edmundo González, o candidato opositor que, segundo observadores internacionais, venceu as eleições presidenciais de julho de 2024, foi um dos primeiros a sustentar que qualquer processo de normalização do país passa necessariamente pela libertação de todos os detidos por razões políticas, considerados reféns de um sistema de perseguição.
Casos emblemáticos ajudam a dar dimensão humana ao problema. Entre eles está o de Rocío San Miguel, ativista especializada em assuntos militares, presa em fevereiro de 2024 sob acusações que organizações de direitos humanos consideram infundadas. No entorno familiar, a expectativa é de que a nova conjuntura política possa favorecer sua libertação.
Situação semelhante vive o círculo de Enrique Márquez, opositor e ex-candidato presidencial, detido após se recusar a reconhecer o resultado oficial das eleições.
Os dados consolidados revelam a extensão da repressão. Segundo o Foro Penal, organização venezuelana que há mais de uma década documenta casos de perseguição política, havia 806 presos políticos no país pouco antes do processo eleitoral de 2024. Desses, 175 são militares e 631 civis, num universo composto por 195 mulheres e 701 homens. Após os protestos que se seguiram à eleição considerada fraudulenta, outras 2.495 pessoas foram detidas, muitas ainda sem julgamento e sem definição clara de seu futuro judicial.
Em entrevista à Folha de S. Paulo, Gonzalo Himiob Santomé, advogado e diretor do Foro Penal, afirma que este é um momento decisivo para expor à comunidade internacional a situação dos presos políticos venezuelanos. Desde 2014, a organização vem reunindo documentação sistemática sobre os casos, tanto de pessoas já condenadas quanto daquelas que seguem presas sem sentença definitiva. A avaliação é que a nova conjuntura faça com que o tema deixe de ser tratado como secundário nas negociações internacionais.
A repressão política na Venezuela deixou de ser episódica e se transformou em política de Estado, sobretudo na última década. Embora durante o governo de Hugo Chávez tenham existido presos políticos, foi sob Nicolás Maduro que os centros de detenção se encheram. As grandes ondas de protestos de 2014, 2017, 2019 e 2024 resultaram em centenas de prisões, incluindo de adolescentes e militares, evidenciando as fissuras que o chavismo precisou conter dentro da própria Força Armada.
O endurecimento do regime veio acompanhado do fortalecimento dos serviços de inteligência e da adoção de práticas intimidatórias, como a chamada Operação Tun Tun, marcada por invasões domiciliares sem ordem judicial, além da detenção de familiares como forma de pressão. Um aparato policial repressivo aliado a um Judiciário alinhado ao Executivo permitiu ao regime encurralar a oposição e sufocar a sociedade civil.
Essas violações estão amplamente documentadas. A Missão Independente de Determinação dos Fatos das Nações Unidas registrou casos de tortura, detenções arbitrárias, execuções extrajudiciais, perseguição política e violência sexual em centros de detenção. Parte dessas denúncias embasa a investigação por crimes contra a humanidade conduzida pelo Tribunal Penal Internacional, a primeira desse tipo em um país da América Latina.
Após a captura de Maduro, organismos da ONU voltaram a sublinhar a necessidade de responsabilização pelas graves violações cometidas durante seu governo, destacando que eventuais ilegalidades na operação americana não anulam a responsabilidade individual por crimes internacionais.
Entre os presos políticos mais conhecidos estão defensores de direitos humanos como Javier Tarazona, Carlos Julio Rojas, Eduardo Torres e Kennedy Tejeda, além de figuras políticas como Nicmer Evans, detido novamente nas últimas semanas. Freddy Superlano e Juan Pablo Guanipa, aliados de María Corina Machado, seguem presos junto a mais de 130 militantes de sua corrente. Também chama atenção o caso de Rafael Tudares, genro de Edmundo González, preso no início de 2025 e condenado a 30 anos de prisão sem acesso regular à família ou à defesa.
Diante desse quadro, organizações de direitos humanos passaram a defender publicamente uma anistia geral para presos políticos, civis e militares, como ponto de partida para qualquer processo de transição.
O histórico recente, porém, impõe cautela. O chavismo utilizou libertações seletivas como válvula de escape em momentos de pressão internacional, num mecanismo conhecido entre defensores como "porta giratória": alguns são soltos enquanto novos presos ocupam seu lugar. Nas últimas semanas, famílias aguardavam liberações prometidas para o fim do ano.
A incógnita agora é se, em meio às negociações geopolíticas, os presos políticos deixarão de ser moeda de troca e passarão a ocupar o centro da agenda. Para centenas de venezuelanos encarcerados e suas famílias, essa resposta definirá não apenas o futuro do país, mas o da própria sobrevivência.