SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A repressão aos protestos no Irã já resultou, até o momento, em ao menos 3.500 mortos e outros milhares de feridos, segundo a organização iraniana de direitos humanos IRH (Iran Human Rights).
Em cinco dias, pelo menos 3.379 manifestantes morreram durante os protestos que tomam as ruas do país desde o fim de dezembro, de acordo com a IRH. O dado da organização, que coleta dados a partir de fontes do Ministério da Saúde e Educação Médica da República Islâmica, é referente ao período do dia 8 ao 12 de janeiro.
No mesmo período, 121 membros de forças militares, policiais, judiciais e de segurança morreram, segundo noticiado pela mídia estatal iraniana. No ínicio da semana, autoridades do país mencionaram "cerca de 2.000 mortos" em um primeiro reconhecimento de vítimas durante protestos. À agência Reuters, uma delas disse que "terroristas" estavam por trás das mortes de manifestantes e do pessoal de segurança, sem detalhar mais sobre as vítimas.
ONG ressalta que o número de mortos registrados "representa um mínimo absoluto". "Novos relatórios e depoimentos recebidos pela IHR ilustram ainda mais a dimensão da violência", acrescentou.
Segundo investigações publicadas pelo Iran Human Rights Documentation Center, porém, o número de mortos pode chegar a 12 mil. A organização afirma ainda que grande parte das vítimas tinha menos de 30 anos, incluindo estudantes.
Manifestantes rendidos foram mortos por forças de segurança iranianas, segundo relatado por testemunhas à organização. Uma delas, que diz ter presenciado um episódio de execução na cidade iraniana de Rasht, afirmou ter visto manifestantes em meio a incêndios encurralados por forças de segurança. Eles teriam levantado as mãos em sinal de rendição e, mesmo assim, sido mortos a tiros pelos agentes.
Civis já feridos também teriam sido "eliminados" pela polícia iraniana, segundo outros relatos coletados pela IHR. Segundo a entidade, as testemunhas relataram que os ataques ocorreram tanto nas ruas quanto em instalações médicas.
"Em 14 de janeiro, Gholamhossein Mohseni-Ejei, chefe do judiciário da República Islâmica, visitou um centro de detenção onde estavam vários manifestantes e enfatizou a necessidade de julgamentos e punições rápidas, afirmando: 'Se queremos fazer algo, devemos fazê-lo rapidamente e em tempo hábil. Se conseguimos fazer algo hoje, mas o fizermos dois ou três meses depois, não terá o mesmo efeito'. Enquanto isso, em 10 de janeiro, o Procurador-Geral declarou todos os manifestantes como mohareb (inimigos de Deus), uma acusação que prevê pena de morte", declarou o IHR, em nota.
Organização pede que comunidade internacional intervenha para "prevenir atrocidades e proteger o povo do Irã". O diretor da IHR, Mahmood Amiry-Moghaddam, ressaltou em nota que, "após o massacre de manifestantes nas ruas nos últimos dias, o judiciário da República Islâmica está ameaçando os manifestantes com execuções em larga escala".
"A comunidade internacional deve levar essas ameaças extremamente a sério, pois autoridades da República Islâmica cometeram crimes semelhantes na década de 1980 para se manterem no poder. Se a comunidade internacional não agir a tempo, milhares de pessoas estarão em risco de execução", disse Amiry-Moghaddam.
SENTENÇA DE MANIFESTANTE DE 26 ANOS
Primeira execução, de Erfan Soltani, 26, está marcada para esta quarta-feira (14). O jovem foi preso em 8 de janeiro em sua casa, após participar de protestos na cidade de Fardis, próxima à capital Teerã.
A sentença dele aconteceu após um "processo judicial rápido e obscuro", informou a ONG Iran Human Rights. Segundo a organização, a família do jovem só soube, poucos dias após a prisão, sobre o dia da execução.
Jovem não teve acesso a advogado, disse sua família ontem. Segundo os parentes de Soltani, eles só foram autorizados a visitá-lo por 10 minutos.
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, incitou os iranianos a manter os protestos e a ocupar instituições. "A ajuda está a caminho", disse Trump no Truth Social. "Guardem os nomes dos assassinos e abusadores. Eles pagarão um preço alto. Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que o assassinato sem sentido de manifestantes pare".
Trump disse no domingo que o Exército dos EUA avalia medidas duras contra o Irã, após a morte de manifestantes, o que ele chamou de "linha vermelha". Ele também afirmou que líderes iranianos pediram uma reunião, mas que os EUA podem agir antes disso.
Ministro iraniano afirmou que país está pronto tanto para a guerra e como a negociações. Abbas Araghchi, que comanda as Relações Exteriores, apontou que a diplomacia deve ser justa, "com direitos iguais e baseadas no respeito mútuo".
MOTIVO DOS PROTESTOS
A nova onda de protestos no Irã foi iniciada por comerciantes do bazar de Teerã que reclamavam das más condições econômicas do país. Eles se organizaram contra a inflação galopante e o colapso do rial, moeda oficial do Irã, em manifestações que ganharam contornos políticos e se espalharam por diversas cidades do interior.
Iniciadas em 28 de dezembro, as manifestações se espalharam rapidamente para outras partes do Irã, guiada por slogans antigovernamentais. Até o bloqueio da internet pelo governo persa, os protestos haviam atingido todas as 31 províncias e cerca de 190 cidades do país, segundo a IHR.
É a maior onda de protestos desde o movimento "Mulheres, Vida, Liberdade" de 2022-2023. Naquela ocasião, a crise foi desencadeado pela morte sob custódia da estudante Mahsa Amini, após sua prisão pela polícia da moralidade por usar um véu considerado inapropriado.
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