SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A onda de protestos que engolfou o Irã desde o fim de dezembro teve a crise econômica do país como "faísca, mas não causa". O alvo dos manifestantes é o governo islâmico, e eles contam com o apoio prometido por Donald Trump, ainda que rejeitem a guerra.
O relato foi feito à reportagem por Noor, 30, uma estudante de direito de Teerã que integra uma rede de ativistas de direitos humanos centrada na Europa. Ela trocou duas levas de mensagens com a reportagem por meio de um iraniano no exílio, e pediu para não ter o sobrenome divulgado.
"Não há desejo por uma invasão em grande escala, como a do Iraque ou do Afeganistão. Isso seria desastroso", disse ela, questionada sobre a afirmação de Trump de que ajudaria militarmente os manifestantes caso houvesse mortos na repressão ao protesto.
Segundo outra rede ativista no exterior, a Hrana, ao menos 36 pessoas haviam morrido de 28 de dezembro a 7 de janeiro no país. O serviço persa da BBC contou protestos em 17 das 31 províncias do país, que continuaram nesta quinta (8).
A fala do americano ocorreu na véspera da operação militar que capturou Nicolás Maduro na Venezuela. "Muitos acreditam que uma pressão externa calibrada poderia ser decisiva. Sanções direcionadas, isolamento financeiro da Guarda Revolucionária e ações limitadas que impeçam o regime de usar violência descontrolada contra civis poderiam mudar o equilíbrio", crê Noor.
Na origem, os atos eram contra o que ela chamou de "vida cotidiana insuportável" num país que teve inflação de 42,5% em 2025 e cuja moeda, o rial, caiu à metade do valor em relação ao dólar, encarecendo as compras da influente classe média.
"Aluguel, comida e transporte são inacessíveis, cortes de energia e falta de água são rotina, e a poluição é tão grave que se tornou uma crise de saúde pública. As pessoas estão exaustas. Mas logo os protestos foram além", disse a estudante.
Segundo ela, os atos são de "clara rejeição ao regime", incorporando agendas das edições anteriores de protestos: 2009, 2017, 2019 e 2022-23. Noor estreou no ativismo na mais recente revolta, disparada pela morte em custódia de uma jovem que a polícia religiosa julgou usar o véu islâmico incorretamente.
"Os movimentos anteriores ficaram num impasse, porque o regime não tinha força para esmagar o dissenso de forma permanente, e nós não tínhamos a força necessária para derrubá-lo", afirmou.
Com as lições da repressão aprendidas, avalia, os manifestantes agora estão mais atomizados, sendo conectados quando há espasmos no controle estatal da internet ?que obrigou a conversa com a reportagem via mensagens ser em duas etapas nesta semana. Ela mesma diz não integrar nenhum grupo político, apenas coletivos de estudantes na capital.
Noor afirmou que a repressão está mais dura. "As forças de segurança agora atiram diretamente. Estamos desarmados", disse. A entrevista ocorreu antes de emergirem imagens de manifestantes com fuzis nas ruas da província de Ilam (oeste). Até aqui, ao menos dois policiais morreram em confrontos, um deles esfaqueado perto de Teerã nesta quinta.
Ao mesmo tempo, ela vê diferenças em relação ao passado. "O que é diferente é que o medo não está funcionando como antes. Vemos rachaduras, a moral de partes das milícias está mais fraca, e a confiança delas no regime está erodindo", disse, sem elaborar em exemplos.
Aqui uma ação armada pontual dos EUA, que bombardearam diretamente o Irã pela primeira vez na guerra de 12 dias de junho passado entre a teocracia e Israel, seria bem-vinda pelos ativistas. "Um ataque firme contra algum quartel-general vital e poderíamos ver a casa de cartas cair", acredita.
Seja como for, a multiplicação de atos e a resposta mista das autoridades insinua dificuldades para a teocracia. Se o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, foi à TV pedir punição a quem trabalhar com "os inimigos", o presidente Masoud Pezeshkian assoprou nesta quinta.
Depois de trocar na virada do ano o presidente do Banco Central, ele defendeu o monitoramento dos preços no país. "O povo não pode sentir qualquer falta em termos de suprimento de bens", afirmou.
Noor está medianamente otimista, escaldada que é pelo controle que a temida Guarda Revolucionária exerce sobre o país. "Se Khamenei saísse, seria um grande impulso. Mas o principal risco é a guarda, enraizada na economia e no aparato de economia."
Para ela, deveria haver um plebiscito para decidir se o país vira uma república secular ou uma monarquia constitucional, como era até a queda do xá Reza Pahlavi, que em 1979 era visto como um fantoche do Ocidente.
"O príncipe herdeiro [homônimo do pai, que vive nos EUA] pode desempenhar um papel unificador, em vez de impor um sistema", afirmou a estudante, que é entusiasta da volta da monarquia.