PEQUIM, CHINA (FOLHAPRESS) - Usuários de redes sociais chinesas como o Weibo, semelhante ao X, especularam em publicações que o ataque dos Estados Unidos à Venezuela poderia ser a desculpa usada por Pequim para realizar uma incursão militar em Taiwan.
Segundo publicações, o cenário imposto com a captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, é propício para uma reunificação.
"Se os Estados Unidos podem invadir ilegalmente a Venezuela e capturar seu presidente, então o Exército de Libertação Popular pode, com ainda mais razão, exercer de forma legítima e legal a soberania nacional para promover a reunificação", escreveu o usuário "Anotações do Irmão Jiao", que omite o nome verdadeiro e foto no Weibo, como é prática entre usuários da rede chinesa.
Pequim defende que a ilha, que possui um presidente democraticamente eleito e se apresenta como um Estado soberano, é parte inalienável de seu território e não descarta o uso da força para retomá-la. Taiwan esteve sob domínio chinês em períodos anteriores à fundação da República Popular da China, em 1949.
Publicações no Weibo sugerem ainda que o regime copie o modus operandi da ação americana, capturando o líder de Taiwan, Lai Ching-te.
"Há aqui um exemplo muito positivo a ser seguido. Contra os fortes, não é preciso mobilizar soldados para morrer em massa; uma ação de decapitação direta já resolve. Por exemplo, a questão de Taiwan pode ser resolvida dessa forma: basta uma ação direta para concluir tudo", afirma o usuário "Loja de Antiguidades", que também omite o nome verdadeiro, fazendo referência à captura do ditador venezuelano.
As publicações trazem ainda outros conflitos que estariam ignorando o direito internacional e a Carta da ONU como justificativa para um ataque chinês. Os usuários tratam a questão como doméstica e legítima e afirmam que Pequim deveria aproveitar o momento não porque estaria se somando às ilegalidades de Trump, mas para evitar protestos e ações de outros países, especialmente do Ocidente.
"Diante dessa configuração global, a China também precisa adotar algumas medidas necessárias: primeiro, responder aos desafios do Japão; segundo, reunificar Taiwan; terceiro, reforçar o controle sobre as ilhas do m ar do Sul da China; quarto, lidar com as questões de controle relacionadas a regiões de minorias étnicas fronteiriças e às rotas de saída para o mar", escreveu o usuário "Velho Wang fala sobre reformas".
Pequim tem condenado as ações americanas na Venezuela desde os primeiros ataques a barcos no mar do Caribe. A captura de Maduro e da esposa levou a China a demandar a garantia da segurança pessoal e a liberação imediata do casal, além do fim da "subversão do governo venezuelano".
Para Zack Cooper, pesquisador sênior no Instituto Empresarial Americano, não é provável que o cenário imposto pelo governo americano com o ataque ao país latino mude os cálculos de Pequim em relação a Taiwan.
"Por um lado, o ataque mostra o quão eficaz pode ser o poder militar dos EUA; por outro, ilustra como as normas internacionais contrárias à intervenção militar estão se enfraquecendo. Assim, trata-se de uma espécie de faca de dois gumes para a abordagem chinesa em relação a Taiwan", diz.
O especialista considera que a principal restrição à ação chinesa seja o receio do fracasso de uma grande operação militar, causando baixas em larga escala.
"O ponto mais perigoso para as relações entre os dois lados do Estreito nos próximos anos será 2028, quando haverá eleições em Taiwan e nos EUA. Os líderes chineses podem ajustar sua abordagem após qualquer uma dessas eleições, possivelmente enxergando nisso uma oportunidade para avançar de forma perceptível rumo à unificação", diz.