SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sob ameaça direta de um ataque dos Estados Unidos, o governo do Irã aumentou a pressão sobre os manifestantes que desafiam seu regime teocrático há duas semanas e meia. Ao mesmo tempo, se prepara para uma ação militar e ameaça retaliação.

Os protestos, que começaram como atos contra a crise econômica e se transmutaram na mais séria ameaça à teocracia desde sua instalação em 1979, aparentemente cederam em escopo devido à brutal repressão policial.

Análise do Instituto para Estudo da Guerra (EUA) mostra uma queda acentuada nas manifestações verificáveis a partir da noite da quinta-feira passada (8), quando começou o corte mais radical na internet e na telefonia móvel do país persa.

De 156 cidades afetadas em 27 das 31 províncias iranianas naquele dia, o número caiu para 7 e 6, respectivamente, na terça (13). A curva acompanha a intensificação da repressão policial no fim de semana, que já deixou segundo a ONG baseada nos EUA Hrana 2.403 mortos.

O problema da conta é óbvio: a subnotificação de atos pode ter a ver com a dificuldade de verificá-los justamente devido ao blecaute informativo. Com efeito, o mesmo instituto aponta relatos de que a polícia agora está fazendo batidas para apreender antenas de Starlink, o sistema de internet por satélite usado para driblar o apagão.

Elas vinham sendo a porta de saída das imagens que as redes normais não conseguiam mais transmitir. E há sinais de que, se diminuíram em escopo, as manifestações seguem fortes.

Na noite de terça, vídeos mostravam milhares de pessoas nas ruas de Teerã, um dia depois de o regime promover atos em seu favor. Nesta quarta, o governo também promoveu na capital o funeral de alguns dos mais de cem policiais mortos em ação.

Por outro lado, a ausência de internet e celular dificulta a mobilização dos atos, que segundo ativistas são descentralizados e nunca tiveram lideranças claras.

É uma disputa também midiática, que tem no presidente Donald Trump um elemento central. O americano cancelou negociações com o Irã, prometeu que "a ajuda está a caminho" e instou as pessoas a permanecerem na rua. O regime já trata as ameaças como um fato consumado.

Nesta quarta (14), diversos sinais de que alguma ação militar poderá ocorrer se acumularam. Segundo relatos colhidos pela agência Reuters, os EUA determinaram a saída de parte do pessoal de sua principal base no Oriente Médio, Al-Udeid, no Qatar. Não há, contudo, nenhuma movimentação maciça de tropas.

Quando Trump atacou o programa nuclear do Irã durante a guerra de 12 dias entre a teocracia e Israel, em junho passado, a base foi o alvo óbvio de uma retaliação coreografada por Teerã para satisfazer o público interno ?um ataque sem danos.

Agora, contudo, pode ser diferente. Al-Udeid, com cerca de 10 mil militares e civis, é 1 das 8 bases permanentes dos EUA na região, que mantêm cerca de 20 pontos no Oriente Médio. O Irã, também segundo a Reuters, avisou aos vizinhos que irá atacar as bases caso seja alvejado.

A natureza de uma nova ação americana também é incerta. Trump parece disposto a repetir o desenho de um ataque aéreo mais cirúrgico, até para evitar mortes entre os civis que diz querer apoiar. O alvo óbvio seria a cabeça do regime, o aiatolá Ali Khamenei, mas Washington sabe que eliminá-lo poderá jogar o poder na mão da temida Guarda Revolucionária.

A unidade controla parte do Estado iraniano. Nesta quarta, o comandante de seu braço aeroespacial, Majid Mousavi, disse à mídia local que está tudo pronto para a guerra.

"Estamos no auge de nossa prontidão", afirmou. Ele disse algo improvável: que os danos à defesa aérea da capital na guerra com Israel foram reparados e que suas forças são melhores agora do que em junho passado.

Dado que o Estado judeu estabeleceu superioridade aérea sobre o Irã em dois dias naquele conflito, parece difícil de acreditar. Mesmo o grande ativo dissuasório do país, sua força que tinha 2.000 mísseis balísticos antes do conflito, teve um desempenho pífio na ocasião.

Isso não quer dizer que não ofereçam perigo, em especial em caso de ataques de saturação, quando vários projeteis miram o mesmo alvo. E os EUA só contam com eventuais defesas antiaéreas e caças que ainda precisam ser enviados para reforçar suas posições no Oriente Médio.

Usualmente, os americanos só vão à guerra na região com apoio de porta-aviões. Eram três quando atacaram o Irã, garantindo uma cobertura às bases locais e também poder de escalada. Agora, não há nenhum operando no Oriente Médio, o que sugere talvez um ataque mais limitado.

No campo diplomático, Teerã fez contatos com três países próximos dos EUA na região nesta quarta: Qatar, Emirados Árabes Unidos e Turquia. A todos, segundo o chanceler Abbas Araghchi, relatou que a situação está sob controle e o país, pronto para se defender.

Do lado da oposição ao regime, o filho do governante deposto em 1979, Reza Pahlavi, voltou às redes sociais pedir a manutenção da mobilização. Ele emergiu como uma figura de consenso entre manifestantes sem coesão ideológica ou partidária, apesar de nunca ter tido muito destaque político.

Tudo indica que os EUA estão por trás dessa construção. Segundo o site Axios, Pahlavi encontrou-se secretamente com o enviado de Trump para conflitos, Steve Witkoff. Ato contínuo, Teerã acusou os americanos de fomentar a revolta para promover seus interesses no país rico em petróleo.