SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Rússia criticou nesta quinta-feira (8) a apreensão de um petroleiro com bandeira do país por forças americanas, ocorrida na véspera quando o navio Marinera se aproximava da Islândia. Para Moscou, que evitou escalar a crise, o ato aumenta "as tensões político-militares na zona euro-atlântica".
Segundo nota da chancelaria, a ação militar "ilegal, perigosa e irresponsável" americana irá inspirar seus aliados. "As autoridades do Reino Unido, que tem um longo histórico de pirataria marítima, estão particularmente inclinadas a intenções predatórias".
O ministério também pediu o retorno de russos que integram a tripulação do navio, que transportava petróleo venezuelano bloqueado pelo governo de Donald Trump, mas notavelmente não exigiu o retorno da embarcação.
O comedimento até aqui tem explicação. Os russos ainda estão lendo o novo momento da política externa de Trump, que no seu primeiro ano de volta à Casa Branca fez aberturas importantes ao Kremlin, comprando boa parte do ponto de vista de Vladimir Putin acerca da Guerra da Ucrânia.
Ao mesmo tempo, o americano tem como prioridade encerrar o conflito, e as negociações estão numa fase de conclusão de proposta pelo lado ucraniano e europeu, em conjunto com os EUA.
A captura por americanos no sábado (3) do ditador Nicolás Maduro, um aliado de longa data de Putin, fez crescer a percepção de que Trump irá endurecer sua posição para tentar força a Rússia a topar um acordo de paz.
De forma secundária, há a própria situação legal do Marinera, no mínimo discutível. O petroleiro gigante, de 333 metros, integrava o que é conhecido como frota fantasma: navios de identidade nebulosa usados para driblar sanções.
Ele se chamava Bella-1 e tinha bandeira da Guiana até dezembro, quando Trump anunciou um bloqueio ao comércio do petróleo da Venezuela. Assim como outras embarcações, ele buscou furar a ação, trocando de nome e propriedade declarada.
Só que os EUA montaram uma verdadeira operação de guerra para persegui-lo, durante duas semanas, e posicionaram aeronaves para interceptação nesta semana no Reino Unido.
Ao fim, forças especiais americanas abordaram o navio, que segundo relatos estava sendo acompanhado por um submarino russo rumo ao porto de Murmansk (Ártico).
Num incidente correlato nesta quinta, um petroleiro russo no mar Negro foi alvejado por um drone ucraniano.
A Guarda Costeira turca foi chamada para auxiliar o navio. Ele não carregava petróleo venezuelano, mas traz novamente o holofote sobre o comércio marítimo ligado à Rússia, sob pressão devido às sanções ocidentais.
O foco numa eventual ação do Reino Unido transparece outra face da tática atual do Kremlin, que é a de focar suas críticas na Europa, e não em Trump.
Também nesta quinta, a chancelaria bombardeou o plano anunciado por França e Reino Unido de enviar uma tropa de paz à Ucrânia para monitorar, com apoio americano, um eventual cessar-fogo entre os beligerantes.
"Qualquer força estrangeira será um alvo legítimo", disse a porta-voz Maria Zakharova. A formulação é a mesma feita em ocasiões anteriores em que a hipótese foi levantada, já que a ideia de a Ucrânia ser integrada à aliança militar Otan de qualquer forma foi um dos motivos da invasão promovida por Vladimir Putin em 2022.
A inflexibilidade do Kremlin sobre o tema está sendo testada nesta semana, após as reuniões em que os EUA não vetaram liminarmente tal ideia. Zelenski disse que os americanos iriam participar do monitoramento de um eventual cessar-fogo, mas os negociadores de Trump foram menos enfáticos.
Em solo, a guerra segue. Nesta quinta, um ataque russo com mísseis e drones derrubou a energia em toda a região de Dnipropetrovsk. Cerca de 800 mil pessoas ficaram sem luz e aquecimento em pleno inverno ucraniano, com temperaturas entre 1 e 8 graus Celsius.
Zelenski voltou a acusar a Rússia de terrorismo, e o Ministério da Defesa em Moscou disse que o objetivo foram instalações energéticas e militares.