SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, firmando-se no poder após a captura de Nicolás Maduro, o governo Donald Trump se mostrou disposto a cooperar com a chavista. Em declarações recentes, o presidente e seu secretário de Estado, Marco Rubio, disseram que vão trabalhar com Delcy ?desde que ela tome "boas decisões", nas palavras do chefe da diplomacia americana.
A aparente conciliação de Washington com os chavistas em Caracas levantou mais perguntas do que respostas ?em especial sobre a decisão de Trump de escantear aquela que parecia a candidata preferida dos EUA para assumir a Venezuela, a líder opositora María Corina Machado.
Para o cientista político Rafael Villa, entretanto, Delcy era a escolha óbvia para os americanos. "O que Delcy tem a oferecer? Governabilidade. Ela tem o diálogo com as Forças Armadas, com a segurança pública e a inteligência. María Corina tem a legitimidade do voto, mas não tem [esse] acesso", afirma.
Em entrevista à reportagem, o professor da Universidade de São Paulo nascido na Venezuela fala sobre os próximos passos da líder interina, sobre as decisões de Trump até aqui e a possibilidade de que Maduro tenha sido traído por setores do regime.
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PERGUNTA - Que escolhas Delcy Rodríguez tem à sua frente nesse momento? O senhor acha que ela será capaz de conciliar as exigências de Washington e as do chavismo?
RAFAEL VILLA - Ela se encontra em um fogo cruzado. Por um lado, há as condições colocadas pelos EUA, e por outro, as dos setores mais radicais do chavismo. O governo Trump quer a volta das empresas americanas à Venezuela, um desejo que não é só deles, mas também de Caracas, que busca investimentos estrangeiros. Entretanto, se houver em cima disso a exigência de que saia o capital chinês, russo, iraniano, será muito mais difícil. O chavismo, por sua vez, quer se manter no poder e evitar uma transição política. Essa é sua principal condição.
P - Mas Trump não fala somente de investimentos, fala também de tomar o petróleo venezuelano.
RV - Sim, e isso seria muito difícil de justificar internamente. Delcy teria que lidar com a pressão do setor nacionalista do governo, em especial dos militares, de cujo apoio ela não pode prescindir se quiser ficar no poder. Mas eu não acredito que os EUA vão levar essa ameaça às últimas consequências. Trata-se de um blefe para extrair certas concessões.
P - Que concessões?
RV - A principal é dar prioridade ao capital americano na exploração e comercialização de petróleo.Os EUA poderiam exigir reparações por aquilo que Trump chama de roubo, uma referência às nacionalizações de 1976 e às mais recentes, sob Hugo Chávez. Mas isso seria difícil de implementar. Para mim, o objetivo [de Trump] é conseguir a preferência dos EUA na indústria petrolífera.
P - Trump blefa também quando diz querer governar a Venezuela?
RV - Sim. É um mecanismo de negociação dura. Mesmo no alto escalão do governo americano, isso não é consenso: Trump fala em presença militar na Venezuela, e Rubio, não.
Ou seja, as condicionantes são de natureza econômica, não política. No futuro, seria necessário um novo processo eleitoral, mas isso não é de interesse dos EUA. Para eles, o importante é estabilidade e a gestão da indústria petrolífera.
P - Nesse caso, parece haver uma bomba-relógio, porque a Constituição prevê um novo pleito em, no máximo, seis meses. Como o senhor acha que o regime vai lidar com isso?
RV - Eles apelaram no momento para a figura constitucional da ausência temporária do presidente, que permite que um interino assuma por 90 dias, prorrogáveis por mais 90.
Ora, os chavistas sabem muito bem que Maduro não retornará. Mas, dessa forma, ganham tempo e margem de manobra para colocar a agenda de Delcy em andamento e talvez conseguir mais prorrogações na Assembleia Nacional. Claro, isso tudo será negociado com os EUA.
P - Então o senhor acredita que pode haver eleições ainda este ano?
RV - É possível. Tudo depende da capacidade de Delcy de consolidar a governabilidade e de suplantar seus concorrentes dentro do chavismo. Vimos, por exemplo, a prisão de jornalistas na Assembleia Nacional por parte de grupos de segurança ligados ao [ministro do Interior] Diosdado Cabello. Delcy será capaz de controlar esses grupos?
Então, sim, ela pode dar início a um processo eleitoral daqui a seis meses, como manda a Constituição. Um ponto que nem Washington nem Caracas mencionaram até agora é a troca de nomes no comando de certas instituições ?uma troca que, para a transparência de um eventual processo eleitoral, precisa acontecer no Conselho Nacional Eleitoral e no Tribunal Supremo de Justiça. Mas isso é um processo demorado.
P - Por que Trump escolheu Delcy para substituir Maduro?
RV - Ela era a escolha óbvia, e existem duas razões para isso. Primeiro, sua gestão da economia venezuelana, embora não exatamente bem-sucedida, deu a ela certo capital político e experiência administrativa nos setores-chave do PIB. Segundo, seu grupo de poder é o mais pragmático.
O chavismo é um arquipélago com quatro ilhas: duas civis, duas militares. A primeira, Maduro e [sua esposa] Cilia Flores. A segunda, Delcy e seu irmão [o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez]. A terceira, [o ministro da Defesa] Vladimir Padrino López e as Forças Armadas. E a quarta, Diosdado Cabello e os serviços de inteligência e paramilitares. Delcy e Jorge eram a escolha óbvia: são o grupo político com o maior histórico de negociação.
Negociaram o falido acordo de Barbados com a oposição, negociaram a saída do país de Edmundo González e, muito provavelmente, de María Corina também, negociaram a saída dos dissidentes sob a proteção do Brasil na embaixada da Argentina e a libertação de americanos com o enviado de Trump, Richard Grenell. Era lógico que os EUA iam aproveitar esse histórico.
P - Muitas pessoas se perguntam por que Trump não aproveitou o ataque para levar María Corina ao poder.
RV - Fazer isso neste momento seria colocar a Venezuela à beira de uma guerra civil. Não que Trump morra de amores por Delcy, mas o que ela tem a oferecer? Governabilidade. Ela tem o diálogo com as Forças Armadas, com a segurança pública e a inteligência. María Corina tem a legitimidade do voto, mas não tem acesso nem diálogo com os grupos por onde passa o poder real na Venezuela, que são os grupos militares.
P - O senhor acha que houve traição a Maduro? O que explica que os EUA foram capazes de invadir Caracas com 200 soldados, matar dezenas e capturar o ditador sem sofrer baixas?
RV - É preciso entender que a capacidade de operação das Forças Armadas americanas é maciça. O maior porta-aviões do mundo está estacionado no Caribe. Então, mesmo que os militares venezuelanos tivessem tido capacidade de reação, em algum momento essa superioridade teria se imposto.
Mas isso não explica tudo. Como é possível que isso tenha acontecido em um país com sistemas de radar ultramodernos, com caças russos Sukhoi Su-30 na base aérea de Maracay, a 100 quilômetros de distância, que podem estar no ar sobre Caracas em 3 minutos? Não é uma falha do sistema militar, que é resiliente ?é uma falha de inteligência.
E aí está o ponto polêmico que ameaça rachar o chavismo. Setores radicais acusam Delcy e Padrino de permitir a captura de Maduro. Isso não passa de elucubrações. Se houve um acordo com os EUA, ele foi feito pelos setores de inteligência, que deveriam ter alertado as Forças Armadas sobre a invasão americana. Isso não aconteceu. Por isso, na minha leitura, quem mais perdeu politicamente com a invasão foi Diosdado Cabello, que agora está sob suspeita.
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RAIO-X | RAFAEL VILLA, 64
É professor titular de ciência política e relações internacionais do Departamento de Ciência Política da USP. Nascido em 1961 em El Tigre, na Venezuela, formou-se na Universidad de los Andes, no mesmo país, antes de imigrar para o Brasil em 1988. Tem mestrado e doutorado em ciência política pela USP e pós-doutorado pela Universidade Columbia, nos EUA.
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