SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Grupos paramilitares pró-regime, os chamados coletivos, voltaram a patrulhar as ruas de Caracas de forma mais intensa desde a noite de domingo (4). Comandadas pelo ministro do Interior, Diosdado Cabello, essas forças paralelas são usadas para intimidar opositores e sufocar a dissidência.
Segundo relatos de venezuelanos feitos à reportagem, esses homens andam armados em caravanas de motocicletas e têm se concentrado no oeste de Caracas e na região central, onde estão localizadas as sedes das principais organizações da sociedade civil e de direitos humanos.
Os coletivos também integram postos de controle que foram instalados em diversos pontos da capital, as chamadas "alcabalas". Segundo relatos, ao passar por esses locais, alguns cidadãos são obrigados a desbloquear seus celulares, e carros são revistados, mesmo em vias de grande circulação.
Uma ativista de direitos humanos, que assim como outros venezuelanos ouvidos pela reportagem pediu anonimato por motivos de segurança, descreve que a capital vive atualmente uma espécie de tensão silenciosa.
Há o que ela chama de "consciência coletiva" da população de que é preciso se resguardar e ter cautela, especialmente após a experiência da dura repressão aos protestos de 2024 que questionaram as eleições presidenciais que reconduziram o ditador Nicolás Maduro ao poder e foram denunciadas por fraude.
Cinco dias após o ataque americano e ainda com muitas pontas soltas sobre o futuro do país, alguns comércios já voltam a funcionar, dando um certo clima de normalidade, ao mesmo tempo em que as pessoas evitam se expor, tomam cuidado com publicações nas redes sociais e procuram ter cautela ao cruzarem com os coletivos.
Esses grupos paramilitares têm origem ainda durante o governo de Hugo Chávez nos anos 2000. No início, funcionavam como organizações para apoiar paralelamente os governos em diferentes áreas sociais.
Com o tempo, os coletivos passaram a assumir uma função mais repressiva, funcionando como força de vigilância auxiliar, especialmente em momentos de crise. Há denúncias, inclusive em tribunais internacionais, de que os coletivos participaram da repressão dos protestos que eclodiram na Venezuela em 2017 e deixaram mais de 50 mortos.
Ao mesmo tempo, esses grupos mantêm certa influência em favelas e bairros mais pobres da capital porque administram a distribuição de ajuda social do regime, numa relação que lembra, em certa medida, a atuação de alguns grupos criminosos no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Como não fazem parte da estrutura formal do chavismo, eles têm certa autonomia operacional. E no atual cenário, segundo especialistas, é justamente neste ponto que reside o perigo.
Ainda não está claro qual é a capacidade real de controle que a gestão interina de Delcy Rodríguez exerce sobre esses grupos. Se agirem de forma livre, é possível que haja episódios de violência e repressão fora de controle contra a sociedade civil. Por outro lado, se o gabinete ligado a Diosdado Cabello conseguir manter algum controle sobre esses coletivos, eles podem desempenhar um papel importante na governabilidade da nova líder do país.
O aumento da presença desses grupos e o medo por maior repressão coincidiram ainda com a prisão de ao menos 16 jornalistas e trabalhadores de meios de comunicação durante a posse de Delcy na segunda (5), segundo o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa da Venezuela (SNTP).
Desde a captura de Maduro, o país está em estado de comoção exterior. A medida autoriza, entre outras coisas, que as forças de segurança da Venezuela realizem busca e prisão de pessoas envolvidas na promoção ou no apoio a um ataque armado dos Estados Unidos contra o território venezuelano. O decreto convoca toda a população do país a "repelir a agressão" americana.
Há um receio, entre dirigentes de ONGs de direitos humanos, que casos de detenção e repressão se intensifiquem. A polícia do estado de Mérida publicou nesta terça-feira (6) em suas redes sociais a imagem de dois homens que supostamente teriam sido presos por estarem "celebrando o sequestro" de Maduro. Na imagem, eles aparecem ajoelhados e de costas dentro de uma delegacia.
Ainda de acordo com o post do regime, os homens, de 64 e 65 anos, "incitaram a violência" e "efetuaram disparos com arma de fogo" na cidade de Guaraque.
No fim de semana, um dia após a captura do ditador, policiais e grupos paramilitares participaram de atos contra o ataque nas imediações do Palácio Presidencial de Miraflores, gritando frases como "devolvam Maduro" e exibindo cartazes de apoio às lideranças do regime.