LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - "Isto aqui não é Bangladesh". Este foi um dos slogans de campanha de André Ventura, candidato do ultradireitista Chega à Presidência de Portugal. A frase xenófoba causou indignação e revolta nas semanas que antecederam as eleições, marcadas para o próximo domingo (18).

O pleito deverá ser o mais equilibrado e emocionante desde a redemocratização do país, em 1974. As pesquisas já mostraram até cinco candidatos em empate técnico, três de direita, um de esquerda e um independente. A polêmica sobre xenofobia ?em outro outdoor, Ventura atacou a comunidade cigana? mostra como o tema da imigração ganhou centralidade na campanha deste ano.

À exceção de Ventura, os slogans de campanha não remetem a tendências ideológicas, mas a características pessoais dos candidatos. O veterano Luís Marques Mendes, da centro-direita governista, exalta "o valor da experiência". António Seguro, do Partido Socialista ?numericamente à frente na maioria das pesquisas? fala em um "futuro seguro".

João Cotrim, da direita liberal, diz ser "um presidente com o perfil certo" ?e seu outdoor exibe o rosto do candidato de perfil. Sem partido, o almirante Henrique Gouveia e Melo, que liderou as pesquisas durante a maior parte da campanha e perdeu fôlego na reta final, alardeia sua independência ?"meu partido é Portugal".

Em uma pesquisa divulgada nesta terça (13), da Universidade Católica de Lisboa, os candidatos Ventura, Seguro e Cotrim apareceram um pouco à frente dos demais, mas o cenário continua totalmente indefinido.

Segurança, experiência, independência ?e atributos físicos faciais. O personalismo que se sobrepõe a ideias de governo tem alguma razão de ser. Em Portugal, o presidente não governa. Cabe ao primeiro-ministro definir as políticas públicas. Como chefe de Estado, o ocupante do cargo atua como uma espécie de "adulto na sala" da democracia: tem o poder de vetar leis e dissolver o Parlamento.

Quando isso ocorre, diz-se que o presidente jogou a "bomba atômica", na gíria portuguesa. Trata-se de um poder relevante e que ultimamente vem sendo bastante usado. O atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, dissolveu o Parlamento três vezes ao longo de seus dois mandatos (está há dez anos no posto), convocando novas eleições.

As propostas que faltaram nos outdoors apareceram nos debates eleitorais, que em Portugal funcionam como um campeonato de pontos corridos. Todos os candidatos se enfrentam aos pares, cara a cara. A maratona teve 28 encontros. Quem teve paciência para acompanhar todos os jogos ?ou mesmo quem assistiu apenas aos "clássicos"? viu debates mais objetivos e informativos do que os que costumam ocorrer nas eleições brasileiras.

As qualidades pessoais dos candidatos importam. Em Portugal, no entanto, ao contrário do que ocorre no Brasil, os partidos políticos representam projetos de país: a preservação da social-democracia (os socialistas de António Seguro), a reforma do Estado de bem-estar (a Aliança Democrática, de Marques Mendes), privatizações e dinamismo econômico (a Iniciativa Liberal, de João Cotrim) e assim por diante.

O campeonato eleitoral só deve conhecer sua final em um jogo de volta, o segundo turno, previsto para 8 de fevereiro. A maior rejeição é mesmo a do ultradireitista André Ventura. Se passar para a rodada decisiva, segundo as pesquisas, elege o oponente que duelar com ele. Boa notícia para os imigrantes de Bangladesh ?e para os imigrantes de maneira geral, incluindo os cerca de 500 mil brasileiros que vivem em Portugal.