SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, disse nesta quarta-feira (14) que seu país "se abre a um novo momento político" no momento em que ocorre, a passos lentos, a libertação de presos políticos após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, no ataque aéreo de 3 de janeiro.

"A mensagem é uma Venezuela que se abre a um novo momento político, que permita o entendimento a partir da divergência e da diversidade política ideológica", disse Delcy a jornalistas no Palácio presidencial de Miraflores, em Caracas. Ela não respondeu a perguntas.

A líder tem variado entre uma retórica de enfrentamento a Washington, voltada para sua base de apoio interna, e um tom mais conciliatório com o presidente Donald Trump, direcionado à comunidade internacional.

No mesmo dia em que Maduro foi capturado, por exemplo, ela desafiou o republicano ao afirmar que o ditador era "o único presidente" do país. "Estamos prontos para defender a Venezuela", disse, logo após Trump afirmar que os EUA governariam a nação até uma "transição pacífica, adequada e criteriosa".

No dia seguinte, porém, afirmou que considerava prioritário "avançar rumo a uma relação internacional equilibrada e respeitosa entre EUA e Venezuela". "Estendemos um convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação voltada para o desenvolvimento compartilhado", continuou.

Trump, por sua vez, anunciou nesta quarta que teve uma "longa conversa" com Delcy por telefone. "Discutimos muitas coisas, acho que tudo está indo muito bem com a Venezuela", disse o presidente a jornalistas no Salão Oval. Ela foi classificada como "uma pessoa formidável" pelo republicano, que tem um encontro marcado com a líder da oposição, María Corina Machado, nesta quinta (15) na Casa Branca.

A data pode coincidir com a visita de um representante da Venezuela. Segundo o jornal The New York Times, autoridades americanas e venezuelanas afirmaram que o regime vai enviar o diplomata Félix Plasencia a Washington -uma visita que, se confirmada, seria a primeira oficial de um representante do chavismo aos EUA em anos.

Na última quinta (8), o regime anunciou a libertação de um "número significativo" de presos políticos, mas, quase uma semana depois, o processo continua lento e com números conflitantes.

Nesta quarta, Delcy afirmou que já somam 406 as libertações de presos políticos desde dezembro --116 somente nesta semana. A cifra coincide com a anunciada por seu irmão e presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, na véspera.

A declaração de Rodríguez ocorreu em resposta ao deputado opositor Luis Florido, que havia pedido para o presidente da Assembleia "cumprir integralmente sua palavra para que as libertações em massa pudessem ocorrer" e os familiares dos detidos fossem poupados de sofrimento.

"Até o momento, mais de 400 pessoas foram libertadas; as primeiras 160, em 23 de dezembro", afirmou o chavista, em referência às solturas que ocorreram no último Natal. Na ocasião, a agência de notícias AFP falou em ao menos 60 libertações em 25 de dezembro e 99 no dia seguinte.

Há pouca clareza nos números de forma geral, no entanto. A ONG venezuelana Foro Penal, por exemplo, contabiliza cerca de 180 libertações considerando as duas levas de dezembro e os libertados no atual processo, a conta-gotas. Desde 8 de janeiro, apenas 72 pessoas teriam sido libertadas.

Também na terça, Rodríguez atacou o trabalho da organização. "O Foro Penal cobra as pessoas para processar suas libertações. Cobram de forma enganosa e mesquinha. É desprezível a forma como o Foro Penal explora a situação de pessoas privadas de liberdade", afirmou, sob aplausos de apoiadores.

No mesmo dia, o diretor da entidade afirmou, em um vídeo publicado na rede social X, que "jamais cobrou absolutamente nada para incluir pessoas em listas de presos políticos que atualizamos toda semana". "O Foro Penal está à disposição para um processo de pacificação, reunificação nacional e liberdade para todos os presos políticos", continua.

A organização e outros grupos de direitos humanos estimam que a Venezuela mantenha entre 800 e 1.000 presos políticos.

Uma nova leva de libertações nesta quarta-feira soltou jornalistas e trabalhadores da imprensa, incluindo o reconhecido ativista opositor Roland Carreño, preso no início de agosto de 2024 em Caracas. Na época, ao menos 2.400 pessoas foram presas e 28, mortas em meio a uma onda de manifestações posterior à contestada reeleição de Maduro para um terceiro mandato.

Até a tarde desta quarta, o sindicato de imprensa venezuelano afirmou que 18 pessoas haviam sido libertadas, incluindo repórteres, cinegrafistas, assistentes e membros de equipes de imprensa da oposição.

As autoridades estão evitando libertações diretas das prisões, onde dezenas de familiares se reúnem desde o dia 8 na esperança de ver seus entes queridos livres. Em vez disso, os detentos são transferidos dos presídios para outros locais, longe da imprensa.

Carreño, por exemplo, foi libertado em um shopping center. "Com sentimentos contraditórios, mas finalmente livre e aguardando os acontecimentos futuros, que devem ser nada menos que um encontro, paz e reconciliação", disse ele em um vídeo de Luis López, outro jornalista libertado, divulgado pela imprensa local.

O jornalista era membro do partido opositor Vontade Popular e um colaborador próximo do ex-líder da oposição Juan Guaidó. Anteriormente, trabalhou como comentarista em um programa de opinião no canal de notícias Globovisión e já havia sido preso entre 2020 e 2023 sob a acusação de "terrorismo"

Carreño estava detido na prisão Rodeo 1, nos arredores de Caracas, e disse ter sido informado de sua libertação nas primeiras horas da manhã. "Ainda há muitas pessoas na prisão, e esperamos que sejam libertadas gradualmente até que não haja mais nenhum preso", acrescentou, segundo a agência de notícias AFP. "Não é bom nem saudável para um país ter presos políticos."