SÃO PAULO, SP (FOLHARESS) - A reação da esquerda brasileira à repressão do governo iraniano a manifestantes se divide entre o silêncio de parte das lideranças e críticas ao regime acompanhadas de ataques à política externa dos Estados Unidos.
Ao menos 2.000 pessoas morreram, segundo organizações de direitos humanos, desde o fim de dezembro em atos iniciados devido à desvalorização do rial e a alta da inflação.
A maior parte da esquerda evita se posicionar sobre o tema, sensível a esse campo político devido ao histórico de interlocução do Irã com o governo Lula. Procurados, PT e PSOL não responderam aos pedidos de posicionamento oficial enviados pela reportagem. Os deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ), Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e Ivan Valente (PSOL-SP), além do presidente do PT, Edinho Silva, não responderam aos contatos.
O deputado federal Orlando Silva (PC do B-SP) não respondeu às perguntas encaminhadas. O historiador e influenciador comunista Jones Manoel não quis comentar. O secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), não se manifestou, e Tarcísio Motta (PSOL-RJ) disse por meio de sua assessoria não conseguir conceder entrevista neste momento.
A relação entre o Irã e o Brasil incluiu a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) à posse do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, em 2024, e condenações a ataques israelenses ao país, gestos publicamente agradecidos por Teerã.
A balança comercial entre os países é favorável ao Brasil, mas pode ser afetada após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar que sancionará parceiros comerciais do Irã. A defesa da soberania nacional também tem sido central no discurso do governo Lula diante das investidas recentes de Trump na América Latina, especialmente após ações contra a Venezuela.
O PC do B afirmou que acompanha a escalada de tensões no país e que "é falsa a alegação de Trump de que irá salvar o povo iraniano ou que esteja preocupado com o sofrimento econômico de sua população causado exatamente pelos embargos e sanções impostos ao país há décadas pelos EUA".
"O Irã é o país que mais apoia o povo palestino e se opõe ao genocida governo de Israel no Oriente Médio. E isso incomoda por demais os EUA."
A legenda também publicou uma nota em que afirma que o Irã é deve resolver questões internas sem interferência dos EUA.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) afirmou que "não há ideal anti-imperialista que seja capaz de justificar um regime que, no fim das contas, se impõe por meio da força e da negação de direitos básicos do povo iraniano".
"Mulheres sem direito ao próprio corpo, um abismo social cada vez mais profundo, o acúmulo desenfreado de poder e riqueza pela classe política, o fim da separação entre religião e Estado, a negação da existência de pessoas LGBTQIA+, a restrição de liberdades individuais e o controle da imprensa descrevem o Irã de hoje", disse a deputada, "e também descrevem os planos de Donald Trump para os Estados Unidos".
Ela afirmou ainda que teme uma possível ingerência dos Estados Unidos, "não por qualquer apreço pelas lideranças iranianas, mas por saber que um povo que, há tempos, deixou de ser dono do próprio país pode, após muita luta e sofrimento, continuar nessa condição mesmo que caia o aiatolá".
O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ), que está com o mandato suspenso por seis meses, afirmou que não fará declarações que possam "corroborar a ingerência externa" conduzida pelos Estados Unidos.
"A maior arma que se entrega à direita é passar pano para Donald Trump diante do conjunto de absurdos que ele tem cometido no mundo", disse.
Segundo ele, críticas seletivas a regimes sob pressão de Washington reforçam a ideia dos EUA como um "xerife do mundo" e dão respaldo a ataques "ilegais e criminosos".
"Os Estados Unidos ameaçam atacar o Irã, já atacaram a Venezuela, ameaçam atacar a Colômbia e fazem o mesmo tipo de pressão sobre a América Latina como um todo", afirmou.
"Isso não significa legitimar ou apoiar este ou aquele regime."
O deputado estadual Paulo Fiorilo (PT-SP) afirmou que a posição defendida pelo campo petista parte do respeito à soberania, em oposição a práticas do presidente dos Estados Unidos. "O que Trump fez na Venezuela e o que ameaça fazer no Irã são absurdos", disse.
Ele também rebateu críticas da direita sobre suposta seletividade da esquerda.
"Se olharmos a posição da direita diante de governos autoritários, o ex-presidente Jair Bolsonaro dialogou com vários deles da mesma forma. Eles cobram autocrítica, mas não enfrentam as próprias relações que estabelecem, inclusive aqui na América Latina e na América Central, onde elogiam regimes autoritários", afirmou.
Já o deputado estadual Renato Freitas (PT-PR) disse que as manifestações, mesmo que legítimas, carregam "as digitais dos EUA, que estimulam os protestos não porque se preocupam com a população iraniana, mas por interesses de domínio sobre o país".
Para o ex-consultor do Banco do Brics e militante do PC do B Elias Jabbour, sanções internacionais agravaram dificuldades econômicas no Irã por décadas e ajudam a explicar o cenário atual.
"É um país que está expulso do sistema financeiro internacional", afirmou.
"Direitos humanos e democracia só sobrevivem plenamente em países que têm soberania", disse Jabbour, que é presidente do Instituto Pereira Passos, da Prefeitura do Rio.
O próprio governo Lula adotou tom cauteloso em relação ao tema. Em nota divulgada na terça (13), o Itamaraty lamentou as mortes nos protestos e afirmou que cabe "apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país", sem fazer críticas ao regime.
O comunicado ocorreu horas após Trump instar manifestantes a "tomarem as instituições" iranianas e anunciar o cancelamento de qualquer diálogo com Teerã. O Irã acusou Trump de incitar a desestabilização política do país, em carta enviada à ONU.